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    Compradores de segunda mão estão preocupados com suas lojas favoritas

    A pandemia, que fez despencar as vendas de muitas pequenas empresas, ou as fez fechar as portas por completo, pode muito bem acelerar essa mudança

    13/08/2020 - 17h42

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    Por The New York Times
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    O estoque, porém, está alto, com clientes.
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    *Por Jessica Schiffer

    Nos últimos quatro meses, Laurie Sigelman, uma contadora de quase 50 anos que mora no bairro de Studio City, em Los Angeles, tem aguardado com impaciência a reabertura de suas lojas favoritas na Avenida Melrose.

    Ela não está atrás de um par novo de botas Newbury da Rag & Bone ou de um vestido de verão da Marc Jacobs, e sim de itens mais antigos e acessíveis de lojas de revenda como a Wasteland e a Crossroads Trading Co.

    "Tenho alergia a pagar pelos preços do varejo", disse Sigelman ao telefone enquanto dirigia para conferir suas lojas de segunda mão favoritas, um ritual quase diário.

    O foco maior na higiene e as preocupações com a contaminação não mudaram desde o início da pandemia, afirmou ela. "Fiz minha pesquisa e não estou nem um pouco reticente. Aparentemente, o vírus não fica em uma peça de roupa por muito tempo."

    Sigelman faz parte de um seleto grupo de compradores cuja lealdade ao mercado de itens de segunda mão, com seus bons negócios, sua credibilidade ecológica e sua ênfase no estilo individual (em um mundo dominado pela moda copiada), não será influenciada pelo coronavírus.

    Revendedores on-line como a Poshmark e a Thredup prosperaram durante a pandemia, fornecendo às pessoas agitadas e confinadas uma opção fácil para limpar o armário por intermédio do correio. Mas, para alguns compradores de itens de segunda mão, nada se compara à caça na vida real. Michelle Plantan, diretora de mídia social e moradora do distrito de Venice, em Los Angeles, que comprou algumas peças vintage em plataformas on-line e no Instagram nos últimos meses, observou que a experiência não se compara à pesquisa na loja.

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    "A mágica em apenas navegar na página e experimentar as peças na vida real é bem diferente. E, ao comprar itens de segunda mão ou vintage, você quer ver o tecido e a qualidade de perto, o que é mais difícil de fazer on-line", observou Plantan, de 31 anos.

    Acertar o tamanho também pode ser difícil de fazer on-line, já que muitos itens de segunda mão e vintage foram usados anteriormente ou foram fabricados por marcas mais antigas com um diferente sistema de dimensionamento.

    "Quando você compra um par de jeans Diesel usado, ele não servirá da mesma maneira como se fosse novo", comentou Gabriel Block, executivo-chefe da Crossroads Trading Co., uma cadeia de revenda fundada em 1991 com 37 endereços nos Estados Unidos.

    Ainda assim, os revendedores on-line estão caminhando para conquistar qualquer consumidor relutante, e, de acordo com uma pesquisa da Future Market Insights, uma empresa de análise de varejo, a categoria saltará de US$ 30 milhões nos Estados Unidos neste ano para US$ 70 milhões em 2027. Se isso se realizar, o mercado on-line ultrapassará o mercado tradicional de lojas de segunda mão e de revenda, que devem cair de US$ 57 milhões neste ano para US$ 50 milhões até 2027.

    A pandemia, que fez despencar as vendas de muitas pequenas empresas, ou as fez fechar as portas por completo, pode muito bem acelerar essa mudança.

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    "Estou preocupada com a viabilidade dessas empresas em grandes cidades como Nova York e Los Angeles. Parece um absurdo imaginar que elas continuarão pagando aluguel com uma possível segunda onda e com as pessoas comprando menos", disse Jessica Tran, fundadora da Ghost Vintage, que sempre vendeu predominantemente em feiras de usados a céu aberto em Nova York e, agora, vende on-line.

    A compra de roupa em geral desabou nos últimos meses, influenciada por fatores como o desemprego (agora em 11,1 por cento) e pelo aumento recente nos casos de coronavírus que estão retardando a reabertura em todo o país. De acordo com uma pesquisa de julho da Mintel, 33 por cento das pessoas pararam totalmente de comprar roupa, enquanto 32 por cento têm preocupações em relação a comprar roupa em uma loja.

    Essa dura realidade, porém, levou alguns dos clientes mais fiéis do mercado de segunda mão a ver a manutenção das compras em lojas como um imperativo moral para que as pequenas empresas que mantêm o mercado vivo continuem existindo.

    "Para mim, é algo pessoal apoiá-las e ver como estão, porque já comprei muito lá", afirmou Sigelman. Ela conhece pelo primeiro nome os funcionários de muitas das lojas de segunda mão espalhadas por Los Angeles, onde já encontrou peças valiosas como um blazer peplum Alexander McQueen por US$ 750 e um par de botas Ann Demeulemeester por US$ 50.

