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    Educação

    Como é a rotina na primeira escola a ter ensino bilíngue em Libras e Português em SC

    Colégio Monsenhor Sebastião Scarzello, de Joinville, é pioneiro no ensino concomitante das duas línguas e a manter turmas lideradas por uma professora surda

    20/09/2019 - 08h48 - Atualizada em: 20/09/2019 - 09h54

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    Luan
    Por Luan Martendal
    Onze alunos estão matriculados nas turmas com alunos surdos da escola em Joinville
    Onze alunos estão matriculados nas turmas com alunos surdos da escola em Joinville
    (Foto: )

    Na Escola Municipal Monsenhor Sebastião Scarzello, no bairro Itaum, em Joinville, o contato com a Língua Brasileira de Sinais é feito em convergência com a Língua Portuguesa e as turmas são lideradas por uma professora surda, Talita Nunes Francisco, com acompanhamento de uma professora ouvinte e de intérpretes auxiliares. A unidade se tornou a primeira escola catarinense a ter ensino bilíngue concomitante em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e Português.

    Em pleno Setembro Azul, mês em prol da causa e das conquistas da população surda no Brasil, a reportagem foi conhecer o trabalho da instituição.

    O projeto pioneiro desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação desde fevereiro já tem a adesão de famílias de diversos bairros joinvilenses, dentre eles o próprio Itaum, Boehmerwald, Vila Nova, Parque Guarani e Aventureiro. São pais e responsáveis por três alunos com surdez matriculados na Educação Infantil e outros 11 estudantes divididos em duas turmas multisseriadas vespertinas, que vão do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental.

    — Todos esses alunos vieram de unidades em que eles já tinham uma professora auxiliar, mas que ficavam isolados em suas turmas regulares por não ter o convívio direto com uma professora surda e com outros alunos surdos. A diferença é que aqui eles estão juntos e as crianças têm como prioridade primeiro a língua-mãe dos surdos, a Libras. O aprendizado passou a ter significado — aponta Ilma de Souza Alves, diretora da Escola Monsenhor Scarzello.

    Ensino de libras é prioridade para os alunos surdos na escola do bairro Itaum
    Ensino de libras é prioridade para os alunos surdos na escola do bairro Itaum
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    Tecnologia e adaptação

    Talita é pedagoga, tem pós-graduação em Libras e é responsável por ensinar o uso da Língua de Sinais aos alunos. Ela leciona ainda história, geografia e ciências com uma metodologia especial composta principalmente por imagens, que facilitam a compreensão da língua.

    São utilizadas ferramentas como lousas digitais, tablets e imagens impressas em revistas e jornais. Isso serve de estímulo ao aprendizado da primeira língua e facilita a inserção ao ensino do Português. Essa segunda língua, assim como a matemática, fica a cargo da também pedagoga e pós-graduada em libras Camila Meier.

    — Para as turmas bilíngues eu uso a bimodalidade, ou seja, tenho que falar ao mesmo tempo em que uso a língua de sinais. Então, tenho que ter essa observação de que são crianças do 1º ao 5º ano com disciplinas iguais, porém respeitando a língua deles que é a libras — aponta Camila.

    Transformação no ambiente escolar

    Talita Nunes Francisco é surda, pedagoga especializada em Libras e dá aula para os alunos da escola
    Talita Nunes Francisco é surda, pedagoga especializada em Libras e dá aula para os alunos da escola
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    A comunidade da Escola Municipal Monsenhor Sebastião Scarzello abraçou a ideia pioneira e começa a ver surgir nos pequenos de outras turmas uma interação maior com a Libras e o espírito da inclusão. Conforme a diretora da unidade, Ilma de Souza Alves, todos os professores da unidade têm aulas de Libras desde o ano passado e a comunidade é atendida em dois turnos ao longo da semana para aprenderem a Língua. Placas indicativas, de orientação e impressos do alfabeto em Libras estão distribuídos pela escola. Também há sistema luminoso além do sino tradicional para aviso das trocas de turno.

    — Em todos os momentos a gente prioriza a libras, ensaiamos música em libras, as professoras trabalham isso e as crianças estão tendo essa interação desde pequenos. Até por isso nosso foco é a Educação Infantil, em que as trocas de experiências estão sendo constantes e eles convivem, por exemplo, na aula de artes e de educação física. Nessas disciplinas, as crianças surdas saem das salas bilíngues e vão para suas turmas de origem acompanhadas da professora intérprete — explica.

