O aumento do endividamento das famílias brasileiras exige uma análise que vá além do número de pessoas com dívidas. O tipo de crédito contratado, as taxas envolvidas, o prazo de pagamento e o peso das parcelas no orçamento indicam se a dívida pode ser administrada ou se tende a comprometer a renda por um período prolongado.

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Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, 80,4% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. Para Adriana Witthoft Fachini, superintendente de crédito e recuperação da Viacredi, esse percentual precisa ser observado junto com outros fatores.

A especialista avalia que o alerta está na composição da dívida. Prazo, taxa, finalidade e capacidade de pagamento indicam se o compromisso financeiro ainda cabe na renda ou se já limita decisões futuras da família.

Quando a dívida cabe no orçamento

O crédito pode fazer parte da vida financeira de uma família sem representar descontrole. Isso ocorre quando a parcela foi prevista no orçamento, quando a taxa é compatível com a renda e quando o prazo não compromete despesas essenciais.

Um financiamento planejado pode permitir a compra de um bem necessário. Uma renegociação bem calculada pode reduzir juros e concentrar débitos em uma condição mais adequada. Uma contratação feita para cobrir despesas básicas, sem revisão do orçamento, pode transferir o problema para os meses seguintes.

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A diferença prática está na capacidade de pagamento. Uma dívida saudável preserva gastos obrigatórios, como aluguel, alimentação, transporte, saúde, educação e contas da casa. O superendividamento aparece quando a pessoa passa a atrasar compromissos recorrentes ou precisa assumir novos créditos para pagar parcelas antigas.

Adriana avalia que muitas famílias chegam ao endividamento por uma combinação de fatores. Custo de vida alto, juros elevados, perda de margem no orçamento, falta de reserva para emergências e planejamento financeiro insuficiente aparecem entre os elementos que pressionam a renda. Segundo ela, em muitos casos, a dívida nasce da tentativa de pagar necessidades essenciais.

Apostas online entram no radar de risco

Além dos fatores tradicionais, as apostas online passaram a preocupar especialistas em crédito e recuperação financeira. A modalidade pode parecer um gasto pontual, mas tende a afetar o orçamento quando se torna recorrente ou quando a pessoa passa a contar com ganhos incertos para fechar as contas do mês.

Para Adriana, o problema está na promessa de retorno rápido sem previsibilidade. Esse comportamento pode reduzir o dinheiro disponível para despesas fixas, pagamento de dívidas e formação de reserva financeira.

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Empresas também sentem os efeitos da inadimplência

O endividamento das famílias afeta o consumo e, por consequência, o faturamento das empresas. Quando uma parte maior da renda vai para pagamento de dívidas, sobra menos dinheiro para compras, serviços e investimentos domésticos.

Em 2025, o Brasil registrou 2.466 pedidos de recuperação judicial, o maior número da série citada pela Serasa Experian. Para a superintendente da Viacredi, esse dado mostra como a dificuldade financeira das famílias pode chegar ao setor produtivo. Com menor consumo, empresas perdem receita, e essa perda pode afetar empregos e renda.

Como começar a reorganização financeira

Para quem já está endividado, a primeira medida é levantar todas as informações. A lista deve incluir valor total, número de parcelas, taxa de juros, data de vencimento, instituição credora e situação de cada dívida.

Depois desse diagnóstico, é possível definir prioridades. Dívidas com juros mais altos costumam exigir atenção imediata. Compromissos que podem gerar perda de serviços essenciais também precisam ser observados. Em seguida, a pessoa deve calcular quanto consegue pagar por mês sem comprometer despesas básicas.

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Papel das cooperativas de crédito

As cooperativas de crédito ganham relevância porque trabalham com uma relação próxima ao cooperado. Na avaliação de Adriana, a oferta de crédito precisa vir acompanhada de orientação, responsabilidade e análise da situação financeira de cada pessoa. O objetivo, segundo ela, é apoiar o cooperado na organização das finanças.

A educação financeira ocupa um lugar central no cooperativismo. Esse compromisso está previsto no 5º princípio do movimento: Educação, Formação e Informação, que orienta a disseminação de conhecimento entre cooperados, colaboradores e comunidade, fortalecendo a capacidade de decisão e a participação consciente. Na prática, isso significa que falar de finanças, no contexto cooperativista, envolve informar, orientar e criar condições para que cada pessoa faça escolhas mais seguras e sustentáveis ao longo do tempo. Crédito deve ter finalidade definida

O crédito bem utilizado pode apoiar planejamento, realização de projetos e reorganização financeira. Para Adriana, ele cumpre esse papel quando é oferecido com condições justas, comunicação transparente e análise da capacidade de pagamento.

A especialista também aponta que o crédito pode ajudar na redução de juros quando usado para substituir dívidas mais caras. Essa alternativa depende de comparação entre taxas, prazo total e valor da parcela. A troca só faz sentido quando melhora o equilíbrio financeiro mensal e não aumenta o comprometimento da renda de forma excessiva.

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Antes de contratar, o consumidor pode confirmar a finalidade do crédito, comparar a nova parcela com o orçamento disponível e observar se a dívida resolve um problema específico ou apenas cobre um atraso momentâneo. Esses cuidados ajudam a diferenciar uma renegociação viável de uma decisão tomada sob pressão.

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