O Carnaval de Joaçaba não surgiu como espetáculo. Antes de se tornar um dos desfiles de escolas de samba mais reconhecidos do Sul do Brasil, a festa nasceu da ocupação popular das ruas, da necessidade de expressão cultural e da busca por pertencimento. É uma história construída por gerações, marcada por organização coletiva, arte e resistência cultural, que hoje projeta o município para além das fronteiras de Santa Catarina.

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Essa trajetória começa muito antes dos desfiles atuais. Pesquisador da história do Carnaval local e carnavalesco da Acadêmicos do Grande Vale, Jorge Zamoner explica que os registros da folia em Joaçaba são antigos e antecedem a própria organização das escolas de samba.

— Carnaval de Joaçaba já tem uma história bastante longa. A gente fez uma pesquisa muito tempo atrás sobre a origem do Carnaval de Joaçaba. Conseguimos levantar fotos, dados desde 1934 e até antes disso. Já se comentava que havia Carnaval de Joaçaba — diz.

Apesar desses registros, Jorge destaca que o modelo que deu origem ao Carnaval como ele é conhecido hoje começou a se consolidar apenas no fim da década de 1970, quando a festa deixou os salões fechados e passou a ocupar definitivamente as ruas da cidade.

— Mas, na verdade, o surgimento desse período que hoje nós temos do Carnaval mais recente começou com os primeiros blocos em 1978, 79, onde os blocos Finotrato, Caís do Petróleo e Esquinão, aqui do centro da cidade, começaram um movimento na rua — relembra.

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Naquele contexto, a rua representava mais do que um espaço físico: era a possibilidade de inclusão. Segundo Jorge, os clubes da época tinham um perfil mais restritivo, o que impulsionou o crescimento do Carnaval popular.

— Na época, acredito que a rapaziada tinha um pouco de dificuldade dentro dos clubes, que eram mais elitizados, tinham que pagar um custo maior, e a rua começou um movimento com esses blocos — cita.

Com o aumento da participação e o fortalecimento do envolvimento comunitário, os blocos passaram a se estruturar de forma mais organizada, dando início à formação das primeiras escolas de samba.

— Nos anos seguintes, esses blocos começaram a se organizar para formarem escolas, tanto que o Finotrato se juntou com outro grupo e acabou surgindo a Vale Samba. Na época, existia já a Unidos do Herval, que é aqui do município coirmão, do ladinho, só dividido pelo Rio do Peixe. E assim começou o Carnaval de Joaçaba, com essas duas escolas formadas — destaca.

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A influência do Carnaval do Rio de Janeiro

A partir desse momento, o Carnaval joaçabense entrou em um processo contínuo de crescimento, profissionalização e aperfeiçoamento artístico. Desde o início, o modelo adotado teve como principal referência o Carnaval do Rio de Janeiro.

— Essas figuras, junto com muitos artistas da cidade, acabaram se tornando uma grande referência com relação às escolas de samba do Carnaval de Joaçaba. O processo foi muito espelhado desde o início no Carnaval do Rio de Janeiro, e isso fez com que a gente tivesse um cuidado muito especial na produção dos espetáculos, na criação de fantasia — comenta.

O cuidado com enredos, fantasias e alegorias passou a ser um dos principais diferenciais do Carnaval de Joaçaba, que aos poucos se consolidou como um dos mais organizados do país fora do eixo do Rio de Janeiro e São Paulo.

Ao longo dos anos, novas escolas surgiram e fortaleceram ainda mais o desfile. Além da Vale Samba e da Unidos do Herval, a Escola de Samba Aliança teve papel fundamental nesse processo histórico. Em 2012, um novo capítulo foi escrito com o surgimento da Acadêmicos do Grande Vale.

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— No período de 2012, com um grupo dissidente da Vale Samba, nasceu também a Acadêmicos do Grande Vale, que hoje são as três grandes escolas responsáveis pelo sucesso do Carnaval de Joaçaba: Acadêmicos do Grande Vale, Vale Samba e Unidos do Herval e uma que está em estágio probatório — cita.

O desfile como símbolo cultural de Joaçaba

Para Jorge, o desfile de escolas de samba se tornou símbolo cultural do município porque representa uma das manifestações mais ricas da cultura brasileira e porque se manteve em crescimento constante ao longo dos anos.

— O Desfile de Escola de Samba é o movimento popular mais rico da cultura brasileira, e principalmente pela qualidade do espetáculo. Ele acabou se tornando um símbolo porque vem acontecendo todos os anos em Joaçaba numa crescente — diz.

Esse crescimento transformou o Carnaval em um importante motor turístico e cultural. Hoje, Joaçaba recebe visitantes de diversas regiões do país e até de outros países.

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— Hoje nós recebemos gente do Brasil inteiro, até do exterior, que vem do Paraguai, da Argentina, e esse é o nosso grande mote turístico cultural do município. É turístico porque é um movimento da cultura regional, não é mais local — destaca.

Formação de novas gerações e projetos sociais

Além do espetáculo, o Carnaval passou a desempenhar um papel social e educativo. As escolas investem na formação de novos talentos e na preservação da cultura carnavalesca entre crianças e adolescentes.

— A gente tem trabalhado junto com a secretaria de Educação do Município para inserir no currículo das escolas municipais disciplinas relativas à escultura, pintura ou bateria. Isso nós já temos nas escolas, oficinas de música, principalmente de percussão, oficinas de adereços, envolvendo todos esses projetos e profissionais que a gente precisa para a montagem de uma escola — frisa.

A presença das crianças é vista como fundamental para garantir o futuro da festa.

— Envolvendo crianças, nós temos alas de crianças, trazemos elas para os espaços dos barracões, e agora teremos também o Carnaval Infantil para motivar as crianças. Esses projetos sociais são justamente para que elas peguem gosto pela arte do Carnaval — comenta.

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Momentos marcantes e apoio institucional

Ao relembrar os momentos mais marcantes dessa trajetória, Jorge destaca a criação da Liga das Escolas de Samba como um divisor de águas na organização dos desfiles.

— Um dos momentos mais marcantes foi a criação da Liga das Escolas de Samba, que organizou os desfiles. Com a vinda dos jurados do Rio de Janeiro, a liga proporcionou a ida das escolas para o Rio e se espelhou muito na qualidade e no sistema do Carnaval carioca. Outro momento muito importante foi a participação efetiva do Governo do Estado e também da Prefeitura de Joaçaba, com o atual prefeito e o secretário Paulo, que é filho do Carnaval, nascido dentro das escolas de samba, dando um incentivo total para que o Carnaval de Joaçaba se fortaleça definitivamente — diz.

Ainda de acordo com Jorge, o Carnaval de Joaçaba se construiu a partir da coletividade, da arte e da memória. Uma história que segue em evolução, mantendo vivas as raízes que transformaram a cidade em referência nacional quando o assunto é desfile de escolas de samba.

Fotos antigas marcam a história do Carnaval de Joaçaba

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