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Nosso Vale do Silício 

Como a tecnologia está transformando a cultura de São Bento do Sul 

O município de 80 mil habitantes criou uma incubadora que conta hoje com 32 empresas que geram, juntas, cerca de R$ 30 milhões ao ano 

13/11/2018 - 20h23 - Atualizada em: 12/02/2019 - 17h10

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Luan
Por Luan Martendal
 Objetivo é construir um modelo de cidade inteligente e humana até 2037
Objetivo é construir um modelo de cidade inteligente e humana até 2037
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De cidadão são-bentense à cidadão “são-bentech”. Parece utopia criar essa cultura em uma cidade em que o setor moveleiro até pouco tempo era o único a despontar na economia local, mas é justamente essa a ideia que está ganhando corpo em São Bento do Sul. O município do Planalto Norte encontrou nas empresas voltadas à tecnologia o seu caminho para o futuro e já provou ser possível a transformação social através de um novo modelo econômico.

Tendência essa expressa nos números: a incubadora tecnológica da cidade conta com 32 empresas, que geram mais de 200 empregos e faturam juntas cerca de R$ 30 milhões ao ano. Fato que faz com que a cidade de pouco mais de 80 mil habitantes seja uma das evidências de que as médias e pequenas cidades catarinenses também estão comprometidas com o desenvolvimento dos polos tecnológicos no Estado.

Um olhar inovador que começou a despertar em 2005 em meio à crise cambial que atingiu a indústria moveleira e resultou no fechamento de empresas e oportunidades na região. Foi nesse contexto que os investimentos na área de tecnologia se colocaram como alternativa para mudar o cenário local e gerar emprego e renda à população.

O objetivo foi posto em prática através de uma iniciativa lançada na Associação Empresarial (Acisbs), então presidida por Osmar Muhlbauer, e se fortaleceu com a reativação da Fundação de Ensino, Tecnologia e Pesquisa (Fetep). A entidade criada em 1975 para atender demandas específicas da indústria de pinus estava adormecida na história do município, mas ressurgiu com o propósito de agregar novas áreas e ajudar a tornar real às novas metas municipais.

— Quando houve essa quebra refletimos de que não podemos depender de um só setor, porque ‘se o negócio fizer água, sumimos do mapa’. Sabemos disso, mas não dá simplesmente para baixar um decreto e dizer que a partir de amanhã vai ser assim. Então pensamos numa incubadora para aguçar as ideias inovadoras e esse espírito empreendedor voltado para empresas diferentes das que temos aqui. Está claro que com a mudança digital, a indústria tradicional se ela não repensar a forma de agir, de fato é uma espécie em extinção — explica Osmar, hoje liderança da Fetep.

Os idealizadores da mudança lançaram a Incubadora Tecnológica de São Bento do Sul (Itfetep), principal alicerce para a inserção da cidade no mapa do setor tecnológico de Santa Catarina junto a efetivação do parque tecnológico do município. As implementações geraram um ambiente colaborativo que vai além das empresas incubadas e engloba o Centro de Inovação Tecnológica (CIT) do governo estadual (a ser inaugurado em 2019) e quatro instituições de ensino superior.

Osvalmir, gerente da incubadora tecnológica, comemora os bons resultados
Osvalmir, gerente da incubadora tecnológica, comemora os bons resultados
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— Para que toda essa transformação fosse consolidada, primeiro nós resgatamos a autoestima da comunidade e criamos um trabalho de empreendedorismo e de capacitação. Também conseguimos unir o poder público, as universidades e as empresas e um dos principais ganhos está sendo o de parar o “êxodo de cérebros”, aqueles que se formam e vão embora. Conseguimos empregar o caminho reverso e quem vem para São Bento buscar conhecimento encontra oportunidades e quer ficar aqui — destaca Osvalmir Tschoeke, gerente da Itfetep.

Rumo a consolidação, o Parque Tecnológico de São Bento do Sul visa ser o agente indutor da nova vocação empreendedora do município ao médio e longo prazo, que tem como meta ter o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) catarinense em até 20 anos – atualmente de 0,782 e 25º no Estado. Para isso, as lideranças locais consideram não só o potencial das startups, mas a participação da indústria tradicional em torno do projeto “A São Bento do Sul que queremos em 2037”, constituído sob o modelo de cidade inteligente e humana.

— Queremos através da diversificação da nossa economia e do investimento em tecnologia influenciar todo o Planalto Norte, em especial os municípios vizinhos como Rio Negrinho e Campo Alegre. Mas já servimos de inspiração também para municípios de outras regiões com realidades parecidas com a nossa, como Iporã do Oeste, Mafra, Frei Rogério e Fraiburgo. Isso mostra que estamos no caminho certo para superar o nosso grande desafio de melhorar o nível médio de renda na cidade e esse sonho já está virando realidade — analisa Osvalmir Tschoeke.

Zilda vivenciou a transformação do bairro Centenário
Zilda vivenciou a transformação do bairro Centenário
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A “Vila do Centenário” que virou “Vila do Silício”

O desafio de ser destaque em desenvolvimento humano até 2037 traça um novo destino para a catarinense que figura na lista das 50 pequenas cidades mais desenvolvidas do Brasil, e começa a revelar os primeiros resultados da ação. O principal exemplo foi construído em pouco mais de dez anos e possibilitou a revitalização de uma comunidade inteira em São Bento do Sul: a extinta “cracolândia” do bairro Centenário dá lugar ao exemplo positivo de reconstrução econômica e social, guiado justamente pela implantação do Parque Tecnológico.

