Os passos artísticos do Festival de Dança que tomam conta do palco do Centreventos Cau Hansen, em Joinville, completam 40 anos em 2023. Antes disso, em 1982, o fervor de arte na cidade foi fundamental para que uma festa “amadora” se tornasse a maior do mundo (com direito a reconhecimento do Guiness Book) e colocar o município no cenário internacional da arte e cultura. 

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A ideia partiu do então diretor da Escola Municipal de Ballet, Carlos Tafur, e, na época, da diretora-geral da Casa da Cultura, Albertina Tuma. Eles eram responsáveis por atividades relevantes como o encontro latino-americano de cerâmica e escola de artes. Neste cenário, a dupla chegou ao consenso de exaltar a dança na cidade.

Em 1983, para botar o festival em prática, o primeiro grupo organizador conseguiu o Harmonia Lyra para sediar a primeira edição, mas, sem apoio financeiro, a saída foi recorrer às empresas da cidade, que abraçaram a iniciativa. Com local e dinheiro, outro obstáculo: a chuva. 

— Foi um ano em que Santa Catarina sofria uma grande cheia, tinham barreiras fechando as estradas. Dos 69 grupos convidados, só 47 conseguiram chegar. Mas foi lindo, com grupos do Paraná, Espírito Santo e Minas Gerais, por exemplo. Foi maravilhoso — lembra Albertina. 

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Para além dos palcos, Albertina resgata em memória que o evento impactou em diversos setores e projeção da cidade. Ela conta que bailarinos chamavam Joinville de “um pedacinho da Europa” por conta dos canteiros floridos nas ruas centrais. O crachá de participante era uma “moeda” para os participantes, podendo ter acesso a restaurantes e lanchonetes, por exemplo. 

Albertina Tuma, fundadora do Festival de Dança, atualmente se dedica ao Pianístico de Joinville (Foto: Divulgação)

A fundadora do evento conta que Joinville passou a tirar a ideia de grandes festivais do eixo Rio-São Paulo a cada edição feita, tornando a cidade uma vitrine de dança no Brasil. Já na segunda edição, em 1984, a programação contou com atrações para a noite de abertura, sempre com espetáculos de relevância nacional, como o Balé do Teatro Guaíra, com o espetáculo “O Grande Circo Místico”. Depois, ainda foi criada a noite de gala e feira das sapatilhas, que seguem até hoje. 

Apesar das boas lembranças, a atual relação de Albertina com o festival é distante. Para ela, questões políticas colaboraram para “apagar” a participação e presença na organização do evento, na qual ficou até 1995. Neste ano, ela foi convidada para ser homenageada ao lado de outras autoridades. Hoje, ela se dedica na organização do Pianístico de Joinville.

— Foi uma saída difícil de ser administrada. Não foi porque o festival não estava crescendo. Já era o melhor do maior do Brasil e estava internacional. Me dediquei muito e saí sem saber o que tinha acontecido, mas é uma questão política. Me deixou bastante triste — lamenta. 

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Entre tantas emoções e até o rompimento, o momento mais marcante para Albertina foi a apresentação do espetáculo “Lamento dos Escravos”, com dançarinos do grupo Raça, em 1988, data que marcava o centenário  da abolição da escravatura no Brasil. 

— Uma coisa maravilhosa. Quem viu essa produção lembra até hoje. Foi muito marcante, eu me arrepio lembrando — conta.

Depois de passar pelo Harmonia Lyra e Ivan Rodrigues, o evento “mudou de casa” e chegou ao Centreventos Cau Hansen em 1998. Já em 2005, passou a ser considerado o maior festival de dança do planeta em número de participantes. Também passou a ser o único entre os grandes festivais mundiais a reunir uma grande diversidade de gêneros, como balé clássico, balé clássico de repertório, balé neoclássico, dança contemporânea, danças populares brasileiras e internacionais, danças urbanas, jazz e sapateado. 

A fundadora celebra as conquistas e elogia o atual momento, que, para ela, mantém boa parte da formatação original e traz novidades a cada ano. 

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— Um sonho de ter conseguido fazer um evento tão grandioso para Joinville, projetando para Santa Catarina e para o Brasil. É como um filho para mim. Vida longa ao festival, se consolidou e não tem mais volta.  Que continue trazendo alegria e riqueza para a cidade — destaca.

