O sol forte do semiárido ainda domina a paisagem, mas em Petrolina ele já divide espaço com fileiras de vinhedos irrigados que avançam às margens do Rio São Francisco. Entre a caatinga ao redor e um sistema agrícola controlado pela irrigação, a cidade passou a concentrar produção, turismo e circulação urbana em um mesmo território.

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A cerca de 712 km do Recife e conectada a Juazeiro (BA) pela Ponte Presidente Dutra, Petrolina se firmou como base do enoturismo tropical brasileiro, a partir de um modelo produtivo que alterou a lógica do Sertão e reposicionou o papel do rio na economia regional.

Irrigação muda a lógica produtiva do Sertão

Entre as décadas de 1960 e 1970, projetos de irrigação começaram a utilizar as águas do Rio São Francisco para viabilizar a agricultura em áreas antes limitadas pela seca. Essa mudança ampliou a capacidade produtiva e redefiniu o uso do solo no semiárido, abrindo espaço para uma produção contínua e estruturada.

No final dos anos 1970 e ao longo da década de 1980, surgiram as primeiras vinícolas comerciais da região, instaladas dentro desse novo modelo agrícola baseado em irrigação permanente e alta incidência solar. Essa combinação de fatores garantiu estabilidade produtiva e criou as condições para o avanço da vitivinicultura no Vale do São Francisco, segundo dados da Embrapa Uva e Vinho.

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Com o tempo, o Sertão foi incorporado a uma lógica produtiva mais técnica, em que a água deixou de ser obstáculo e passou a ser elemento de planejamento agrícola.

Múltiplas colheitas ao longo do ano

No Vale do São Francisco, o clima semiárido tropical é marcado por sol intenso durante quase todo o ano e chuvas concentradas em poucos meses. Essa configuração cria uma dinâmica agrícola diferente das regiões tradicionais de vinho, mais dependentes de ciclos fixos.

Diferentemente das vinícolas da Serra Catarinense, que dependem do ciclo de uma única vindima por ano, no Sertão a produção de uvas pode ser escalonada ao longo do calendário. O sistema permite duas podas e duas safras anuais, com colheitas distribuídas em diferentes parcelas de vinhedos. Esse modelo coloca a região em uma posição singular dentro da vitivinicultura mundial, pela possibilidade de produção praticamente contínua.

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Reconhecimento oficial do vinho tropical

Em novembro de 2022, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu ao Vale do São Francisco a Indicação de Procedência para vinhos finos e espumantes, com base em estudos da Embrapa Uva e Vinho. O reconhecimento formaliza uma atividade já consolidada no território.

O selo chama atenção por ser o primeiro do mundo dedicado a vinhos tropicais, categoria que foge ao padrão das regiões de clima temperado. A Indicação de Procedência abrange cinco municípios em dois estados: Casa Nova e Curaçá, na Bahia; e Petrolina, Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, em Pernambuco.

Base do enoturismo regional

Na prática, Petrolina concentra a estrutura de apoio aos roteiros do Vale do São Francisco, funcionando como ponto de conexão entre hospedagem, transporte e acesso às vinícolas distribuídas na região. Esse arranjo transforma a cidade em referência logística e turística do território.

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A partir dela, os visitantes seguem para experiências que combinam vinhedos, degustações e passeios pelo Rio São Francisco, em um circuito que ultrapassa os limites urbanos.

Cidade do interior onde se colhe uva o ano todo Petrolina
Petrolina concentra a estrutura de apoio aos roteiros do Vale do São Francisco. (Foto: Banco de Imagens)

Experiências no Vale do São Francisco

Em Casa Nova (BA), a Vinícola Terranova, do Grupo Miolo, oferece o passeio Vapor do Vinho, que integra navegação pelo Lago de Sobradinho, refeições e degustação de espumantes durante o percurso.

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Em Lagoa Grande (PE), a Vinícola Rio Sol reúne visitas aos vinhedos, etapas da produção e passeio de catamarã com degustação no Rio São Francisco, conectando agricultura e turismo em um mesmo roteiro.

A Adega Bianchetti trabalha com produção orgânica e cultiva variedades como Barbera e Tempranillo, com visitas feitas mediante agendamento direto com a enóloga responsável. Na mesma região, a Vinícola Garziera produz Cabernet Sauvignon de vinhas antigas, enquanto a Botticelli mantém cerca de 40 hectares de vinhedos voltados a espumantes moscatéis.

A cidade além do circuito do vinho

Na orla de Petrolina, bares, restaurantes e espaços de convivência se estendem de frente para o Rio São Francisco e para Juazeiro, cidades conectadas pela Ponte Presidente Dutra desde 1954. O espaço funciona como eixo central da vida urbana.

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A Ilha do Fogo, acessível a pé pela ponte, se destaca como ponto de observação do pôr do sol no rio. O Museu do Sertão reúne mais de 3 mil peças sobre a vida regional, enquanto a Oficina do Artesão Mestre Quincas preserva a produção artesanal de carrancas e objetos típicos. A Catedral Sagrado Coração de Jesus, de arquitetura neogótica, completa o conjunto de marcos urbanos da cidade.

Gastronomia marcada pelo Sertão e pelo rio

No Bodódromo, restaurantes especializados em carne de bode e carneiro dividem espaço com pratos como baião de dois e macaxeira, em um ambiente que também recebe apresentações de forró ao vivo.

Já na orla, a culinária é baseada em peixes do Rio São Francisco, como piau e tilápia, além de moquecas e preparações com camarão, reforçando a ligação direta com o rio. No Balneário de Pedrinhas, restaurantes à beira da água ampliam essa relação entre gastronomia e paisagem. A produção regional de uva e manga aparece com frequência em sucos, doces e sobremesas.

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Clima e dinâmica turística ao longo do ano

O clima semiárido garante sol durante quase todo o ano, com chuvas concentradas entre novembro e abril, influenciando a agricultura e o turismo.

No verão, as temperaturas chegam a 35 °C e favorecem passeios no rio. No outono ocorre a colheita da uva, período de maior fluxo turístico. No inverno, o tempo seco coincide com festas regionais, enquanto a primavera mantém calor intenso e céu aberto.