De vila pouco desenvolvida no passado, composta inclusive de palafitas no entorno das primeiras indústrias moveleiras, o lugar passou por uma revitalização completa e começou a ser reconhecido como abrigo do principal parque científico e tecnológico do Planalto Norte.

Uma reviravolta que ajudou a melhorar a vida da população local, como a da auxiliar de limpeza Zilda Leal Matins, 51, e seus filhos. Ela mora no Centenário há mais de 30 anos e acompanhou de perto a evolução do bairro desde a chegada do Itfetep.

— Isso aqui (infraestrutura) não existia, era tudo mato. Então, por exemplo, naquele ponto onde é a Fetep, ali era um ponto de drogas e até no início da construção os usuários quebravam e coibiam o serviço. Era bem perigoso e isso mudou bastante, nós que moramos aqui sentimos a diferença. Antigamente não se tinha essa liberdade de você sair como se tem hoje e, além disso, as pessoas de fora que agora vem pra cá, antes não vinham. O bairro ficou mais bem visto — celebra a moradora.

A renovação também é visível para o gerente comercial Joari Vepech. Em 1996 ele frequentava o curso de Tecnólogo Moveleiro na Fetep - atualmente ministrado no Senai - instalado no parque tecnológico, e conta que naquele tempo ao chegar às proximidades do local para estudar precisava pagar uma espécie de “pedágio” para usuários de drogas. Isso virou passado.

Rauni desenvolve protótipo na incubadora de São Bento
Rauni desenvolve protótipo na incubadora de São Bento
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A redução no índice de criminalidade aumentou significativamente a sensação de segurança para os moradores dos bairros vizinhos, como confirma o jovem Rauni Nóbrega, 26. Na adolescência o rapaz evitava passar pela região e agora frequenta diariamente a comunidade, onde desenvolve um protótipo de veículo autônomo no laboratório de Automação e Robótica da incubadora são-bentense.

— Existia um estigma de passar no Centenário e de como as comunidades vizinhas viam o bairro antes. Moro perto e tinha medo de passar a pé por aqui para estudar, preferia pagar o ônibus porque os estudantes eram muito parados por quem ocupava essa área para usar drogas e pedir dinheiro. Só que depois que esse parque tecnológico começou a ganhar forma, a buscar as pessoas daqui para capacitar e qualificar, o bairro começou a mudar e o medo zerou — relata ele.

 Leonardo abriu sua startup e trabalha na construção da “Druker Box
Leonardo abriu sua startup e trabalha na construção da “Druker Box
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Uma visão do futuro

Injeção de ânimo que começou a render frutos para os novos empreendedores que decidem apostar no município para montar um negócio. Foi essa visão de futuro que mexeu com a carreira do casal Serinaldo Portella, 29, e Vanessa Hoffmann, 25, e o sócio deles Marlon Marschal, 30. Os três eram universitários de cursos diferentes na Universidade da Região de Joinville (Univille), campus São Bento do Sul, que se aproximaram e encontraram na incubadora da cidade uma oportunidade de tirar do papel a ideia de criar uma startup.

O ano era 2016 e de lá para cá eles receberam consultoria e a estrutura necessária para desenvolver as primeiras máquinas produzidas pela Smartmaq, que produz soluções em esquadrejadeiras. De acordo com Vanessa, o ambiente favorável acelerou os resultados da empresa. Passados quase dois anos eles passaram de três para 17 funcionários e conseguiram partir para um endereço próprio, saindo dos 25 metros quadrados de área inicial em uma sala na incubadora para uma sede de 400 metros quadrados.

— Ainda é muito difícil mensurar o quanto ainda podemos crescer, porque desde o início da incubação tudo ocorreu de forma muito intensa e já atuamos a nível nacional e estamos ingressando no ramo da exportação. É perceptível que a região como um todo está se inovando, nós temos fornecedores locais que inclusive iniciaram com a gente e também já estão bem alocados no mercado — comemora e empresária.

Gustavo utiliza o laboratório da Itfetep para desenvolver pesquisa
Gustavo utiliza o laboratório da Itfetep para desenvolver pesquisa
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O mesmo trilho é buscado por quem se inscreve no ‘Desafio Itfetep’, em que empresas apresentam propostas de novos negócios, principalmente voltados à inovação tecnológica e que podem receber recursos de investidores-anjo. Essa iniciativa é propulsora para atrair talentos como Leonardo Schifler, que em 2018, aos 26 anos, abriu sua startup e trabalha na construção da “Druker Box”, a qual considera ser a segunda maior impressora 3D do Brasil.

Outro fator que denota a estratégia de futuro é a interação direta com a academia. Um dos exemplos vem do apoio prestado ao estudante de engenharia de produção da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) Gustavo Wehle, 22, que utiliza o laboratório da Itfetep para desenvolver pesquisa para a produção de grafeno em larga escala - o material promete revolucionar a indústria de eletrônicos por ser ultrafino, ultraresistente e conduzir energia com mais velocidade do que o silício, componente usado nos computadores atuais.

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