Quatro décadas de dança

Margit Gern Olsen tem um feito histórico. Ela é a mulher que participou de todas as edições do Festival de Dança de Joinville. Há 40 anos na cena cultural catarinense, herdou da mãe, Wanda Irene Gern, que dançava Balé em 1928, o gosto pela prática. 

Desde 1982, Margit já estava envolvida diretamente com o movimento cultural:

— Quando o diretor da Escola Municipal de Ballet da Casa da Cultura da época, Carlos Tafur, entrou e sugeriu a criação de um festival, a diretora Albertina Tuma falou não fazer de Santa Catarina, mas sim fazer o do Brasil — disse. 

Margit Gern Olsen participou de todas as edições do Festival de Dança (Foto: Divulgação)

Na 19ª edição, Margit retornou para a organização do evento como conselheira do Instituto Festival de Dança de Joinville, função que ainda desempenha até os dias atuais. Além disso, há 14 anos integra a equipe de gestão da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. 

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— Acompanhar o Festival tornou a minha vida mais prazerosa e alegre. Foram tantos momentos. Cada dia era uma nova emoção — disse.

Estreante com o sucesso na ponta dos pés 

Estreante no Festival de Dança de Joinville, o bailarino Kayke Nogueira de Carvalho, 20 anos, tem o ballet na ponta dos pés desde os três anos de idade, quando acompanhava as irmãs em uma academia de São Bernardo do Campo (SP), onde nasceu.

Aos 11, com a dança também bailando no coração, ingressou na Escola do Teatro Bolshoi, em Joinville. Na cidade catarinense, se formou em 2020. A partir daí, a música tocou no ritmo do sucesso. No ano seguinte, foi contratado pela companhia Jovem do Bolshoi e participou da Prix de Lausanne, competição disputada na Suíça e uma das mais importantes do mundo. 

Kayke Nogueira de Carvalho, de 20 anos, fará a sua estreia no Festival de Dança (Foto: Arquivo pessoal)

Kayke seguiu no passo. Após ir ao país suíço, ganhou uma bolsa para estudar na escola American Ballet Theatre, em Nova York, e em 2022, foi convidado para fazer parte do ABT Studio Company, também nos Estados Unidos, onde está até hoje. Ele afirma que Joinville e que está animado para o festival. No evento, ele vai integrar o elenco do ballet Cinderella, na noite de gala. 

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— Tive todos os ensinamentos necessários para que, hoje, eu alcance voos maiores. Nunca imaginei que teria minha estreia como papel principal no palco do Centreventos Cau Hansen, que carrega tantas histórias e já acompanhou inúmeras estrelas do mundo da dança — celebra. 

Identidade cultural e artística construída em 40 anos

Os 40 anos de Festival de Dança são um misto de alegria e responsabilidade. É assim que explica Ely Diniz, presidente do Instituto Festival de Dança. Para ele, a marca mostra a importância do evento para Joinville, Santa Catarina e toda a comunidade da dança. Por outro lado, se torna preocupante pelo compromisso de fazer edições cada vez mais profissionais e com melhorias em todos os sentidos, não apenas na parte artística, mas na organização. 

Diniz ressalta que o Festival ser reconhecido como o maior do mundo traz diversos turistas para Joinville, principalmente para quem dança ou tem algum familiar dançarino. O evento estar alinhado com a Escola Bolshoi reforçando ainda mais a marca e a procura pela cidade. 

— Não se deu por um “acidente geográfico”, porque tem praia, montanha ou ar puro. Ela foi conquistada a partir do zero, foi criada uma identidade cultural e artística que poucas cidades têm. Isso, para Joinville, é um reconhecimento qualitativo do trabalho com arte — expressa. 

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Ely Diniz, presidente do Instituto Festival de Dança de Joinville (Foto: IFDJ/Divulgação)

Ele afirma que as expectativas são as melhores possíveis para a 40ª edição, colocando em prática a norma interna de que um ano tem que ser sempre melhor que o anterior: 

— Sempre tem que acrescentar, fazendo ações e atividades diferentes e qualificadas para que o evento seja realmente significativo. Até porque há pessoas que vêm ao festival quase todos os anos, adquirem um senso crítico mais afinado — analisa o dirigente. 

A 40ª edição do Festival de Dança de Joinville ocorre entre os dias 17 e 29 de julho e contará com um dia a mais de mostra competitiva em relação ao ano anterior. Terá ainda uma nova atração competitiva: o Festival da Sapatilha. Outro destaque entre as novidades é a Dance Parade, quando dançarinos realizarão apresentações em plena Avenida Beira-Rio.

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