O cantor Criolo traz a Florianópolis um show inédito de samba no próximo sábado (9). A apresentação deve reunir canções autorais e clássicos do gênero musical de artistas como Leci Brandão, Monarca e Nelson Sargento, por exemplo. 

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Em uma entrevista exclusiva por vídeo ao NSC Total, Criolo fala sobre temas como as expectativas para a apresentação, a versatilidade na música, futebol, desigualdades sociais e a relação com Santa Catarina, estado para onde fez a sua primeira viagem de avião.

O show acontece no bar Vereda Tropical, na Barra da Lagoa, em Florianópolis. Os portões abrem a partir das 17h. Os ingressos estão disponíveis e custam entre R$ 120 e R$ 220. 

Leia a entrevista

Conte um pouco sobre o show que você fará em Florianópolis no dia 9. O que o público pode esperar?

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É um show muito delicado. Um show diferente, único. Estamos escolhendo com muito carinho as músicas pra ser algo especial, diferente. Porque são canções diferentes. São canções que eu amo e de grandes mestres que eu tive a oportunidade de cantar junto. Como a nossa mestra Leci Brandão; com a dignidade do samba, que é o mestre Monarca, junto com a Velha Guarda da Portela; tem também o Nelson Sargento. Estou colhendo coisas de pessoas que são amigas, que cruzaram minha história, me fortaleceram. Então, realmente, passa pelo lugar afetivo. Será um show muito forte de emoção. É uma oportunidade de poder criar algo diferente. 

Você é de São Paulo, tem pais nordestinos e fará um show aqui em SC. Como é essa mistura de culturas durante o show? Sente que tem diferenças ou situações específicas quando a apresentação é em SC? 

Tem uma coisa muito especial, porque já é algo atípico. Quando se fala da pessoa que vive o rap como eu vivi, que vive, ama e respira a cultura Hip Hop, pra algumas pessoas é muito difícil imaginar a gente capaz de cantar o que é a alma do brasileiro: o samba. Já é muito especial por essa situação. E essa cultura Hip Hop que me fortaleceu, capaz de me enxergar vivo, de poder construir alguma coisa, me levou também ao Sul do país. A porta de entrada foram as pessoas que amam o rap e me convidaram pra cantar no Sul. Fiz muitos shows de rap em Florianópolis. 

Agora eu volto à cidade para fazer um show de samba, uma oportunidade de contar mais um capítulo de história. De onde o rap e o meu álbum de samba, o “Espiral de Ilusão”, me levou. No Sul existem muitas pessoas que fazem rap e samba de altíssima qualidade. Agora é uma oportunidade de eu fazer um show de samba trazendo todas essas vivências. 

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Em 2011, assim que lançou o “Nó na Orelha”, você integrava a curadoria do Encontro das Ruas, no Festival de Dança de Joinville. Você lembra desses eventos? Como é sua relação com Santa Catarina? O que te traz na memória?

Em Joinville, participei do Festival de Dança, fui convidado a organizar a parte de Hip Hop. Eu ajudava a organizar a batalha de freestyle e a pensar qual nome de rap iria cantar. Participei de três edições. Pra mim foi incrível poder ajudar a articular e pensar. Eles [a organização do Festival de Dança] foram muito sensíveis, na época, de entender a força do Hip Hop para além da dança. Foi uma sensação incrível. Foi a primeira vez que eu pude voar, para ir numa reunião do festival e pensar como articular, quais MC’s convidar para as batalhas, os shows. Foi a primeira vez que peguei um avião, foi o Festival de Joinville que proporcionou isso. Com respeito e preocupação com a cultura Hip Hop. 

Alguém me enxergou como uma pessoa capaz. As pessoas que pensavam o Encontro das Ruas, me enxergaram como alguém que poderia contribuir com o núcleo de Hip Hop. Tinham outras pessoas, por exemplo, o mestre Frank Ejara, que cuidava da dança. Pessoas preocupadas em fazer o graffiti. Foi muito legal porque fiz tudo de modo silencioso do Grajaú [bairro de São Paulo], numa cena underground do underground do underground, que surge desde 1997. Alguém da cena Hip Hop me indicar como pessoa possível para pensar a batalha de freestyle, que hoje é uma febre nacional… melhor, vou falar que é um remédio nacional. Um lugar que a juventude usa para se expressar e respirar vida. 

Você tem álbuns de rap, samba, músicas de reggae e agora fala em um álbum de sertanejo. Conta mais sobre isso do sertanejo? E como é flutuar nesses vários gêneros? O público recebe bem?

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É tão natural. Isso é Brasil. Nós, o povo, não separamos isso. O povo une. Quando cresci em um barraco na favela Jardim das Imbuias [bairro em São Paulo], em 1975 e fiquei até 1982, era um banheiro para quatro barracos. Nosso barraco era feito de estrado de cama, um fogão, lona de caminhão e barro batido. Nós, literalmente, moramos num terreiro. Lembro do meu pai com os amigos dele, debaixo do sol, batendo barro pra quando chovesse o chão não dissolvesse e o barraco não caísse em cima da gente. 

