Campinas, no interior de São Paulo, está no epicentro de uma transformação urbana e econômica que já vem chamando atenção em âmbito nacional. Ao mesmo tempo em que o Grupo Iguatemi anuncia a construção de um bairro planejado com 100 prédios, no maior projeto imobiliário privado do interior paulista nas últimas décadas, a gigante chinesa Sany, referência mundial em máquinas pesadas, confirma a instalação de uma nova fábrica na cidade, prevista para começar a operar ainda em 2026. Os dois anúncios, feitos em paralelo, desenham um cenário raro: uma cidade do interior, e não uma capital, virando protagonista de investimentos privados de grande porte que, somados, devem redesenhar o mapa econômico, urbanístico e populacional de uma das regiões mais estratégicas do país.
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Por que Campinas virou alvo de megainvestimentos
Campinas reúne, em um único município, uma combinação de fatores que explica por que o capital privado nacional e estrangeiro tem escolhido a cidade como sede de novos empreendimentos. Entre eles estão:
- PIB de interior: Campinas é consistentemente apontada pelo IBGE como uma das maiores economias fora das capitais brasileiras, com uma das maiores concentrações de renda per capita do interior paulista
- Aeroporto de Viracopos, um dos principais terminais de carga aérea do país, que conecta Campinas a rotas internacionais de exportação e importação
- Proximidade de São Paulo (cerca de 95 km da capital), com acesso direto pela Rodovia dos Bandeirantes e Anhanguera
- Unicamp e polo universitário, com pesquisa tecnológica e mão de obra qualificada
- Rede de rodovias estratégicas (Dom Pedro I, Heitor Penteado, Anhanguera, Bandeirantes), que conecta a cidade ao interior paulista, ao Triângulo Mineiro e ao Sul do país
- Centro industrial consolidado, com presença de empresas como IBM, Mercado Livre, Samsung e outras multinacionais já estabelecidas
Essa combinação atrai, em 2026, projetos de natureza bem diferente, mas que se somam numa mesma tendência: a consolidação de Campinas como polo econômico independente das capitais.
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O Casa Figueira: o megabairro que vai erguer 100 prédios do zero
O anúncio mais visível da transformação em curso é o projeto Casa Figueira, desenvolvido pelo Grupo Iguatemi, o mesmo dos shoppings, em parceria com a Fundação FEAC (Fundação das Entidades Assistenciais de Campinas).
A proposta prevê a construção, ao longo dos próximos 20 anos, de 100 torres residenciais e comerciais em um terreno de 1 milhão de metros quadrados, área equivalente ao bairro da Vila Olímpia, em São Paulo.
O valor geral de vendas (VGV) estimado para o projeto é de R$ 10 bilhões, distribuído ao longo de duas décadas. Os primeiros empreendimentos devem ficar prontos a partir de 2028. A expectativa é que, quando totalmente implantado, o bairro abrigue 50 mil novos moradores.
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A área escolhida fica ao redor do Shopping Iguatemi Campinas, na Vila Brandina, entre as rodovias Dom Pedro I e Heitor Penteado. O terreno engloba espaços vazios nas avenidas Iguatemi e Mackenzie, incluindo trechos ainda considerados rurais, transformando completamente a lógica da região.
Diferente de condomínios fechados, o Casa Figueira será um bairro aberto, como qualquer outra região urbana da cidade. A primeira fase contempla 66 lotes urbanizados, vendidos a incorporadoras selecionadas, que vão desenvolver os empreendimentos dentro das diretrizes do projeto.
O conceito internacional que inspira o projeto: o “bairro de 15 minutos”
O Casa Figueira não é apenas um empreendimento imobiliário: é a primeira aplicação em larga escala no Brasil de um conceito urbanístico que vem ganhando força no mundo, o “bairro de 15 minutos“.
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A ideia, formulada pelo urbanista franco-colombiano Carlos Moreno em 2016, defende que uma cidade deve oferecer, em um raio acessível em até 15 minutos a pé ou de bicicleta, todos os serviços essenciais da vida cotidiana: moradia, trabalho, escola, comércio, serviços de saúde, lazer e áreas verdes.
O objetivo é reduzir o tempo gasto em deslocamentos, diminuir a dependência de carros, aumentar o convívio social e reduzir emissões de carbono.
E isso já vem sendo aplicando em cidades como Paris, Portland, Melbourne, Barcelona e Calgary (no Canadá) adotaram a lógica em projetos de reurbanização nos últimos anos.
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Segundo o próprio Grupo Iguatemi, o Casa Figueira foi concebido para “privilegiar deslocamentos curtos e qualidade de vida”, com tudo acessível em até 15 minutos.
A arquiteta portuguesa Margarida Caldeira, responsável pelas operações do escritório britânico Broadway Malyan em Portugal e no Brasil, é uma das principais vozes por trás do projeto. O Broadway Malyan é o mesmo escritório que liderou a revitalização de King’s Cross, em Londres, estação famosa por abrigar a icônica plataforma 9¾ da saga Harry Potter.
“Para ser um bairro, é preciso ter diversidade de uso, de classes, de tipologias e de condições econômicas e sociais”, afirmou Margarida em seminário sobre urbanismo realizado em Campinas.
