O teto é preto. O chão é preto. As paredes são pretas. Quando o projetor apaga o que restava de luz na sala, não existe mais nada além de um quadrado branco pulsando imagens que a maioria das pessoas nunca viu e talvez nunca fosse ver de outro jeito. Alguém no público prende a respiração. Outro acomoda o corpo na cadeira, desconfiado. A sessão gratuita de filmes experimentais começa e ninguém sabe exatamente o que vai acontecer e, no fim, chega a surpreender até os próprios fundadores do cineclube Caixapreta.

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A ideia do cineclube surgiu de Antonio Lima, de 29 anos, artista pernambucano e diretor de filmes experimentais que vive em Santa Catarina há quatro anos, e Isabela Wilwert, de 24 anos, artista visual formada pela Udesc e professora de Artes na rede estadual. Veio durante uma caminhada como qualquer outra, uma daquelas conversas que, em um dia comum, poderia ter ficado só no ar. Essa, porém, acabou se concretizando.

O Caixapreta nasceu de uma vontade gigantesca de expandir e democratizar o acesso ao cinema experimental, mas também de um anseio de “conhecer pessoas, compartilhar gostos em comum, expandir o olhar sobre cinema, expandir o cinema experimental, compartilhar aquilo que conhecemos, ocupar espaços, movimentar a cidade de algum jeito, nem que só um arrepio nas noites dos últimos sábados dos meses”, como descrevem com ânimo.

— No mesmo dia, muito entusiasmados, ainda que com certa descrença no projeto, criamos a página no Instagram e começamos a construir juntos um texto de apresentação — relembra Antonio.

As sessões acontecem nos últimos sábados de cada mês, em uma sala dentro do Espaço Plural, na Rua Marechal Deodoro, 46, no bairro Velha. A entrada é gratuita e quase ninguém conhece os filmes exibidos, mas precisam. O nome do cineclube saiu do próprio espaço físico em que ele acontece, da “caixa cênica”, aquela sala preta onde ensaios de teatro acontecem. Por isso, carrega um pouco do teatro, do cinema, do escuro e da luz branca do projetor.

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Saiba mais da história do cineclube

Em 28 de junho de 2025, a primeira edição aconteceu. Ela foi dedicada a sonhos e pesadelos e todo o material exibido foi pensado a partir dessa proposta. Foi “uma deformação na cognição, provocações sensoriais para telespectadores acordados, uma experiência coletiva nos sentidos — todos juntos flutuando através das imagens. O fluxo do nosso subconsciente em um balé suspenso com o tempo”, como prometeu e realizou a equipe do Caixapreta.

O público apareceu e, tempos depois, voltou.

— Nunca imaginamos que a recepção seria tão positiva e que alcançaria um número considerável de pessoas em Blumenau. Cada edição é um turbilhão de sentimentos e com aquele frio bom no estômago, sempre muito instigante. Até agora, o público costuma gostar bastante e sempre elogia a iniciativa. Raramente alguém sai no meio da sessão — relata Antonio.

O projeto funciona com uma equipe pequena, mas apaixonada pelo projeto: Isabela e Antonio na curadoria e organização, e Paulo Sá, um dos criadores do Espaço Plural, que abre as portas e oferece suporte técnico. Cada edição começa com a definição de um tema, depois vem a curadoria, que envolve em torno de seis ou sete curtas-metragens que dialoguem com aquele recorte. São uma colagem de curtas experimentais sem personagens ou narrativa convencional, mas com texturas, sons e imagens que provocam mais do que explicam.

Em seguida, a arte de divulgação é produzida pelo próprio casal e o evento é divulgado no Instagram, em que o cineclube mantém a principal presença pública. As portas sempre abrem uma hora antes da sessão e alguém escolhe uma música para o intervalo justamente para o público ter um momento para se familiarizar com o local, interagir entre si e se preparar para a sessão.

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Quando o projetor está pronto, o público entra na caixa preta.

— Blumenau é uma cidade onde faltam incentivos para que movimentos artísticos e culturais aconteçam. É sempre uma luta para que as coisas não se acabem. Espaços existem, porém fechados e esquecidos, mal aproveitados na maior parte do tempo. O que prevalece e resiste é a cena independente, esses artistas inquietos (de todas as áreas), que por força de vontade, e também por pura necessidade de expressão e de espaço, fazem acontecer e fortalecem a cena artística da cidade — expressam os organizadores do cineclube.

