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Investigação

CPI dos respiradores: empresário confirma pedido de propina e médico avalia modelo comprado pelo Estado

Deputados ouviram mais três testemunhas sobre a compra de R$ 33 milhões do governo de SC. Especialista reafirmou que modelo adquirdo não serve para covid-19

18/06/2020 - 15h32

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Jean
Por Jean Laurindo
Deputados ouviram testemunhas de forma remota em sessão desta quinta-feira
Deputados ouviram testemunhas de forma remota em sessão desta quinta-feira
(Foto: )

A CPI dos respiradores colheu mais dois depoimentos nesta quinta-feira (18) na investigação parlamentar que envolve a compra de 200 respiradores com pagamento antecipado de R$ 33 milhões do governo do Estado à empresa Veigamed, do Rio de Janeiro.

Os deputados ouviram o diretor-geral da empresa Brazilian International Business, Rafael Wekerlin, que foi procurado por um intermediário para importar os respiradores a serem fornecidos ao governo do Estado, mas recusou o negócio depois de um pedido de propina. Também foi ouvido o médico pneumologista Márcio Martins, indicado por uma entidade para explicar aos deputados questões técnicas sobre o uso de respiradores, e Gustavo Bissacotti Steglich, diretor da empresa Oltramed, que vendeu testes de covid-19 à empresa Veigamed, investigada pela venda dos respiradores ao Estado.

No depoimento que fechou a sessão, o CEO da Brazilian International Business, Rafael Wekerlin, confirmou que recebeu pedido de comissão de R$ 3 milhões para que a empresa dele fosse contratada pelo governo de SC para importar os respiradores da China.

Ele contou que foi procurado por um representante, que soube por um amigo que o governo do Estado pretendia trazer 200 respiradores da China.

– O Samuel (de Brito Rodovalho, representante da empresa Cima) seria o fornecedor, e precisava de uma trade para fazer a importação. Disse que faríamos, esse é um procedimento comum para a nossa empresa – apontou.

O empresário disse que enviou uma pré-proposta da sua empresa ao Estado e que ela chegou a ser aprovada. Wekerlin disse ainda que não teria lucro na operação, e iria fazê-la apenas para ajudar o Estado.

Foi em um grupo de Whatsapp criado para discutir o negócio que teria surgido o pedido de pagamento de comissão pela compra dos respiradores. No dia 26 de março, Samuel Rodovalho teria perguntado a Wekerlin sobre os “R$ 3 milhões de comissão dela”, sem especificar quem seria a pessoa que teria pedido ou receberia a tal comissão.

– Na hora, disse que não trabalhava dessa forma e me retirei a negociação. O compliance já tinha sido quebrado. Não quis nem saber de quem ia receber a comissão – disse o empresário.

Wekerlin também reafirmou que a pré-proposta que encaminhou ao Estado foi copiada na proposta utilizada pela Veigamed.

– Utilizaram toda a formação, igual a nossa. Na parte dos valores, no cabeçalho, o número da cotação, que é do nosso sistema de controle, é o mesmo. Não foram nem capazes de tirar o número da nossa proposta. Vamos tomar as providências. Foram descarados – disse.

Samuel Rodovalho, que teria intermediado o contato com o empresário de Joinville, começou a ser ouvido de forma remota nesta quinta-feira, mas os deputados decidiram adiar o depoimento dele para a próxima terça-feira (23) para fazê-lo de forma presencial.

Especialista reafirma aos deputados que modelo não serve para covid-19

No primeiro depoimento do dia, o médico pneumologista Márcio Martins, indicado pela Associação Catarinense de Pneumologia e Tisiologia (Acapti) para explicar aos deputados questões técnicas sobre o uso de respiradores, reafirmou que os equipamentos do modelo Shangrila 510S, comprados pelo Estado, não servem para uso contínuo em uma UTI, sendo voltados apenas para ventilar o paciente em ambulâncias ou em situações de transporte dentro da própria unidade hospitalar, como para a realização de um exame de imagem.

A informação de que os respiradores não servem para tratamento de covid-19 ou uso em UTI já havia sido repassada pelo representante da empresa que detém o registro de importação do respirador, em reportagem do Diário Catarinense publicada em 16 de maio, e pelo atual secretário de Saúde de SC, André Motta Ribeiro, em depoimento à mesma CPI na Alesc. 

– Esses ventiladores de transporte não são ideais para ventilar os pacientes com covid-19 que tenham desenvolvido síndrome de angústia respiratória aguda, que é um grau de insuficiência respiratória grave e que vão necessitar de ventiladores mais robustos, que possam ventilar e dar condições para que seus pulmões se recuperem – afirmou o médico.

Questionado sobre um estudo que apontaria até mesmo risco de morte para pacientes de covid-19 que utilizam o Shangrila 510S, Martins afirmou que cada respirador mecânico possui uma especificação de uso e que pessoas com covid-19 em um grau mais severo precisam de um aparelho que proporcione oxigenação na medida necessária.

– Dependendo do ventilador de transporte, existe sim um risco e pode aumentar as chances de morte do paciente – pontuou.

O médico também respondeu pergunta do presidente da CPI, Sargento Lima (PSL), sobre a necessidade de treinamento prévio dos profissionais de saúde para o manuseio dos respiradores – o contrato do Estado com a Veigamed não previa esse serviço.

– É importantíssimo que se tenha treinamento e isso tinha que constar na hora em que os aparelhos fossem adquiridos. Fazer com que a empresa que está vendendo o ventilador possa proporcionar, através de uma enfermeira ou médico, esta assistência, este treinamento do corpo médico de onde vai ser colocado esse ventilador – detalhou o médico.

Empresário que vendeu testes rápidos à Veigamed também foi ouvido

A CPI dos respiradores ouviu ainda nesta quinta-feira o sócio da empresa Oltramed, Gustavo Bissacotti Steglich. A Oltramed vendeu 100 mil kits de testes rápidos de covid-19 para a empresa Veigamed, investigada pela venda dos respiradores ao Estado. Ele não trouxe muitas informações novas à CPI.

Steglich garantiu não conhecer Fabio Guasti, representante da Veigamed, e que a única relação entre as duas empresas foi nessa compra de kits de testes, por R$ 11 milhões. O valor foi pago pela Veigamed e depositado em juízo após a investigação identificar a tentativa de compra. O empresário também conseguiu evitar a entrega dos testes à Veigamed.

– Todas as vendas são por pagamento antecipado, como forma de evitar especulação. Analisamos a documentação das empresas e a Veigamed tinha autorização da Anvisa. Para mim era como vender ao (Hospital Israelita Albert) Einstein e ou à Rede D’Or – afirmou.

Um dia após a venda, o empresário foi chamado à Deic de Joinville para falar do negócio. O delegado – a quem ele identificou como sendo Jefferson, sem especificar o sobrenome – teria dito a ele para suspender a entrega porque a Veigamed “estava fazendo negócios ilícitos”.

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