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Quem está por trás do Casa Figueira
O projeto resulta de uma articulação entre três atores de perfis diferentes:
- Grupo Iguatemi: proprietário do shopping que dá nome ao bairro, responsável pelo desenvolvimento da infraestrutura, planejamento urbano e governança. O grupo amplia sua atuação de administrador de shopping para desenvolvedor urbano
- Fundação FEAC: organização assistencial histórica de Campinas, proprietária parcial da área do projeto. A fundação transforma o valor imobiliário em recursos para programas sociais na cidade
- Broadway Malyan: escritório britânico de urbanismo, contratado como responsável pelo desenho do bairro. O mesmo escritório tem trabalhos em Londres, Austrália e Canadá
A CEO do Iguatemi, Cristina Betts, resume a visão do grupo: “Um lugar que era a ponta da cidade, hoje está no meio dela. Então, existia uma oportunidade realmente de fazer um bairro do zero num lugar incrível.”
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O que o bairro vai ter
Ao longo das próximas duas décadas, o Casa Figueira deve se consolidar como um bairro multifuncional. O projeto prevê, entre outros elementos:
O investimento inicial apenas da Iguatemi em infraestrutura deve ficar entre R$ 70 milhões e R$ 80 milhões, com um aporte adicional estimado em R$ 250 milhões para a fase de urbanização completa.
Em paralelo, a chegada da gigante chinesa Sany
Enquanto o Casa Figueira redesenha o horizonte urbano de Campinas, a cidade também se prepara para receber um investimento industrial de peso. A gigante chinesa Sany, uma das maiores fabricantes do mundo em máquinas pesadas e equipamentos de construção civil, confirmou a instalação de uma nova fábrica na região de Campinas, com operação prevista para começar ainda em 2026.
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A chegada da Sany reforça uma tendência observada nos últimos anos: empresas chinesas têm escolhido cidades do interior brasileiro, e não apenas capitais, como porta de entrada para o mercado nacional. A nova unidade vai atuar inicialmente com montagem de máquinas da linha amarela (equipamentos de construção pesada), no modelo CKD (peças importadas desmontadas da China e montadas no Brasil), que reduz impostos de importação e aproveita mão de obra local.
A unidade deve gerar milhares de empregos diretos e indiretos e consolidar Campinas como um dos principais polos da indústria pesada no Brasil. Os dois anúncios, Casa Figueira e Sany, são projetos independentes e sem relação direta entre si, mas acontecem no mesmo momento e, somados, mudam a escala do fenômeno que Campinas vive em 2026.
Desafios e pontos de atenção do projeto
Apesar do tamanho e da ambição, o Casa Figueira também é alvo de discussão pública. Entre os pontos de atenção mais citados estão:
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- A presença da comunidade Buraco do Sapo, localizada no Jardim Novo Flamboyant, vizinha à área do projeto. A relação entre o novo bairro de alto padrão e essa comunidade é um dos pontos mais sensíveis da proposta, e ainda depende de definição sobre convivência, acesso a serviços e integração urbana
- Risco de gentrificação – a chegada de empreendimentos de alto padrão costuma pressionar preços de imóveis e aluguéis na região ao redor, o que pode deslocar moradores antigos de bairros vizinhos
- Escala temporal de 20 anos, que atravessa ciclos econômicos e políticos. Projetos dessa duração dependem de estabilidade macroeconômica, continuidade regulatória e ajustes periódicos ao longo da execução
- O desafio prático do conceito “bairro de 15 minutos” no Brasil – a ideia funcionou em cidades europeias e norte-americanas com histórico de planejamento urbano robusto. No Brasil, onde cidades tradicionalmente se expandem de forma desordenada, a aplicação em escala ainda é um experimento aberto
A expectativa do Iguatemi é que esses desafios sejam tratados ao longo da execução do projeto, com o envolvimento da prefeitura, da Fundação FEAC e das comunidades vizinhas.
A Campinas que começa a se desenhar em 2026
A combinação entre um megaprojeto imobiliário privado como o Casa Figueira e a chegada de uma gigante industrial como a Sany pode parecer coincidência e, de fato, são processos independentes. Mas, vistos em conjunto, eles apontam para uma mudança estrutural que vem se consolidando há pelo menos uma década: o interior do Brasil deixou de ser apenas apoio econômico das capitais e passou a receber, por mérito próprio, investimentos de peso global.
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Campinas é hoje o exemplo mais visível dessa lógica. Nas próximas duas décadas, a combinação entre bairro planejado de alto padrão, chegada de fábricas internacionais, crescimento do Aeroporto de Viracopos e expansão das rodovias tende a consolidar a cidade como um dos principais polos econômicos do Brasil fora da Região Metropolitana de São Paulo.
Se o experimento do “bairro de 15 minutos” der certo, também pode servir de referência para outros projetos em outras cidades brasileiras, incluindo capitais regionais que buscam se reinventar diante dos desafios da mobilidade, da sustentabilidade e do crescimento populacional.
Por ora, o cenário é claro: em 2026, Campinas se posiciona no centro de uma das transformações urbanas mais ambiciosas do país e o Brasil inteiro deve acompanhar de perto o que acontece nos próximos anos.
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