O público que chega por lá é diverso: jovens do skate, cinéfilos de longa data, pessoas que participam de movimentos culturais da cidade há anos e curiosos que chegam pela primeira vez, alguns guiados apenas pela arte de divulgação nas redes sociais. A maioria que chega até o Espaço Plural acaba, até, metamorfoseando de desconhecido para amigo dos fundadores.

— Tudo acontece de maneira livre e aberta. Sempre deixamos claro que a ideia é que todos venham e também convidem outras pessoas. É um momento de encontro e de troca, conversas. Nesse tempo de cineclubismo, fizemos amizades com pessoas muito queridas, criamos vínculos e, por meio dessas relações, passamos a conhecer melhor a cidade e quem vive nela. Existe uma atmosfera muito massa no Espaço Plural. Talvez isso também tenha contribuído para que as edições fossem tão bacanas e atraíssem pessoas incríveis — reflete Isabela.

A edição mais surpreendente em número de público aconteceu em 2025, durante o festival de arte e cultura Colmeia, realizado no Teatro Carlos Gomes. A sala destinada ao cineclube era escondida, de difícil acesso, e um turbilhão de pensamentos, vindo de anseios de que ninguém fosse prestigiar os filmes e o medo por ser a primeira vez a participarem do evento, deixou Antonio e Isabela nervosos. Porém, quando menos esperavam, cerca de 50 pessoas encontraram o caminho até a sessão.

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— É meio clichê falar disso, mas acaba sendo o que é: toda edição tem uma particularidade que é especial e que marca todos nós. Poderíamos citar a noite de maior número de público que nos pegou de surpresa no Colmeia, ou a primeira edição, que foi literalmente a gente sem saber o que diabos iria acontecer, e que deu muito certo, e a última edição do ano passado, quando, pela primeira vez, conseguimos lotar totalmente a sala do Espaço Plural! Mas é isso, todas as edições marcam a gente — completam.

Confira imagens das sessões e artes

O que é cinema experimental

Cinema experimental é um gênero que desafia qualquer definição, e talvez seja esse o ponto-chave. Como gênero e linguagem, os organizadores do Caixapreta lembram que ele é pouco difundido no Brasil e chega até a ser excluído dos cursos universitários de cinema e ser desconhecido por aqueles que gostam de cinema. Antonio e Isabela explicam assim:

— O cinema experimental, em sua essência, acontece sem grandes recursos e não busca o lucro, não segue os moldes de um filme narrativo nem o aparato tradicional desse tipo de produção, como vemos em filmes de estúdio, blockbusters ou coisas do tipo. A diferença começa justamente aí. Depois vem a questão da estrutura e da linguagem. Trata-se de um modo de fazer cinema que se constrói a partir do fluxo de elementos, geralmente banais ou do dia a dia: paisagens, texturas, elementos da natureza, situações ou espaços que às vezes são incomuns e, em outros casos, extremamente cotidianos.

Na prática, isso significa câmeras analógicas ou de baixa resolução, até gravações com celulares, imagens do cotidiano tratadas como matéria bruta, sons que desconfortam e erros transformados em estética. O objetivo é, justamente, provocar os sentidos e causar diversas interpretações.

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— É uma forma de criação que não obedece às convenções que, muitas vezes, parecem obrigatórias. É seguir um caminho que podemos associar ao acaso, abrindo possibilidades diferentes de olhar e filmar. Achamos esse tipo de cinema muito importante porque, a partir do acesso a essas obras, podem surgir novos artistas e inúmeras variações de linguagem. É estimulante, é lembrar que qualquer um pode fazer cinema — elaboram.

A equipe conta que, geralmente, elabora uma colagem de curtas totalmente experimentais para as sessões, sem personagens ou narrativa tradicional. Elas não tem um fio condutor, mas temáticas individuais que priorizam filmes de diretores e diretoras experimentais importantes ao movimento, antigos e contemporâneos, de diversos países, mas são desconhecidos pela maioria. Quase que por regra, não há blockbusters. Não há heróis ou vilões. Há luz, tempo e textura.

