Uma carta escrita por volta de 1505, no século 16, conta a história da expedição feita por Binot de Gonneville no Litoral Norte de Santa Catarina. Por aqui, o navegador francês conheceu um povo indígena chamado de Carijó. Gonneville pisou principalmente nas terras que hoje são conhecidas como Itapoá e levou junto com ele de volta para a França o filho do cacique, que, apesar da promessa de retorno, nunca mais pisou em terras brasileiras. O caso está presente no livro do historiador formado pela Univille Gleison Vieira, e que agora realiza pós-doutorado em História na PUC de São Paulo.
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Gleison conta no livro “Os Carijó: Vozes da Terra” (volume I)”, a história do povo Carijó, que caminhava pelas praias do sul do Brasil quando o mundo europeu aqui aportou. Segundo sua pesquisa, o povo indígena que aqui vivia no século 16 era uma nação guaranítica, falante do tupi.
Durante a pesquisa, Gleison leu, ainda em francês arcaico, a carta que narra toda a expedição de Binot de Gonneville. Apesar de não ter sido o primeiro tradutor, ele fez uma releitura ao traduzir para o francês moderno e, depois, ao português. Agora, traz o relato em seu livro.
A carta chama atenção porque Gonneville narrou todo o cenário que encontrou em terras catarinenses e definiu o povo carijó como acolhedor e amoroso. Os jesuítas, que vieram catequizar estas terras, chamaram-nos de “o gentio mais amável da Terra”, conta Gleison.
“Gonneville pisava nas restingas do sertão do Saí, em 1504. O cenário que se desdobrava diante os europeus, naquele início de século XVI, já era o de uma terra em ebulição. Sob o brilho estelar do Cruzeiro do Sul, que passava a guiar navegadores e iluminava destinos para os mares do sul, as praias recebiam não apenas os passos estrangeiros dos capitães e bucaneiros, mas também as marcas profundas de uma revolução indígena silenciosa e inexorável, que se iniciara 500 anos antes do chamado Descobrimento do Brasil”, narra o historiador no livro.
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Outro ponto importante da carta é um acordo feito entre Gonneville e o cacique da região. O filho da liderança indígena seria levado para a Europa com a expedição para aprender sobre as armas.
— Ele [Gonneville] foi um cara que celebrou esse acordo com os indígenas. Como é que é isso, ele volta para a França, prometeu ao Araçá, que era o cacique, [levar o filho dele] para a Europa aprender a usar as armas, a pólvora e os canhões europeus. E, em 20 luas (20 meses), ele voltaria munido com conhecimento e com armas dos europeus. Só que não foi possível fazer isso porque como o navio naufragou, o Gonneville ficou em descrédito, ninguém quis patrocinar a volta do indígena — conta o historiador.
Içá-Mirim, filho de Araçá, continuou vivendo na Europa como filho do navegador francês. Morreu aos 94 anos sem voltar para as terras catarinenses, segundo pesquisa feita por Gleison.
A carta que traz esta história tem dezenas de páginas e conta detalhes da viagem de Gonneville para a região do Litoral Norte de Santa Catarina. Inclusive, o naufrágio, que ocorreu após ataque de piratas no retorno à Europa, e do qual apenas alguns marinheiros sobreviveram.
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As histórias, pesquisadas pelo historiador Gleison, estão presentes no livro “Os Carijó: Vozes da Terra” (volume I), que faz parte de uma trilogia ainda em lançamento. O volume 1 já foi publicado digitalmente e pode ser conferido nas redes sociais do escritor.
— No primeiro volume da trilogia pulsa um coração antigo. A obra busca compreender, à luz da etnologia do século XIX e das crônicas brasílicas do século 16, como os Carijó, muito antes de 1500, caminharam desde a Amazônia até a costa meridional do Brasil, numa migração lenta, ancestral, quase mítica. Impedidos de escrever a própria memória, tiveram sua história narrada por outros. […] Cerca de setenta mil Carijó foram arrancados de sua liberdade e escravizados pelos bandeirantes paulistas. O livro é, assim, um canto de amor e luto, onde a memória resiste ao esquecimento e a terra volta a falar por seus filhos — cita.






