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Segurança pública

Casos de feminicídios crescem 40,9% em Santa Catarina

Violência contra mulher aumentou no Estado neste ano em comparação com o primeiro semestre de 2018

27/07/2019 - 07h00 - Atualizada em: 28/07/2019 - 21h46

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Por Guilherme Simon
Casos de feminicídios crescem em Santa Catarina
Casos de feminicídios crescem em Santa Catarina
(Foto: )

A morte de Gabriella Custódio da Silva, 20 anos, em Joinville na terça-feira (23) reacende o debate sobre feminicídios no Estado. Enquanto os indicadores de homicídio, latrocínio e lesão corporal seguida de morte continuam em queda, o número de casos de vítimas mortas por serem mulheres segue crescendo em Santa Catarina.

Em 2019 já são 31 confirmados, o que representa um aumento de 40,9% em relação ao mesmo período do ano passado. Entre 1º de janeiro e 26 de julho de 2018 foram 22 casos. O levantamento foi realizado pela reportagem a partir de dados da Polícia Civil e da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP).

A análise também permite constatar, por exemplo, que mais da metade deles ocorreu em cidades menores: 56,25% foram registrados em municípios com menos de 100 mil habitantes. Em Florianópolis, capital do Estado, houve um feminicídio nos sete primeiros meses do ano – na Grande Florianópolis foram quatro.

Em todo o território catarinense, os casos atingiram 24 diferentes cidades, com maior incidência nas regiões do Vale do Itajaí e serranas.

Presidente da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid) do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), a desembargadora Salete Silva Sommariva observa que o aumento de mortes violentas, seja de homens ou de mulheres, é motivo de alerta. No entanto, ela ressalta que, no caso dos feminicídios, o crescimento é especialmente preocupante, e chama a atenção das autoridades para rever políticas de atuação.

— Esse aumento nos deixa mais preocupados ainda porque são mortes que, geralmente, ocorrem no seio familiar e poderiam ser evitadas por meio da prevenção, já que grande parte dessas mulheres já possuíam histórico de violência doméstica ou familiar — observa Salete.

A desembargadora acrescenta que outro dado alarmante é a crueldade com que os crimes têm sido cometidos, assim como a idade das vítimas e agressores.

Meios mais usados

Os meios mais utilizados foram tiros por arma de fogo e esfaqueamento, ambos registrados, cada um, em 34,4% dos casos.

56,25%

dos casos foram registrados em municípios com menos de 100 mil habitantes.

36,1 anos

É a média de idade das vítimas

Polícia investiga morte de jovem em Joinville

Morte de Gabriella, atingida por um tiro disparado pelo namorado, é investigada pela Polícia Civil
Morte de Gabriella, atingida por um tiro disparado pelo namorado, é investigada pela Polícia Civil
(Foto: )

Gabriella Custódio da Silva foi morta na terça-feira com um tiro no peito, dentro da casa dos pais do marido, em Joinville.

O rapaz, de 21 anos, é o principal suspeito do crime. Ele chegou a levar Gabriella até o pronto socorro, dentro do porta-malas do carro, mas fugiu em seguida.

Na quinta, apresentou-se à polícia e alegou que o disparo foi acidental. Apesar disso, o caso segue sendo tratado como feminicídio pela Polícia Civil.

De acordo com o delegado Elieser Bertinotti, que conduz a investigação na Delegacia de Homicídios de Joinville, o entendimento é de que a morte da jovem foi ocasionada pela relação com Leonardo Natan Chaves Martins, companheiro dela.

– Seguimos tratando como feminicídio porque, ao nosso entender, a vítima foi morta em decorrência do convívio direto com o autor. Por enquanto, a versão do autor de que a arma disparou acidentalmente não nos parece viável, porque uma arma não dispara sozinha – aponta Elieser Bertinotti.

Leonardo foi liberado após o depoimento. Num vídeo divulgado pela defesa do jovem no mesmo dia, ele afirmou que o ocorrido foi uma tragédia.

– Eu amava muito ela (SIC), é o amor da minha vida. Isso foi uma tragédia e vocês que estão me julgando não sabem o que estou passando – diz Leonardo.

Conforme o delegado, ele seguirá em liberdade até que haja provas concretas para um pedido de prisão temporária. O advogado de Pedro Wellington Alves da Silva também confirmou que Leonardo disse à polícia que o disparo foi acidental. Ele reiterou que a arma era do pai do suspeito, comprada no dia anterior, e que o casal havia ficado curioso para ver. Segundo Pedro, a arma estava sem o pente, mas havia uma bala dentro.

– O Leonardo assume que foi ele, embora tenha sido um acidente. Ele está extremamente arrependido e abalado emocionalmente – descreveu.

