Há uma década, um coveiro do cemitério de Schroeder, no Norte de Santa Catarina, convive com o luto todos os dias. Há alguns meses, o ambiente melancólico movido a despedidas silenciosas foi a fonte de inspiração para a criação de esculturas que prometem consolar a dor de quem passa por ali.

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Pablo Luis Nicoline, de 39 anos, é natural de Jaraguá do Sul, mas mora no bairro Vila Amizade, em Guaramirim, e atua como servidor público em Schroeder há dez anos. O trabalho como coveiro chegou de forma despretensiosa, mas foi no dia do enterro de sua mãe que Pablo diz ter encontrado o seu lugar.

— Naquele dia, as palavras de consolo não faziam sentido, mas o olhar silencioso e humilde de um coveiro disse tudo o que eu precisava ouvir. Ali entendi o poder desse ofício. Claro que isso aconteceu muitos anos antes de eu me encontrar aqui, mas quando aqui cheguei, sabia que era o meu lugar — revela.

Veja fotos da obra produzida pelo coveiro

Segundo Pablo, diagnosticado com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), a inspiração para a criação de suas obras surgiu pela necessidade de comunicação.

— No cemitério, não posso sorrir ou dizer “volte sempre”. Por mais que meu autismo me faça meio recluso, eu amo servir as pessoas e amo poder ajudar naquele dia que a todos chega. No dia da morte — contou ao NSC Total.

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De coveiro a artista

Durante o processo criativo, Pablo teve o objetivo de criar uma peça para ser colocada no cemitério para que transmitisse alguma mensagem às pessoas que vão até lá para se despedirem de alguém.

— Foquei em trazer excelência para um lugar onde o “ok” já bastava… Foquei em trazer beleza e reflexão para esse lugar que tanto ensina, mas que é tão subestimado — explica.

O coveiro ainda afirma que aprimorou suas técnicas sozinho ao longo do tempo e chegou a compartilhar suas ideias com pessoas próximas que o apoiaram de alguma maneira. Além disso, todo o recurso para viabilizar o projeto é de verba própria ou conhecidos que escolheram apoiar o artista.

— Minha técnica é autodidata, movida pelo hiperfoco do meu autismo e essa é minha primeira obra: comprei livros de anatomia, ferramentas e muitas vezes acordei de madrugada com ideias que me ocorriam no meio da noite para resolver problemas que aconteciam de dia — fala.

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Primeira obra finalizada se chama “O Luto”

A escultura que deu início à materialização do sonho de Pablo homenageia o conjunto de sentimentos que permeia o seu próprio ambiente de trabalho: o luto. Além da estátua, o coveiro também escreveu uma fábula sobre o tema.

— Quando amamos alguém vivo, o amor tem destino, mas quando a pessoa morre, esse amor fica perdido, vagando por caminhos tortuosos até entender que o luto será sua companhia eterna — reflete.

Foram meses de dedicação para chegar ao resultado que desejava, contou também. A expectativa é que a peça faça parte de uma série de obras, cada uma sendo protagonista de uma fábula temática.

As esculturas devem ficar expostas no cemitério de Schroeder. A próxima obra já tem projeto e fábula: falará sobre o “Tempo” e como os seres humanos interagem com o passado, presente e futuro.

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— Ver o luto todo dia acaba te deixando um pouco “cinza”. As pessoas pensam que somos mais conscientes por ver o fim comum de todos, mas eu cometo erros diariamente. O cemitério me ensinou a não perder tempo lamentando erros, mas a aprender e seguir em frente — revela.

A primeira escultura deve ser concluída até março e deve ser instalada em um jardim, junto com a placa do texto da fábula.

*Sob supervisão de Leandro Ferreira