O síndico do condomínio onde a corretora de imóveis Daiane Alves de Souza, de 43 anos, desapareceu em Caldas Novas (GO), foi denunciado pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO) por perseguição reiterada, crime conhecido como stalking. Com a nova denúncia, já são 12 os processos envolvendo Daiane e Cleber Rosa de Oliveira. As informações são do g1.

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De acordo com o MP, o síndico teria usado a posição que ocupava para criar obstáculos à rotina da corretora, passando a vigiá-la por meio do sistema de câmeras do condomínio e a submetê-la a constrangimentos.

A denúncia aponta ainda que a conduta incluía interferência no fornecimento de serviços essenciais dos apartamentos administrados por Daiane, como água, energia, gás e internet, além de episódios de intimidação. O documento menciona, inclusive, o registro de agressão física em um dos casos.

Desligamento de energia e uso de câmeras

Segundo o promotor Christiano Menezes da Silva Caires, entre fevereiro e novembro de 2025, o síndico Cleber Rosa de Oliveira teria adotado uma série de práticas para constranger e intimidar a corretora, valendo-se da função exercida no condomínio.

— Há elementos indicativos de que o síndico também sabotava os serviços de água, internet, gás e eletricidade dos apartamentos geridos por Daiane, fechando registros, desligando padrões de energia e desconectando cabos — afirma o promotor na denúncia.

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Entre as práticas citadas pelo MP está a exigência de que solicitações de manutenção fossem feitas apenas de forma presencial, mediante requerimento com assinatura reconhecida em cartório.

A defesa de Cleber Rosa de Oliveira informou ao g1 que todas as condutas adotadas por ele ocorreram no cumprimento do dever legal e que não há provas das alegações apresentadas pelo Ministério Público. A defesa afirmou ainda que o síndico não é investigado no inquérito policial que apura o desaparecimento de Daiane.

Veja o momento em que Daiane desaparece

Família diz que queda de energia foi intencional

De acordo com familiares, a queda de energia registrada no apartamento de Daiane na noite do desaparecimento não teria sido aleatória. A família sustenta que o desligamento atingiu especificamente a unidade onde a corretora estava e que, para restabelecer o serviço, ela precisou se deslocar até uma área do prédio sem cobertura de câmeras.

— Sabia o apartamento que ela estava, desligou especificamente o padrão da onde que ela estava, ela foi ligar um quadro de energia. Uma área que era ponto cego, então, assim, foi uma coisa muito bem elaborada — disse Fernanda Alves, irmã de Daiane, ao g1.

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Imagens mostram que Daiane deixou a porta do apartamento aberta ao sair, o que indica que pretendia retornar em poucos minutos. O imóvel, no entanto, foi encontrado trancado posteriormente.

— Quem capturou a Daiane tinha conhecimento dos hábitos dela. Ultimamente, sabia que ela estava sozinha, conhecia os pontos cegos e conhecia bem o prédio — afirmou a irmã.

Desaparecimento segue sem imagens conclusivas

Daiane foi vista pela última vez no prédio onde a família mora, no centro de Caldas Novas, no dia 17 de dezembro. Ao g1, a mãe da corretora, Nilse Alves Pontes, contou que, naquele dia, a filha foi até o subsolo do prédio para restabelecer a energia, já que o apartamento estava sem luz.

Imagens de câmeras de segurança que circularam nas redes sociais mostram Daiane no elevador pouco antes de desaparecer, por volta das 19h. Ela entra na cabine enquanto grava um vídeo para uma amiga, sai em seguida e não retorna mais.

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Nilse relatou ainda que a última gravação mostra a filha registrando um vídeo que sequer chegou a ser enviado, como se a filmagem tivesse sido interrompida de forma repentina.

Outro ponto que intriga a família é o fato de a porta do apartamento ter sido deixada aberta por Daiane, mas encontrada trancada posteriormente.

— É um mistério — disse a mãe.

Nilse contou também que a filha tinha histórico de desavenças com vizinhos, que resultaram em processos judiciais.

