Conheça a catarinense que largou carreira jurídica para se tornar escritora

Marina Hadlich deixou trabalho na Promotoria da Infância e Juventude do Ministério Público para enveredar no caminho das letras

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Marina Hadlich largou carreira na área jurídica para se dedicar à literatura (Foto: Lucas Amorelli, DC)

Marina Hadlich largou carreira na área jurídica para se dedicar à literatura (Foto: Lucas Amorelli, DC)

Ninguém melhor do que o escritor português José Saramago (1922-2010) para definir as palavras: “As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam…”, escreveu o Prêmio Nobel de Literatura (1998) na crônica As Palavras, publicada no livro Deste mundo e do outro.

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O que grafou Saramago sobre a potência das palavras – dadas, trocadas, oferecidas, vendidas, inventadas – inspira Marina Hadlich, 38 anos, catarinense de Blumenau e que mora em Florianópolis. Formada em Direito, certo dia decidiu largar a carreira jurídica e o trabalho na Promotoria da Infância e Juventude do Ministério Público para enveredar no caminho das letras. Tornou-se autora de contos, livros infantis, romances e crônicas.

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De 2015 para cá, quando decidiu trocar a rotina, muita coisa aconteceu. Entre um texto e outro, dividiu o tempo ajudando o marido na construção de brinquedos educativos em MDF (madeira de reflorestamento), disciplinou a leitura diária, desenvolveu o hábito de escutar. Um dia, alguém enviou para ela um vídeo que mostrava uma pessoa fazendo poesia nas ruas de Nova York.  As palavras “é a tua cara” fizeram eco.

Marina lembrou que o avô, Elimar, 85 anos, havia lhe dado de presente uma máquina de escrever para decorar a casa. Não demorou muito até ela montar uma espécie de banquinha num dos pontos mais movimentados de Florianópolis, a calçada do Palácio Cruz e Sousa, no centro histórico da cidade. Marina carrega uma mesa e um banco dobrável, pequenos pedaços de cartolina e a máquina.

Vez ou outra, prefere as ruas com as casas em estilo açoriano da Freguesia do Ribeirão da Ilha, onde mora. Em ambos os espaços, repete a atividade gratuita que desperta curiosidades.

— A pessoa se aproxima, pergunta se é mesmo de graça e é convidada a dizer uma palavra que me inspire a escrever. Os temas são variados e surgem a partir da história de vida de cada um. Paz, alegria e gratidão são bastante comuns. Mas há surpresas nos pedidos: Covid, pai, filho, azul, dragão. Também chamado de miniconto, o estilo segue uma narrativa breve e busca elementos como espaço, tempo e personagens em um número reduzido de frases.

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Conheça a escritora que percorre a cidade escrevendo

Arrecadação de livros e clubes de leitura

Marina vai às ruas pelo menos uma vez por semana. Mais recentemente, experimentou a turística cidade de Gramado, na Serra Gaúcha, onde surpreendeu visitantes e moradores com a micro literatura. Além de estar nas calçadas com as pessoas, Marina se envolve em campanhas de arrecadação de livros, faz mediação em clubes de leituras e de escrita. Também já criou bibliotecas comunitárias em formato de casinha de passarinho e de geladeira.

Os pequenos contos são fotografados e postados nas redes sociais. Em 2019, publicou o livro de contos “100 Mulheres” e, em 2021, o infantil “O menino que se escondia”. Fez sucesso e ganhou prêmios e concursos literários. No 2023 pós-pandemia da Covid, lançou o chick lit “Até essa comédia se tornar romântica”.

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Na última quarta-feira (28), lançou o livro de contos “Mulheres Mofadas nas Entranhas e nas Memórias”, pela editora Patuá, na Biblioteca Pública de Santa Catarina. O primeiro lançamento foi marcante: na Feira Literária Internacional de Paraty, no Rio de Janeiro, entre 23 e 26 de novembro. Marina foi uma das escritoras convidadas pela Patuá para apresentar sua obra na maior festa literária do país.

