Bombinhas viu quase quintuplicar o número de casos de doenças diarreicas no começo desta temporada de verão em relação à anterior. É o que mostram os dados da Secretaria de Estado de Saúde (veja a lista abaixo). A prefeitura contesta as estatísticas e diz que antes havia uma “subnotificação significativa”, mas que agora reformulou o sistema para refletir o cenário real.
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O fato é que, em sete dias, entre 29 de dezembro do ano passado e 4 de janeiro de 2026, as unidades de saúde de Bombinhas atenderam 409 casos de doenças diarreicas. No mesmo período da temporada 2024/2025, esse número era de apenas 87. Para Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, água e esgoto tratados são a base para combater esses casos.
— Quando não temos água dentro dos padrões de potabilidade ou não temos a coleta e o tratamento dos esgotos, existe uma série de doenças que surgem, como a própria diarreia. Então, quando a gente tem um movimento muito grande de pessoas indo para a praia, consumindo água, gerando esgoto, e isso não é tratado, naturalmente há possibilidade de aumento dessas doenças gastrointestinais — frisa.
No começo desta semana, moradores flagraram esgoto chegando à Praia de Quatro Ilhas, uma das mais icônicas de Bombinhas e que, inclusive, tem o selo de qualidade Bandeira Azul. Segundo a prefeitura, atualmente, pouco mais de 18% do esgoto produzido na cidade é tratado.
O site da empresa Águas de Bombinhas mostra que, na semana em que os 409 casos de doenças diarreicas foram registrados, pelo menos uma vez o sistema de tratamento de água chegou à capacidade máxima e se pediu à comunidade economia nas torneiras. Em outro caso, uma tentativa de furto provocou a interrupção da captação na fonte de água bruta.
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Mas nessa conta entram também comida contaminada e mãos mal lavadas, explica a infectologista Sabrina Sabino.
— O calor extremo do verão acelera a proliferação das bactérias em alimentos, como a Salmonella e a Escherichia coli. Então, quando as comidas ficam fora da refrigeração, elas têm alta carga de transmissão e, por esse motivo, são as principais quando a gente fala em quadros bacterianos — cita.
O outro aspecto, sobre o qual poucos pensam, é a chuva, aponta a infectologista. Os alagamentos típicos dos temporais de verão acabam levando esgoto junto para os mananciais, de onde é captada água para tratamento e distribuição à comunidade. E, com a população multiplicada em virtude dos turistas, o tratamento pode não ser o ideal diante de tanto consumo.
Para se ter uma ideia, Bombinhas tem cerca de 25 mil moradores. Porém, entre dezembro e janeiro, a quantidade de pessoas na cidade atinge níveis estratosféricos. Só no ano passado, foram 2,3 milhões de visitantes. E aí a transmissão por contato se torna outro problema.
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— A gente tem o rotavírus e o norovírus, chamados de enteroviroses. Eles têm afinidade com o intestino e a transmissão é basicamente fecal-oral. E o que isso quer dizer? Mão contaminada. A pessoa foi ao banheiro, teve um quadro de diarreia, não lavou a mão contaminada e vai fazer um preparo em um restaurante. Está feita a besteira. É uma transmissão muito fácil porque é de contato — pontua Sabrina.
O que diz a prefeitura
“Ressaltamos que, no período anterior utilizado como base comparativa, o sistema de registro e notificação de casos apresentava fragilidades, com subnotificação significativa, o que resultava em dados que não refletiam de forma fidedigna a realidade dos atendimentos realizados no Pronto Atendimento e demais serviços de saúde. Essa inconsistência foi identificada a partir da análise dos prontuários médicos e do volume de atendimentos clínicos compatíveis com quadros de diarreia aguda, que não estavam devidamente registrados nos sistemas oficiais.
Diante dessa constatação, o município promoveu, no período atual, uma reformulação do sistema de monitoramento e notificação, com o objetivo de garantir maior precisão, sensibilidade e confiabilidade dos dados epidemiológicos. Foram adotadas medidas como a padronização dos registros, orientação das equipes de saúde quanto à notificação correta dos casos e aprimoramento dos instrumentos de coleta de dados.
Dessa forma, o aumento observado no número de casos notificados não deve ser interpretado, de forma isolada, como um agravamento real do cenário epidemiológico, mas sim como um reflexo direto da melhoria na qualidade da vigilância, da ampliação da detecção e da redução da subnotificação anteriormente existente”.
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