    Avaliação diferenciada

    Até mesmo a forma como acontecem as avaliações individuais dos alunos é diferente. Segundo a pedagoga Talita Francisco, há registros de atividades impressas, cadernos e provas, mas como entender Libras é de extrema importância para a evolução desses alunos, as principais avaliações acontecem em vídeo.

    — Sempre uso o vídeo como recurso para melhor avaliação do aprendizado em libras, porque é um meio próprio de comunicação do surdo. Com esse método é possível, por exemplo, observar se o aluno está gesticulando e entendendo o que é ensinado da forma correta — afirma Talita.

    Supervisora pedagógica da unidade escolar, Maria Fabiane Souza Israel, acompanha a evolução do ensino bilíngue Libras/Português desde a primeira turma e constata que todos os alunos acompanhados pelo projeto obtiveram ganhos, sem exceção. O retorno das famílias, segundo ela, também é positivo.

    — Muitos aprenderam a se comunicar aqui, desde o básico, porque a gente recebeu crianças com histórico de agressividade e conforme as aulas avançaram, percebemos que isso parou de acontecer. Aqui o aluno surdo é compreendido nas necessidades dele, tanto pessoalmente quanto com relação aos conteúdos escolares. Nas avaliações em vídeo, conseguimos mensurar o que eles realmente aprenderam e aí a gente percebe o grande aprendizado que eles vem conquistando em todas as disciplinas — reforça Maria Fabiane.

    O modelo adotado na Escola Monsenhor Scarzello começa a ser visto como uma espécie de referência para outras cidades catarinenses. Neste mês, por exemplo, alunos do ensino médio de uma escola de Arroio Trinta viajaram até Joinville para conhecer o projeto de ensino bilíngue joinvilense.

    Aprendizado em família

    Mônica e o filho Gustavo aprendem juntos a se comunicar melhor em libras
    Mônica e o filho Gustavo aprendem juntos a se comunicar melhor em libras
    (Foto: )

    A novidade educacional para dezenas de crianças surdas é comemorada pelas famílias que optaram pela turma bilíngue para seus filhos. Mônica Millnitz transferiu o filho Gustavo Gomes, de 10 anos, de uma escola no bairro Fátima para a Monsenhor Scarzello assim que as primeiras turmas foram abertas. Em apenas alguns meses a mãe já notou diferença no comportamento e no interesse do menino pelas aulas.

    — Na antiga escola eu já lutava pelo ensino em Libras para ele e sempre busquei pelo melhor. O Gustavo tem um implante em um dos ouvidos e não aceitava dizer que ele é surdo, ele se dizia um ouvinte, e convivendo com seus pares e uma professora surda, ele também se aceitou e se reconhece assim — conta Mônica.

    Ainda segundo ela, são perceptíveis os avanços na compreensão dele em libras e no entendimento do significado das palavras, enquanto ela própria vem sendo alfabetizada na língua de sinais em horários alternados pela mesma professora.

    — Toda quarta-feira tenho aulas e no dia a dia com eles eu aprendo um pouco mais a melhorar minha prática de conversar em libras. Com isso eu ajudo ele também em casa com a Libras e a entender melhor o português, na leitura, na escrita. Isso para uma mãe é uma felicidade — constata.

    Programação

    Durante o mês todas as turmas trabalharão o tema, sendo com murais, história do surdo, linha do tempo, pessoas surdas famosas, decorações de porta, entrevistas, etc.

    13/09 - Visita no matutino da Escola Estadual Básica Governador Bornhausen da cidade de Arroio Trinta para conhecer o projeto escola polo com turmas bilíngues

    20/09 - Visita da Viviane (surda) no vespertino - irá contar sua história de vida para os alunos

    23/09 - Cinema na escola em Libras (filmes "João e Maria" e "Min e as mãozinhas")

    24/09 - Receita de brigadeiro em Libras (turma bilíngue ensina a turma do 1° ano)

    26/09 - Dia do surdo - todos virão de azul

    27/09 - Mostra do vídeo produzido pelo bilíngue sobre a escola

    03/10 - Visita da professora Juliana Cipriano com sua turma de Libras no matutino para os alunos do bilíngue. Irão desenvolver algumas atividades com os alunos surdos.

    25/09 - Reunião pedagógica - não haverá aula

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