Era o fim dos anos 1970 quando Paulinho Gouvêa, então com cerca de 30 anos, decidiu se vestir de mulher e reunir alguns amigos para curtir o Carnaval em frente ao antigo bar e restaurante Roma, na esquina da Avenida Hercílio Luz com a Rua Fernando Machado, no Centro de Florianópolis.
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O estabelecimento, onde Paulinho morava no prédio acima, não era um bar voltado ao público LGBTQIAPN+. Frequentado por artistas, jornalistas, intelectuais e boêmios, tinha um público bastante diverso.
Naquela primeira noite, o Carnaval no Roma reuniu 10 pessoas. Na segunda, foram 15. No terceiro dia, estava cheio. E no ano seguinte, o dono colocou duas caixas de som para fora do estabelecimento. Assim, nascia o principal ponto de encontro do Carnaval LGBTQIAPN+ em Florianópolis entre as décadas de 1980 e 2000.
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— Ele botava o som, a gente dançava, ficava a madrugada inteira, e assim aquilo foi crescendo tanto que chegou ao ponto de a polícia interditar aquela passagem ali, pra gente ficar ali — conta Paulinho, em depoimento ao ator Renato Turnes, na pesquisa Finas & Caricatas: Memórias do Carnaval do Roma.

Desfile do glamour e da feminilidade
Os “looks” eram o ponto alto da festa. Os figurinos imitavam mulheres e abusavam do glamour, com figurinos caros, perucas e maquiagens elaboradas.
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— A gente se montava “de bonita”, gastava dinheiro, era com estilista, tenho minhas roupas até hoje — conta Paulinho, hoje com 78 anos.
Assim, foi se formando um desfile de looks, no asfalto mesmo.
— As bichas, a gente, elas vinham desfilando no meio do povo e o povo abria, naturalmente abria aquele caminho e elas passavam. Passavam pra lá, passavam pra cá, 80 vezes, se deixasse tinha até hoje bicha passando, porque elas não querem parar — brinca Paulinho.
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Segundo Renato Turnes, que produziu a peça Homens Pink a partir dos relatos da época, a festa do Roma bebe na fonte da tradição transformista — que já tinha força em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, na época, e mais tarde daria lugar à cultura drag moderna.
— Era diferente, por exemplo, do Bloco dos Sujos. Tinha um caráter performático, do glamour e da performance da feminilidade — explica Renato Turnes.
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Veja fotos de Paulinho e amigos na época
“Era o nosso chão”
Na época, Florianópolis ainda tinha poucos espaços de convivência para a população LGBTQIAPN+. O visagista Ciro Brilhante, hoje com 66 anos, lembra que o Carnaval era um dos poucos momentos em que gays, lésbicas e pessoas trans podiam ocupar as ruas de forma mais livre.
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— O carnaval de rua era o nosso chão. Então nós íamos pro Roma, nós acontecíamos. Foram anos após anos, eu ganhei no Carnaval, em concurso, seis anos seguidos — relembra, em depoimento ao memorial.
Os desfiles eram acompanhados com aclamação pelo público, que incluia famílias que frequentavam o Carnaval do Clube Doze.
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— Era muita gente, e não tinha briga. Eram famílias inteiras na terça-feira de Carnaval. […] Era maravilhoso, a gente participava de uma grande festa de carinho. Era uma troca de sentimento bom, que não se explica, se sente. E eu posso dizer que eu senti.

O epicentro do Carnaval em Florianópolis
Logo, o Roma se tornou epicentro do Carnaval LGBTQIAPN+ em Florianópolis. Imagens de 1997 mostram o hotel Ivoram (hoje Centro Sul), na Hercílio Luz, com as janelas lotadas de pessoas exibindo os looks para os foliões na rua.
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Em 2003, o Carnaval do Roma reunia o maior público do carnaval de rua da Ilha, cerca de 10 mil pessoas por noite, como registra a pesquisa Se mangue! Uma etnografia do carnaval no pedaço GLS da Ilha de Santa Catarina, de Marco Aurélio da Silva.

No fim dos anos 1980, a prefeitura passou a organizar a estrutura do Carnaval na Hercílio Luz, com palco e apresentações musicais. Nos anos seguintes, o concurso Pop Gay foi incorporado à programação oficial do Carnaval de Florianópolis, permanecendo até hoje como um dos vestígios mais visíveis do que era o Roma.
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O Bar Roma fechou as portas em setembro de 2001. Àquela altura, porém, a festa já havia ultrapassado os limites do estabelecimento, com os foliões ocupando as duas pistas da Avenida Hercílio Luz e a região do Clube Doze. Atualmente, o Carnaval do Roma segue vivo através do bloco Pop Gay, que chegou a atrair 65 mil foliões, no última edição.

Legado segue em novos espaços
Para além do Carnaval, a produção artística LGBTQIAPN+ continua presente em vários espaços de Florianópolis. Locais como a Galeria Lama, Jivago, Pink Pub e Opium mantêm programações com shows de drag queens, enquanto eventos de ballroom passam a ocupam espaços culturais da cidade.
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Para Thomas Dadam, da produtora Bapho Cultural, houve uma retomada desse movimento nos últimos anos.
— Hoje a gente tem bastante espaço LGBT na cidade. E a gente também conseguiu furar a bolha. A Suzaninha, por exemplo, está fazendo shows em espaços que não são necessariamente LGBT. Ela tem sido a primeira drag de muita gente.