Ações da Segurança Pública

O presidente do Colegiado Superior de Segurança Pública de Santa Catarina e comandante- geral da PM, coronel Carlos Alberto de Araújo Gomes Júnior, afirma que o crescimento dos feminicídios é um fenômeno nacional, sobre o qual todas as autoridades policiais têm buscado teses e explicações.

Em Santa Catarina, o coronel pontua que as forças de segurança pública estariam conseguindo reduzir crimes como furtos, roubos e mortes violentas, mas que em contrapartida os crimes dentro do lar aumentaram.

– Essa criminalidade envolve uma violência cultural, estrutural, que até então não era percebida, ou era negada – avalia.

Araújo Gomes aponta que uma série de ações foi tomada com outras polícias e instituições parceiras. Programas como o Polícia Civil por Elas, para mulheres vítimas de violência, a Rede Catarina, que acompanha o cumprimento de medidas protetivas de mulheres, foram intensificados. PM, OAB-SC e Ministério Público desenvolveram um projeto piloto em Imbituba, batizado de Protetores do Lar, para orientar adolescentes sobre violência doméstica.

Por fim, o aplicativo PM SC Cidadão, com lançamento previsto para ocorrer em 60 dias, deve contar com um botão do pânico para mulheres que têm medida protetiva.

– Embora o número esteja maior, e isso é preocupante, desde que iniciamos medidas mais voltadas a esse crime, a frequência diminuiu. Boa parte desses números está concentrada no primeiro trimestre ou quadrimestre – avalia o coronel.

40,62% das mortes é atribuída a companheiros

Neomar da Rosa, 25 anos, morta e esquartejada no mês de janeiro, em Ituporanga. Cheila Regina Tresi, 32 anos, torturada e morta por traumatismo craniano, em fevereiro, em Içara. Janete da Aparecida da Silva, 41 anos, assassinada a facadas quando caminhava para o trabalho, em Santa Cecília, no mês de março.

Além da extrema crueldade, as mortes dessas três mulheres também têm algo comum a praticamente todos os casos registrados este ano no Estado: os principais suspeitos dos crimes são o companheiro ou o ex- companheiro das vítimas.

Conforme o levantamento da reportagem do DC, 40,62% dos feminicídios tiveram a autoria atribuída ao companheiro das vítimas. Em outros 31,25% dos casos, o principal suspeito era o ex-companheiro. Também são apontados como prováveis autores dos crimes namorados, ex-namorados, padrasto e parentes como genro e cunhado. Todos homens, com exceção de um caso, onde a morte de uma adolescente teve como principal suspeita a namorada dela.

Para a delegada Patrícia Zimmermann, coordenadora das Delegacias de Proteção à Mulher, ao Menor e ao Idoso (DPCAMI) em SC, a cultura do machismo é a motivação e pode explicar o crescimento dos casos. De acordo com ela, os agressores veem as mulheres como objetos e não aceitam perdê-las.

– O machismo é tão forte que os agressores não parecem se importar em serem presos. Em cerca de 30% dos casos, os autores cometem suicídio. Há uma relativização da vida – aponta.

A desembargadora Salete Silva Sommariva reflete que o aumento da violência pode ser uma reação à conquista de direitos. Para ela, o crescimento de casos se dá pelo fato de que alguns homens não aceitam o que entendem como perda de poder, de espaço no campo profissional e, sobretudo, dentro do lar.

– Creem que as mulheres são sua propriedade e eles que lhes traçam o destino. Jamais aceitam a separação – analisa.

Já a defensora pública Anne Teive Auras, que atua em Florianópolis com mulheres vítimas de violência, pondera que é difícil precisar o que explica esse tipo de comportamento, mas avalia que a violência sempre pode ser encarada como uma forma de negativa da subjetividade do outro, que não o reconhece como sujeito. A defensora acredita que ele pode estar ligado ao contexto do país.

– O momento vivido pelo Brasil, de retração democrática, enfraquecimento da participação popular na construção de políticas públicas e recrudescimento de discursos violentos e misóginos, não contribui para a diminuição desses índices – declara.

Feminicídios por região

Entre 1º de janeiro e 26 de julho de 2019

Vale do Itajaí

Balneário Camboriú 2

Blumenau 2

Ituporanga 1

Dona Emma 1

Bombinhas 1

Porto Belo 1

Total 8

Grande Florianópolis

Florianópolis 1

Governador Celso Ramos 1

São José 1

Tijucas 1

Total 4

Sul de SC

Tubarão 1

Içara 2

Criciúma 1

Forquilhinha 1

Total 5

Norte de SC

Joinville 2

Papanduva 1

Rio Negrinho 1

Total 4

Oeste de SC

Chapecó 1

Xanxerê 1

Total 2

Serra de SC

Lages 2

Campo Belo do Sul 2

Santa Cecília 1

Campos Novos 2

Correia Pinto 1

Total 8

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