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    Em redes de revenda como a Buffalo Exchange, a Crossroads Trading Co. e a Wasteland, que são mais corporativas do que as lojas pequenas e individuais, a capacidade foi reduzida para cerca de 50 por cento, com provadores fechados e uma ampliação da política de retorno para compensar a impossibilidade de provar os itens.

    O uso de máscara e o distanciamento social são obrigatórios, com muitos locais usando placas e adesivos no chão para orientar o tráfego, em um esforço para eliminar os frequentes congestionamentos. Os itens que são movidos, mas não comprados, ficam em quarentena no fundo da loja por 24 horas, um período que os proprietários nem sequer têm certeza de que seja necessário. Muitas lojas estão desencorajando ou recusando por completo o pagamento em dinheiro para diminuir o risco de contaminação.

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    Algumas dessas novas diretrizes parecem discutíveis: muitas empresas relataram estar faturando 50 por cento ou menos do que antes da pandemia em um bom dia, sem expectativa de que esse número aumente tão cedo.

    "As pessoas ainda estão tentando se acostumar com esse novo normal, descobrindo como fazer as coisas que costumavam fazer de maneira diferente, e se querem mesmo fazê-las", observou Block, da Crossroads.

    O estoque, porém, está alto, com clientes – com tempo de sobra e sem dinheiro – ansiosos para limpar o armário em troca de dinheiro ou de crédito. A Wasteland, uma rede da Califórnia conhecida por repassar as peças de famosos estilistas, teve duas de suas lojas em Los Angeles saqueadas durante os protestos que se seguiram ao assassinato de George Floyd, em maio, deixando os dois locais quase vazios. Mas, depois de algumas semanas, as lojas já estavam com o estoque cheio novamente.

    Antes da pandemia, a fila para vender em muitas dessas lojas ia até a rua e dava uma volta no quarteirão, muitas vezes com uma conclusão anticlimática (a maioria dos clientes é exigente, e considera US$ 30 um valor alto). Agora que a venda passou a ser agendada na maioria das lojas, e foi estabelecido um limite de 40 a 50 peças que cada vendedor pode trazer, o atrito em ambos os lados da troca foi aliviado.

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    "Estamos descobrindo que os clientes estão, na verdade, nos trazendo uma seleção melhor de roupas do que antes", comentou Rebecca Block, vice-presidente da Buffalo Exchange (e prima de Gabriel Block). As redes estão considerando adotar esse formato de forma permanente.

    As peças vendidas nessas lojas são colocadas em espera por 24 horas, na esperança de que qualquer contaminação viral remanescente no tecido se dissipe antes que sejam postas à venda. Os sapatos e os óculos de sol são borrifados com desinfetante sempre que possível. É um processo tedioso e incerto, mas que os lojistas acreditam que não podem se dar ao luxo de não cumprir.

    A pesquisa sobre como o coronavírus interage com diferentes superfícies ainda está engatinhando e tem sido amplamente inconclusiva, sobretudo quando se trata de tecido, mas a maioria dos especialistas afirma que a aerodinâmica torna improvável que uma gota do vírus assente na roupa e que, caso isso aconteça, ele provavelmente não sobreviverá por muito tempo.

    Ainda assim, de todas as indústrias que enfrentam novas hesitações dos clientes, o setor de itens de segunda mão parece ser um dos que estão mais familiarizados com esses estigmas: é um mercado que os clientes historicamente amam e no qual sempre consideraram necessário o uso de desinfetante. Mesmo antes da pandemia, 55 por cento dos clientes se preocupavam com a limpeza ao comprar um item usado, de acordo com a Mintel, empresa de pesquisa de mercado.

    "Há muito tempo, existe um tabu que envolve a compra de itens de segunda mão; as pessoas a veem como suja e demorada. Minha própria mãe costumava me dizer que eu podia contrair doenças ao comprar peças vintage!", disse Tran, da Ghost Vintage.

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    A recessão de 2008 e a subsequente conscientização em relação aos preços entre os consumidores ajudaram a popularizar os sites de venda rápida e com desconto, como o Gilt e o Groupon. Desta vez, será a vez de o mercado de segunda mão prosperar como uma opção mais barata, que ainda tem o benefício adicional de ser melhor para o meio ambiente, observou Alexis DeSalva, analista sênior de pesquisa da Mintel.

    Espera-se que essas vantagens superem qualquer aversão que os clientes tenham por itens usados – aversão que sites como o eBay, o Etsy e o TheRealReal ajudaram a suavizar.

    "Todo esse tempo em casa fez com que as pessoas refletissem sobre o desperdício da indústria da moda. Quando elas se dão um agrado durante esse período, podem analisar melhor o que é melhor para sua carteira e para o meio ambiente", completou DeSalva.

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