Até pouco tempo, a chegada do inverno significava o início da caça às baleias em Santa Catarina. A atividade foi um dos principais motores da economia no Estado no século 18 e passou por várias fases, perdurando até 1973, quando a última baleia foi caçada em solo catarinense. Pouca gente sabe, mas alguns cartões-postais daqui foram palcos do massacre que quase levou as baleias-francas à extinção.

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O auge da caça às baleias no Brasil foi no período colonial, quando se ergueram armações na Bahia, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Santa Catarina. Esses lugares funcionavam como fábricas e envolviam centenas de trabalhadores, entre escravizados e pescadores contratados. O intuito era derreter a gordura da baleia, para produzir o óleo usado na iluminação pública, e extrair as barbatanas, para a fabricação de itens como guarda-chuvas e espartilhos.

A Armação da Piedade foi a primeira e maior armação de Santa Catarina, construída em 1746 na praia que hoje tem o seu nome, no município de Governador Celso Ramos. Depois, vieram as armações da Lagoinha (1772), na Praia da Armação, em Florianópolis; de Itapocorói (1778), em Penha; de Garopaba (1793), onde hoje fica a praia central de Garopaba, e a de Imbituba (1796), localizada no atual Porto de Imbituba. 

— No litoral, as armações eram o único tipo de empresa que existia, porque Santa Catarina não é como no Nordeste, que tinha uma monocultura, como a cana-de-açúcar. Não teve nenhum outro empreendimento no Brasil Colônia em Santa Catarina que tivesse tantos escravizados envolvidos — explica Fabiana Comerlato, historiadora doutora em Arqueologia e organizadora do livro Baleias e baleeiros: patrimônio cultural e conservação ambiental.

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O negócio também marcou Santa Catarina culturalmente. Até hoje, há praias, morros e pedras com referências à época das armações — em Florianópolis, por exemplo, a praia do Matadeiro tem esse nome porque as baleias eram mortas e “desmanchadas” ali, e a Pedra do Vigia, na Ilha do Campeche, costumava ser o local de avistamento dos cetáceos.

A atividade foi responsável por desenvolver vilas inteiras. Na beira da praia da Armação, na Capital, há remanescentes dos alicerces que sustentavam o antigo engenho da armação colonial. Perto dali, a Igreja Sant’Ana e São Joaquim foi construída à base de óleo de baleia, em 1772.

Veja os remanescentes da caça às baleias em Florianópolis

Memória de pescador

A caça às baleias deixou muitas histórias. Aldo Correa de Souza, o Seu Aldo, de 84 anos, guarda certo remorso da época em que participou da caça de cinco baleias na praia da Armação, em Florianópolis. Era por volta de 1955 e a antiga armação colonial já não existia. A caça era organizada por grupos independentes e o pescador, um adolescente na época, decidiu se juntar ao grupo de apoio à operação. 

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— Era um crime. Eu realmente não gosto de lembrar — conta Aldo, com lágrimas nos olhos. — Era um bicho tão bonito. Você olhava e ela tava lá pulando, brincando, mexendo. E a gente… para ganhar o dinheiro de cada dia, tínhamos que fazer isso. 

A tristeza é pelos métodos usados na caça. Geralmente, os caçadores atacavam primeiro o filhote e depois a mãe, que permanecia junto à cria, amparando-o. Depois de feri-las, os caçadores davam repetidos golpes. Elas morriam lentamente pelo sangramento, e depois eram arrastadas até a praia.

Para os caçadores, o sofrimento da atividade se justificava pela promessa de muito dinheiro. As baleias eram como o ouro do mar, como ilustra um verso da época:

Dentadura de elefante / Rabanada de baleia / Toda vida ouvi dizer / Que ouro bom não mareia / Nunca pode encher barriga / Quem come na casa alheia —  entoa Aldo.

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Galeria ilustrada mostra as etapas da caça às baleias

Da extinção à preservação

Entre as espécies caçadas, a franca foi a mais afetada. No período colonial, cerca de 700 baleias eram mortas por ano no Brasil. A morte de filhotes também causou um desequilíbrio na espécie, que chegou a ser considerada extinta, entre as décadas de 1970 e 1980. 

— A caça parou não porque foi banida no Brasil, em 1987, mas por conta da quantidade de baleias que restaram. Chegou em um ponto que a caça não era mais sustentável, não era mais lucrativa — explica o biólogo e gerente de campo do Instituto Australis, Eduardo Renault.

Uma consciência ambiental sobre as baleias só foi surgir em 1980, quando foram sendo criados grupos de proteção. O Instituto Australias, com sede em Imbituba, hoje é reconhecido mundialmente pela pesquisa, monitoramento ambiental, sem fins lucrativos e responsável pela manutenção do Projeto Franca Austral (ProFRANCA), que faz pesquisa e monitoramento para a conservação da espécie.

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Hoje, estima-se que 400 fêmeas venham ao brasileiro catarinense para se reproduzir. O valor é baixo, mas vem crescendo ano a ano.

— A baleia franca tem um filhote a cada três anos. Então a espécie tem uma capacidade de recuperação muito mais limitada, em relação a outras espécies. Aqui, a gente tem uma taxa de crescimento estimada de 4,8% ao ano, que é um valor dentro dos padrões da baleia franca, que oscilam entre 4% e 5% — explica o biólogo.

Agora, a chegada do inverno a Santa Catarina não significa mais o início da caça, mas da observação das baleias. Nos municípios de Garopaba, Imbituba e Laguna, a Rota da Baleia Franca recebe turistas anualmente para várias atividades, como passeios de barco até os animais, sem incomodá-los. Também é possível visitar ao Museu da Baleia de Imbituba, situado em um antigo prédio da armação, na praia do Porto, que conta a história da caça de baleias no Estado.

Infográficos mostram como era a caça às baleias em SC

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