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Como Kobe Bryant ajudou a NBA a conquistar o mundo

Quando Bryant entrou para a NBA em 1996, sua experiência de ter crescido parcialmente no exterior era uma raridade na liga

10/02/2020 - 13h49

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Por The New York Times
basquete
(Foto: )

*Por Sopan Deb

Durante sua carreira de duas décadas na NBA, Kobe Bryant acabou sendo muito mais do que um excepcional jogador de basquete. Bryant, que morreu em um acidente de helicóptero em 26 de janeiro perto de Los Angeles, foi um canal crucial para a liga, que expandiu rapidamente seu império, tornando-se uma empresa internacional.

Bryant, que passou sete anos de sua infância na Itália, era fluente em italiano e uma atração ideal para uma liga que, desde que David Stern assumiu como comissário em 1984, via o basquete como um jogo global. A estatura de celebridade internacional de Bryant, aprimorada tanto pela NBA quanto pela Nike, foi selada durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim. Lá, no campo do estádio olímpico, Bryant era procurado por outros atletas que pediam autógrafos e tiravam fotos com um homem que era considerado um dos maiores jogadores de basquete do mundo.

Diante de tudo isso, compreende-se por que os tributos a Bryant vieram de todas as partes do mundo. Luca Vecchi, prefeito de Reggio Emilia – uma das cidades italianas onde os Bryant moraram –, postou uma mensagem no Facebook em homenagem ao astro: "Kobe Bryant cresceu aqui, e, para nós, ele era de Reggio Emilia. Ele nos deixou hoje. Uma lenda do basquete da qual toda a cidade vai se lembrar para sempre com carinho e gratidão."

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Quando Bryant entrou para a NBA em 1996, sua experiência de ter crescido parcialmente no exterior era uma raridade na liga. Essa foi a época antes de estrelas como Yao Ming, da China, e Dirk Nowitzki, da Alemanha, terem deixado suas marcas. Mas a ascensão de Bryant também coincidiu com a introdução de tecnologias novas e importantes, disse Adam Silver, sucessor de Stern como comissário da liga, em uma entrevista. A NBA estava apenas começando a capitalizar o poder do vídeo digital e a transmitir seus jogos para os fãs em todo o mundo. Hoje, estrelas estrangeiras como Giannis Antetokounmpo e Joel Embiid estão rapidamente se tornando a norma.

"Kobe chegou quase no exato momento em que nos tornamos uma liga digital. Acredito que lançamos o NBA.com um ano antes de ele entrar na liga. E Kobe abraçou todas as coisas digitais. Na China, ele percebeu que poderia estar virtualmente presente em todo o mundo, fornecendo conteúdo para sites. Ele viu uma oportunidade de se tornar universal", disse Silver.

Como a NBA estava desesperada por um novo rosto para representar uma liga diversificada sem Michael Jordan em seu auge, Bryant fez mais do que qualquer outro jogador dos EUA para preencher esse vazio. Silver se referiu a Bryant como "o jogador mais viajado de sua época". Este até brincou com a ideia de jogar profissionalmente na Itália durante o locaute da NBA em 2011. Seu pai, Joe Bryant, jogou basquete profissional lá após oito anos de carreira na NBA.

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"A Itália é minha casa. Foi onde meu sonho de jogar na NBA começou. Foi aqui que aprendi os fundamentos", disse Bryant uma vez a um jornal esportivo em língua italiana, o "Gazzetta dello Sport".

Arremessar, passar e se mover sem a bola, acrescentou, eram todas "coisas que, quando voltei para os EUA, os jogadores da minha idade não sabiam como fazer, porque estavam apenas pensando em pular e enterrar".

Stern, que morreu em primeiro de janeiro, fez da expansão estrangeira um objetivo central da liga e estudou propostas para organizar equipes na Europa. Bryant prontamente aceitou seu papel como embaixador do basquete, tanto pelos interesses da associação quanto por seus próprios. Ele jogou em duas equipes olímpicas, ganhando medalhas de ouro em 2008 e 2012. Em 2018, foi nomeado, juntamente com Yao, embaixador global na Copa do Mundo de Basquete da Fiba do ano passado.