— O experimentalismo em si é um universo infinito no cinema, na música, artes visuais e tantas outras manifestações. Esse tipo de pensamento e ato criativo mais liberto e provocador causou uma verdadeira revolução na forma como passamos a enxergar o mundo e também a produzir — complementam.

Entre os nomes que o cineclube considera essenciais para quem quer entrar nesse universo, estão Maya Deren, que mistura o experimental com o onírico e influenciou diretamente David Lynch, Stan Brakhage, um dos cineastas mais prolíficos da história, conhecido por explorar cor e textura com intensidade, Jonas Mekas, cujos filmes funcionam como diários visuais, e ainda Ken Jacobs, Takashi Ito, Michael Snow, Hollis Frampton e Peter Tscherkassky. Quase todos já passaram pelo projetor do Caixapreta.

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— A vontade por exibir filmes experimentais está na raiz dessa linguagem, a possibilidade de subverter as formas de fazer filmes e de se expressar, sem depender de nada além da própria vontade e da necessidade artística, pensando o cinema para além do tradicional e comercial já conhecido — revela Antonio.

O que está por vir

O Caixapreta tirou os primeiros meses deste ano para reorganizar o projeto. O retorno está marcado para 30 de maio e, neste dia, o cineclube decidiu dar um passo inusitado com a exibição do clássico Mulholland Drive, de David Lynch. A obra simboliza uma marca pessoal para o cineclube: será o primeiro filme com diálogos a ser exibido por eles. Um consenso entre a equipe e tantos outros cinéfilos é que assistir “Cidade dos Sonhos”, como o título do filme foi traduzido para o Brasil, pela primeira vez é um acontecimento que te marca para sempre.

— David Lynch é um mestre absoluto e, talvez, seja aquela porta sem saída para quem está começando a assistir e a se interessar por cinema. Ninguém sai o mesmo depois de terminar um filme dele. Digamos que ele é o realizador experimental que conseguiu sair da bolha maldita do nicho e cair nos braços da cinefilia mais popular de Hollywood. Ele sempre foi uma grande referência para nós e, de certa forma, um dos principais motivos para a criação do cineclube — homenageiam.

Nesse tempo de pausa, uma pergunta permanece aberta: até onde o cineclube vai ousar? Já foram exibidos curtas com flashes estroboscópicos e músicas densas. Já foi exibido Limite, de Mário Peixoto, descrito por eles como “uma das obras mais significativas da história do cinema e, sem dúvida, a mais inovadora realizada em nosso país”. Filme este que teve até uma trilha sonora exclusiva montada pela própria equipe do Caixapreta. Na lista de desejos e ousadias, está Begotten, terror experimental macabro de 1990 por E. Elias Merhige, descrito por Antonio e Isabela como “extremamente difícil de assistir”, tanto pelas imagens abstratas quanto pelo ritmo.

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— Teve muita ousadia, mas, claro, às vezes surgem ideias ainda mais extremas, e isso exige mais tempo e também a formação de público. O cineclube ainda é novo, e só agora algumas pessoas começaram a frequentar com certa regularidade. Quem sabe, mais para frente — deixam em aberto.

No fundo, o Caixapreta tem uma ambição simples e radical ao mesmo tempo: formar público. Não um público especializado, que sabe discutir a filmografia de Stan Brakhage em ordem cronológica, mas aberto e disposto a entrar numa sala escura sem saber exatamente o que vai encontrar.

— O nosso maior desejo é que continue sendo um lugar que forme público e apresenta coisas novas, um espaço que tire as pessoas da mesmice por uma ou duas horas e proporcione uma experiência sensorial que fique na memória de cada um que já foi ou ainda vai. Temos ainda muita coisa para trabalhar e realizar com o Caixapreta. Graças ao Espaço Plural, que apoia nossas loucuras, tudo isso se torna possível. Esse “sonho” já está ganhando corpo e andando; o importante é não deixá-lo parar. Que mais pessoas desta cidade façam suas coisas e arrisquem! — convidam Isabela e Antonio.

A sala está escura. O projetor está ligado. Pode entrar.