Homenagem ao avô, que lhe deu a máquina

Durante a semana, na pracinha à beira-mar da Freguesia do Ribeirão da Ilha, Marina contou com as ilustres presenças do avô Elimar e da avó Gisela, ambos com 85 anos. Depois de 69 anos de trabalho na Companhia Hemmer, tradicional indústria de conservas em Blumenau, o aposentado foi conferir se a neta estava cuidando bem da velha Triumph.

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Foi a primeira vez em que se encontraram na atividade. Na ocasião, ele ouviu de Marina que, habituada ao computador e ao iPhone, precisou treinar para aprender a “bater” e utilizar os botões e as alavancas. Elimar parece ter gostado de saber:

— Alguns pais trazem os filhos para conhecer uma máquina de escrever. Tem uns, inclusive, que se experimentam na datilografia — brinca a escritora.

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Estimulado a também sugerir uma palavra, Elimar respondeu “peixe”. Explicou o motivo: recentemente perdeu um amigo de longa data, com quem fez muitas pescarias.

— Um peixe pulou, sem piscar, puxou o anzol, o bicho era tão grande que puxou o pescador para dentro da lagoa. Saramago tem mesmo razão: tem palavras melífluas (referentes ao mel). Mas também azedas.

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Veja o vídeo da escritora

“As pessoas querem ser ouvidas”, diz a escritora

O livro “Mulheres Mofadas nas Entranhas e nas Memórias”, lançado no dia 28, ganhou esse nome por uma provocação:

— Procuro mostrar que as histórias das mulheres não podem ficar guardadas. Precisam ser escritas para que os leitores as conheçam.

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Marina está ciente das dificuldades do mercado literário. Por enquanto, os custos são bancados pela família.

— O lucro das vendas é pequeno. Mas como brinca meu marido: é um investimento para o futuro.

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Para a escritora, além de estimular a leitura e despertar o apreço pela literatura, também tem a oportunidade de levar alegria para as pessoas. São muitas as ocasiões em que se surpreende com cenas:

— Mulheres se aproximam mais do que os homens. Mas são as pessoas em vulnerabilidade, aquelas que moram nas ruas, que me estendem a mão na hora do cumprimento.

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A presença nas calçadas e praças tem feito Marina pensar no impacto da iniciativa:

— Sinto que as pessoas querem ser ouvidas. Imagina se fosse permitido a um psicólogo sentar-se na rua para fazer escuta. Existem momentos em que o meu papel vai além de uma escritora no sentido verdadeiro da palavra.

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Professor reconhece o desafio da limitação das palavras

Robertson Frizero, escritor, tradutor, professor de criação literária, criador do grupo Literatura Mínima, reconhece a importância de iniciativas que aproximam as pessoas da literatura. Para ele, o trabalho de Marina Hadlich se enquadraria mais como micro crônica por ser reflexões que ela faz a partir de um tema sugerido pelas pessoas.

— A micro literatura surgiu pelos anos 1950, como desafio de alguns autores em tentar escrever histórias com o mínimo de palavras possível. A iniciativa ganhou adeptos e com a internet recebeu um impulso forte, porque são textos muito fáceis de serem divulgados pelas redes sociais — observa Frizero.

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O professor, que desenvolve um projeto chamado Literatura Mínima no Instagram, lembra que os desafios sempre têm como tônica a limitação das palavras.

— Quando você limita o número de palavras, a criatividade tem que aflorar mais. Os escritores têm que buscar alternativas para vencer aquela barreira e aí eles acabam trabalhando melhor a linguagem, enxugando mais o texto, os excessos vão saindo — diz o especialista.

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Conforme Frizero, no projeto de web Literatura Mínima é trabalhado o conceito de micro conto. A questão da palavra conto é bastante enfatizada.

— Os textos produzidos contam uma história, mas precisam ter um subtexto, uma segunda camada de história. Porém, não necessariamente a micro literatura trabalha sempre com micro contos — observa o professor.

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