O impacto do uso prolongado de canabinoides em pessoas com predisposição genética ao Alzheimer será analisado em um estudo inédito no Brasil. A pesquisa científica “COONFIA”, conduzida pelo Laboratório de Cannabis Medicinal e Ciência Psicodélica (LCP), da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), terá duração de 20 anos e busca avaliar se a cannabis medicinal, ministrada diariamente em doses baixas, pode evitar a perda de memória causada pela doença e contribuir para sua prevenção.

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A iniciativa é resultado de uma parceria entre a universidade e a Associação Brasileira de Cannabis Medicinal, a Santa Cannabis, com sede em Santa Catarina. Com sede em Florianópolis, a associação atende mais de oito mil pacientes em todo o país, oferecendo suporte jurídico, médico e psicossocial. Desde 2023, possui autorização da Justiça Federal para cultivar e produzir óleo destinado aos associados.

Como funcionará o estudo?

Os 40 voluntários para participar do estudo serão divididos em grupos ao uso de placebo e de 1 miligrama diária do óleo full spectrum, da Santa Cannabis. (entenda mais abaixo)

— A formação do Alzheimer começa 20 anos antes do surgimento dos sintomas. Sabemos que a cannabis medicinal pode reverter danos, mas queremos saber se o uso diário pode prevenir a doença — explica o doutor em neurofarmacologia e coordenador do LCP da Unila, Francisney Nascimento.

A hipótese do estudo, segundo Nascimento, se baseia em achados de estudo pré-clínicos, com animais, que foram relevantes. Basicamente, explica ele, sabe-se que os canabinoides possuem os seguintes efeitos:

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  1. efeito anti-inflamatório;
  2. efeito antioxidativo;
  3. efeito depurador de macromoléculas, tais como a beta-amiloide, que é o principal marcador da doença de Alzheimer;
  4. efeito neuroprotetor, ou seja, que impede ou reduz a morte neuronal.

— Esses quatro efeitos são importantes para a patogenia, ou seja, para a criação biológica da doença de Alzheimer. Por isso, quando falamos que nossa hipótese é prevenir, estamos pensando em atuar com esses efeitos de canabinoides durante 20 anos e, de alguma forma, retardar estes processos biológicos —esclarece.

Nascimento já publicou um estudo que demonstrou a eficácia da cannabis medicinal no tratamento do Alzheimer. Naquela pesquisa, os pacientes apresentaram melhora nas funções cognitivas, especialmente em relação à memória.

O professor também ressalta que, na nova pesquisa de 20 anos, não são esperados efeitos colaterais negativos decorrentes da ingestão diária de cannabis medicinal.

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— A ideia é fazer exames de sangue e avaliar marcadores químicos, memória, cognição e fatores como depressão e ansiedade ao longo desses 20 anos. A dose de 1 miligrama diária é muito segura, não tivemos problemas com pacientes com doses mais altas — explica Nascimento.

Óleo canábico usado no estudo foi produzido em SC

O óleo canábico utilizado no estudo, produzido pela Santa Cannabis em Santa Catarina, oferece uma ampla gama de compostos naturais da cannabis. Em conjunto, os terpenos, flavonoides e canabinóides (THC e CBD) produzem um efeito medicinal (“entourage”) cientificamente seguro à saúde.

— Queremos demonstrar que a cannabis não deve ser vista como um recurso de “último caso”, mas avaliada pelo que realmente é: uma terapia potencialmente eficaz para múltiplos sintomas, com capacidade de promover benefícios mesmo em indivíduos atualmente saudáveis. Também queremos investigar seu papel como estratégia de longo prazo, não para “tratar doenças futuras”, mas para reduzir riscos, modular sistemas fisiológicos e contribuir para prevenção e qualidade de vida ao longo do tempo — diz Gabriela Kreffta, farmacêutica da Santa Cannabis e responsável pela produção dos medicamentos canábicos.

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Universidade está em busca de voluntários entre 45 e 65 anos

A Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) busca voluntários que tenham interesse em participar da pesquisa científica pelos próximos 20 anos. Podem participar pessoas entre 45 e 65 anos, com preferência a pessoas com predisposição genética ao Alzheimer, ou seja, com histórico familiar da doença. Contudo, quem não tem histórico familiar de Alzheimer também pode se inscrever.

A pesquisa vai avaliar quatro grupos: dois grupos participarão de um estudo randomizado duplo-cego controlado por placebo em que parte dos voluntários recebe 1 miligrama de óleo canábico, enquanto a outra parte vai utilizar placebo. Já os outros dois grupos não utilizarão nem o tratamento com canabinoides nem placebo, fazendo apenas acompanhamento clínico ao longo dos 20 anos.

Como se inscrever?

As inscrições estão abertas através de formulário online. Todos os participantes precisam ser alfabetizados e ter disponibilidade para comparecer presencialmente ao campus da Unila, em Foz do Iguaçu, onde serão aplicados questionários e realizados exames.

Por critérios de segurança, não poderão se inscrever pacientes com doenças hepáticas ou renais, histórico de psicose ou epilepsia, gestantes e lactantes. A participação no estudo é gratuita e não remunerada.

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