Assista aos vídeos que Daiane enviou à amiga

Polícia analisa estrutura do prédio

O delegado responsável pelo caso, André Luiz Barbosa, afirmou que a quantidade de entradas e saídas do condomínio dificulta o avanço das investigações. A corporação também aguarda a perícia do gravador das câmeras de segurança do local.

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— É um condomínio de vários blocos, mas cada bloco tem uma administração própria, uma entrada própria. Isso tem trazido toda essa dinâmica para a situação de apurar todas essas possibilidades para que a gente tenha uma resposta — disse.

Segundo ele, a Polícia Civil analisa toda a estrutura do prédio.

— Estar no local, avaliar o prédio foi para que a gente pudesse entender e subsidiar as diligências em andamento — afirmou.

Gravador de câmeras passa por perícia

A família informou ao g1 que não há imagens que mostrem Daiane deixando o prédio ou retornando ao apartamento após descer ao subsolo.

De acordo com a polícia, o gravador do sistema de câmeras foi apreendido para perícia.

— O DVR foi apreendido para a gente certificar se não houve nenhum tipo de adulteração e, se houve, qual foi e em que momento foi, se existiam imagens que poderiam estar perdidas e que não tenham sido passadas para a Polícia Civil — contou o investigador.

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“Todas as hipóteses são possíveis”

A família informou ainda que a polícia quebrou o sigilo bancário de Daiane e constatou que não houve movimentações financeiras após o desaparecimento. Varreduras foram feitas no entorno do prédio, e não houve mais sinal do celular da corretora.

— Todas as hipóteses são possíveis. A gente trabalha desde que a hipótese de que Daiane possa ter deixado o prédio por vontade própria, como já aconteceu em outros casos de que não havia indícios de que a pessoa queria desaparecer, e ela foi encontrada posteriormente. Trabalhamos com a hipótese dela ter sido levada para outro local e morta, devido ao lapso temporal que ela não tem contato com a família — explicou o delegado André Luiz Barbosa.

Veja a nota da defesa do síndico

“A defesa técnica do Sr. Cléber Rosa de Oliveira, síndico do Condomínio Amethist Tower, representada pelos advogados infra-assinados, vem a público prestar esclarecimentos em virtude das recentes notícias veiculadas sobre o desaparecimento da Sra. Daiane Alves Souza. É fundamental pontuar, primeiramente, que o Sr. Cléber não figura como investigado no inquérito policial em curso. O administrador mantém postura colaborativa com as autoridades, fornecendo todas as informações e acessos necessários, certo de que a elucidação dos fatos é de interesse coletivo.

Em relação ao histórico de conflitos entre as partes, esclarece-se que as divergências existentes sempre foram tratadas pelo Sr. Cleber dentro da estrita legalidade e da via institucional adequada, qual seja, o Poder Judiciário. Nesse sentido, em 19 de janeiro de 2026, o Ministério Público ofereceu denúncia em desfavor da Sra. Daiane pela prática do crime de violação de domicílio (art. 150 do Código Penal), episódio no qual o Sr. Cléber figurou como vítima. Tal circunstância evidencia que o referido síndico sempre buscou o amparo das autoridades competentes para a resolução de conflitos, distanciando-se de qualquer pessoalidade.

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Igualmente, cumpre abordar a recente denúncia oferecida em desfavor do Sr. Cléber pela suposta prática do crime previsto no art. 147-A do Código Penal. Sobre este ponto, a defesa esclarece que todas as condutas do Sr. Cléber se deram no estrito cumprimento de seus deveres legais e estatutários na condição de síndico, visando única e exclusivamente a manutenção da ordem condominial. As alegações contidas na referida denúncia são desprovidas de provas materiais, sustentando-se exclusivamente na versão unilateral apresentada pela Sra. Daiane. A defesa reitera que a inocência do Sr. Cléber será devidamente comprovada durante a instrução processual, momento em que ficará demonstrada a regularidade de sua atuação administrativa.

Por fim, a defesa solicita serenidade e responsabilidade na divulgação de informações, evitando-se especulações e insinuações que, desprovidas de lastro probatório, possam injustamente atingir a honra e a intimidade de um cidadão e pai de família que sempre esteve e permanece à disposição da Justiça”.