Matteo Zuretti, chefe de relações internacionais do sindicato dos jogadores da NBA, disse em uma entrevista que a atuação de Bryant ajudou a liga a incentivar mais estrangeiros a praticar o esporte. Após a morte de Bryant, Embiid, o camaronês que foi convocado para a NBA em 2014, escreveu em um post no Twitter que havia começado a jogar basquete por causa de Bryant, depois de assistir às finais da NBA de 2010. "Eu nunca tinha assistido aos jogos antes disso, e aquelas finais foram o momento de mudança da minha vida", escreveu ele.

"Quando você é um jogador internacional e fica acordado até as quatro da manhã para ver seu ídolo jogar, desenvolve uma conexão especial. Kobe foi muito importante para as pessoas em Los Angeles. Mas, para uma geração de jogadores internacionais, ele foi um vencedor e um ídolo", disse Zuretti em um telefonema da Itália.

Mas em nenhum lugar no exterior o impacto de Bryant foi tão prevalente quanto no leste da Ásia, particularmente na China, onde ele, uma das principais personalidades da Nike, rotineiramente promovia as maiores vendas de tênis e camisas. O fato de Yao ter se juntado ao Houston Rockets em 2002 amplificou o alcance de Bryant e da liga no país, logo quando este atingia o pico de seu estrelato após seu terceiro campeonato da NBA.

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"Kobe viu o tamanho da NBA na China. Acho que reconheceu que era um produto do seu tempo", disse Silver. Até então, Bryant já havia se tornado um visitante frequente ao país com visitas promocionais. Ele se manteve popular na China por meio de comerciais, como um para a Sprite, com o pop star taiwanês Jay Chou, em 2011. Depois que Stephen Curry, o astro do Golden State Warriors, superou Bryant nas vendas de camisas chinesas em 2017, Rick Welts, executivo da equipe dos Warriors, disse ao USA Today que Curry havia feito isso usando o "manual de Kobe Bryant".

A Nike acelerou sua expansão no mercado chinês nos anos 2000, e Bryant se tornou seu rosto mais visível quando começou uma parceria com a empresa em 2003. A China tem sido o maior mercado da Nike fora dos Estados Unidos há vários anos.

Cui Tiankai, embaixador chinês nos Estados Unidos, divulgou uma declaração no Twitter que mostrou o alcance de Bryant na China. "Triste pela trágica perda de #KobeBryant. Inspiração para muitos e uma lenda de sua geração, ele sempre será lembrado por sua contribuição para o mundo do esporte e pelas trocas pessoais entre #ChinaUS. Minhas mais profundas condolências à sua família e às outras vítimas."

Bryant também era popular nas Filipinas, que visitou várias vezes. Lá, o basquete é seguido com um fervor quase religioso desde o fim do século XIX. Um repórter da ESPN postou uma foto no Twitter mostrando uma famosa quadra de basquete em Manila, conhecida como "The Tenement", sendo pintada com uma imagem de Bryant e sua filha Gianna, que também morreu no acidente. Na cidade de Valenzuela, poucas horas antes da morte de Bryant, uma quadra de basquete chamada "Casa de Kobe" foi inaugurada e se tornou um memorial para Bryant, cheio de flores e bilhetes dos fãs.

Silver disse que há "algo universal" em Bryant. Pode ter sido sua vontade de abraçar a tecnologia e sua formação europeia, mas também havia sua competitividade implacável. Ele se lembrou de uma interação entre a estrela do Dallas Mavericks, Luka Doncic, e Bryant, em dezembro, no Staples Center. Doncic estava prestes a fazer um lançamento lateral, e Bryant, sentado ao lado da quadra, o provocava. Após o jogo, Doncic, natural da Eslovênia, disse aos repórteres que ficou surpreso ao perceber que Bryant estava falando em esloveno.

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