Não foi só o tênis ultraleve nem os suplementos de última geração que colocaram o queniano Sabastian Sawe na história. Ao cruzar a linha de chegada da Maratona de Londres em 1h59min30s no dia 26 de abril de 2026, Sawe se tornou o primeiro homem a quebrar oficialmente a barreira das duas horas em uma prova de maratona, provando que o diferencial está também no corpo e na região de origem.
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Grande parte dos corredores de elite do mundo, incluindo Sawe, vem do Vale do Rift, fenda tectônica que se estende por mais de 6 mil quilômetros entre Moçambique e a Síria, mas cuja porção no Quênia e na Etiópia é especialmente conhecida como uma verdadeira fábrica de campeões. Nos últimos anos, esses dois países têm dominado os rankings das principais maratonas do mundo.
O sucesso de ídolos locais transforma a corrida em uma oportunidade real de ascensão social, o que leva muitos jovens a se dedicarem intensamente ao esporte. Em muitos casos, é por meio da corrida que famílias conseguem mudar de vida.
A explicação científica
Um dos fatores determinantes é a região onde esses atletas nasceram e treinam. O Vale do Rift está em altitudes elevadas (em geral entre 2.000 e 2.500 metros), o que estimula o organismo a produzir mais glóbulos vermelhos e melhora a capacidade de transporte de oxigênio durante o esforço.
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Além disso, esses atletas costumam apresentar características físicas que favorecem a corrida de longa distância: pernas longas e finas, menor gasto energético no movimento e musculatura altamente resistente à fadiga. O resultado é um conjunto quase perfeito para encarar 42,2 quilômetros em ritmo absurdo. Sawe, segundo dados oficiais da prova, manteve o ritmo médio de 2 minutos e 50 segundos por quilômetro, mais rápido do que muitos corredores conseguem manter mesmo em provas de 5 km.
A tecnologia também entra em jogo. Sawe utilizou nos pés o Adidas Adizero Adios Pro Evo 3, lançado dias antes da prova, que pesa apenas 97 gramas, o primeiro supershoe de maratona a quebrar a barreira dos 100 gramas. O modelo, com solado de espuma reativa e placa de carbono, custa cerca de 500 euros (aproximadamente R$ 2,7 mil).
Na nutrição, Sawe trabalhou com a empresa sueca Maurten em um protocolo desenhado para a corrida. Durante a prova, chegou a consumir cerca de 115 gramas de carboidratos por hora, próximo ao limite que o intestino humano consegue absorver, e bem acima dos 60 a 90 gramas que eram considerados padrão para maratonistas há uma década.
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Treinamento que começa na infância
O estilo de vida desde a infância também faz diferença. Em muitas regiões do Quênia e da Etiópia, correr longas distâncias faz parte da rotina cotidiana, seja para chegar à escola, seja como brincadeira entre crianças. Esse hábito precoce contribui para o desenvolvimento de uma base aeróbica sólida e da resistência necessária para uma corrida mais eficiente na vida adulta.
Sawe, hoje com 31 anos, nasceu na vila de Barsombe, no Vale do Rift queniano, em uma casa “de paredes de barro e sem eletricidade”, segundo a Wikipédia. Foi criado pela avó e estudou na St Patrick’s High School em Iten, cidade conhecida como capital mundial dos corredores de longa distância.
O recorde anterior era de Kelvin Kiptum
Antes do feito de Sawe, o recorde mundial pertencia ao queniano Kelvin Kiptum, que havia marcado 2h00min35s na Maratona de Chicago em outubro de 2023. Kiptum, considerado o grande nome cotado para quebrar a barreira das duas horas, morreu em fevereiro de 2024 em um acidente de carro no Quênia, aos 24 anos. O recorde anterior ao de Kiptum era do também queniano Eliud Kipchoge, com 2h01min09s, na Maratona de Berlim em 2022.
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Kipchoge, hoje considerado um dos maiores maratonistas da história, já havia entrado para a história ao correr uma maratona em menos de duas horas no projeto INEOS 1:59 Challenge em 2019, na Áustria. Mas aquela marca não foi reconhecida oficialmente pela World Athletics, porque a prova foi realizada em condições controladas, com sistema rotativo de pacers e sem competição aberta.
Uma nova fronteira para o esporte
Na Maratona de Londres, ainda houve outros dois feitos extraordinários: o etíope Yomif Kejelcha terminou em segundo lugar, em 1h59min41s, em sua estreia em maratonas, e o ugandense Jacob Kiplimo cruzou a linha em terceiro, com 2h00min28s, sete segundos abaixo do recorde de Kiptum. Os três no pódio, portanto, ficaram abaixo do antigo recorde mundial.
Entre as mulheres, a etíope Tigst Assefa também fez história ao vencer a prova feminina em 2h15min41s, novo recorde mundial em prova exclusivamente feminina. Os três usavam o mesmo tênis: o Adidas Pro Evo 3.
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O feito de Sabastian Sawe, portanto, não é apenas uma vitória individual. Ele reforça a tese de que os fatores geográficos, culturais, fisiológicos e tecnológicos formam um conjunto poderoso para uma performance de elite nas maratonas. Mais do que isso, inaugura uma nova era no esporte: correr 42 km abaixo de duas horas deixa de ser experimento e passa a ser objetivo concreto dentro das competições oficiais.
Como resumiu a ex-recordista mundial Paula Radcliffe, comentando para a BBC: “as traves do gol literalmente acabaram de se mover na maratona”.
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