Então, quando alguém escuta algo na TV ou no rádio, pode ser a casa 3, a 10, da viela de cima, você tá escutando. Na favela está o Brasil todo reunido. Então isso é do Brasil. Nada mais natural que a gente fazer uma homenagem, pedir licença, com amor e respeito. Se Deus permitir, eu vou fazer. Mas no processo eu preciso ver que tenho condições. Uma coisa é querer, outra é fazer. Eu vou entender se estou fazendo valer ou se estou atrapalhando. 

O povo que está na batalha, ‘na lida’, suando e sangrando, não separa. Eu nasci em 75, cara. Já estão se passando cinco décadas pela minha vida. O mundo hoje é outro. Eu não sei como é este outro Brasil e como se relaciona com música. Mas desse Brasil que eu vejo com uma juventude linda e do Brasil que eu venho, a gente não separa a música. Os outros que separam, nós não. 

Você costuma citar questões políticas e sociais nas suas músicas. Canta rap, tem música com artistas do funk, gosta de futebol, torce para Corinthians… Por vezes, esses elementos são colocados como alienação por parte das pessoas. Você concorda? Ou podem servir de ponte para a luta e para dialogar com a periferia?

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O esporte é um tipo de arte, um dom, uma dedicação. Quando isso levanta a massa, significa que ela se reuniu. E quando a massa se reúne, as pessoas se conversam. E quando a gente se conversa, a gente fica sabendo o que está acontecendo no outro lado da ponte, na rua de baixo. Por que os pequenos bailes de ruas foram sendo destruídos? Por que as pequenas casas de shows nas periferias foram sendo destruídas? Porque ali o povo se encontra. Vai sorrir, vai dançar. E quando acham que estamos sendo alienados, estamos tentando desabafar pra não se matar, porque tem uma semana inteira pra trabalhar. Acontece isso, mas também o encontro. E no encontro tudo é possível. 

As pessoas têm a mania de achar que a gente vai se reunir e só vai sair coisas ruins, ou que nós estamos perdendo tempo. Quando é o rico que se reúne é legal, mas quando é o pobre é alienação? Isso é uma mancada, bicho. Quando você ia num baile da zona Norte e tinha uma irmandade, você sabia o que estava acontecendo na zona Norte. E o que estava acontecendo na Sul. Quem ia pra Leste sabia da Oeste. E quando a gente se encontrava no Centro sabia um pouco de cada quebrada. A gente falava “como é que vamos nos fortalecer, irmão?”, porque não é só dançar. É necessário ter um pouco de serenidade, solidariedade, amor e afeto quando se fala em o que é reunir a massa, o povo sofrido, dentro de um país que está passando por tantas transições e já vem remando com tantas dificuldades e desigualdades sociais. 

Talvez por isso a música seja tão perseguida e fazem compartimentos. Porque se a gente estiver juntos, vamos trocar ideias. O esporte é a mesma coisa, ele reúne a massa. Eu vou ver o jogo do Corinthians e tem uma pessoa da Norte, Sul, Oeste, Centro, o rico e o pobre, o paupérrimo e o ultra rico, o que acha que é rico… junta todo mundo e vai ter que coexistir. Às vezes, a paixão por uma coisa inexplicável é tão grande, que naquele momento a gente tá em unidade. Como isso pode ser alienação? É a prova de que se a gente pode torcer juntos pelo time do coração, imagina tantas outras coisas. Quando a massa se reúne, o milagre acontece. Seja pelo esporte ou pela música. 

E o Corinthians, está acompanhando? 

Estou acompanhando. Meio de tabela e é isso aí. Vamos ver ano que vem, tudo certo. 

Quais são suas expectativas para o futuro? Vem álbum novo? Conta sobre o que vem pela frente na carreira do Criolo. 

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Cara, cola no show, curte o som. Tudo foi feito com muito amor, mano, com muita luta. Não é de plástico. Embora chegue de modo digital, saiba que tem muito trabalho, dedicação e respeito com você que vai escutar o som. Escuta o nosso som, pega os links e passa para os amigos. Vocês estão fazendo transformação através da arte, da música e estão levando o ganha-pão para uma cadeia de pessoas que sobrevivem dessa música. Isso é revolucionário, é maravilhoso e é o único meio que a gente tem. A gente não tem outro. Escuta o som que foi feito com o coração. Mesmo. 

Serviço

Criolo apresenta “Samba Só”

  • Onde: Bar Vereda Tropical, na Barra da Lagoa, em Florianópolis
  • Quando: 9 de dezembro, a partir das 17h
  • Onde comprar ingresso: No site www.pensanoevento.com.br

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