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    Crise do coronavírus faz do Brasil o laboratório de vacinas ideal

    Com um contágio generalizado e sustentado, o Brasil surgiu como um ator potencialmente vital na luta global para acabar com a pandemia

    24/08/2020 - 12h42

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    Por The New York Times
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    Cerca de cinco mil brasileiros também foram recrutados para um teste de vacina.
    (Foto: )

    *Por Manuela Andreoni e Ernesto Londoño

    Rio de Janeiro – A resposta caótica ao coronavírus no Brasil, onde a Covid-19 já matou mais de 105 mil pessoas, fez da experiência do país algo a que muitos ao redor do mundo assistiram com alarme.

    Mas, à medida que o número de casos ia aumentando, os pesquisadores de vacinas viram uma oportunidade única.

    Com um contágio generalizado e sustentado, uma bancada de especialistas em imunização, uma robusta infraestrutura de fabricação médica e milhares de voluntários para testes de vacinas, o Brasil surgiu como um ator potencialmente vital na luta global para acabar com a pandemia.

    Três dos estudos de vacinas mais promissores e avançados do mundo contam com cientistas e voluntários no Brasil, de acordo com o relatório da Organização Mundial da Saúde sobre o progresso da pesquisa de imunização.

    O governo em apuros espera que seus cidadãos possam estar entre os primeiros do mundo a ser inoculados. E os especialistas médicos imaginam a possibilidade de o Brasil até mesmo fabricar a vacina e exportá-la para países vizinhos, uma perspectiva que os enche de algo bem escasso este ano: orgulho.

    "Estou muito otimista. O Brasil será um dos primeiros países a ter a vacina", disse Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, produtor biofarmacêutico de renome internacional que fez parceria com a chinesa Sinovac em um dos estudos que chegou à terceira etapa da pesquisa, durante a qual possíveis vacinas são testadas em nove mil pessoas.

    Cerca de cinco mil brasileiros também foram recrutados para um teste de vacina realizado pela AstraZeneca, empresa farmacêutica britânico-sueca, em parceria com a Universidade de Oxford. Outros mil voluntários no Brasil vão testar uma vacina desenvolvida pela Pfizer, com sede em Nova York.

    Os pesquisadores precisam de países com surtos grandes o suficiente para avaliar se uma vacina vai funcionar. Alguns voluntários recebem a vacina potencial, enquanto outros recebem um placebo, mas eles precisam estar em um lugar onde o vírus esteja circulando para testar sua eficácia.

    O Brasil, onde o vírus já infectou mais de três milhões de pessoas, tem condições claras para esses testes. E será o único país além dos Estados Unidos a desempenhar um papel importante em três dos principais estudos, pois a busca sem paralelo por uma vacina levou a aprovações regulatórias extraordinariamente rápidas e parcerias feitas às pressas.

    Ainda assim, segundo os especialistas, não é possível dizer que os testes de vacinas em andamento no Brasil vencerão a corrida.

    Países de todo o mundo disputam para estar entre os primeiros a ter acesso a uma vacina que será necessária para bilhões de pessoas. Na Índia, uma das famílias mais ricas do país está se arriscando ao produzir em massa a vacina de Oxford, na esperança de que ela seja a primeira a ultrapassar obstáculos de segurança e regulamentação.

    A Rússia aprovou recentemente uma vacina que ainda não passou pelos testes finais de segurança e eficácia. Se funcionar, o país poderá afirmar que desenvolveu a primeira vacina eficaz contra o coronavírus no mundo.

    O grande número de casos do Brasil fez dele o segundo país mais atingido do mundo depois dos Estados Unidos. Mesmo que outras nações da região tenham taxas per capita mais altas, especialistas atacaram a condução arrogante da crise pelo presidente Jair Bolsonaro.

    O presidente, que contraiu o vírus em julho, chamou-o de "gripezinha" e sabotou a necessidade de quarentena e bloqueio. Ele também nomeou um general do Exército sem experiência médica para dirigir o Ministério da Saúde, depois que dois ministros entraram em conflito com Bolsonaro sobre seu desdém por abordagens baseadas na ciência.

    Por causa da resposta desorganizada do país ao vírus, os brasileiros foram submetidos a proibições de viagem, vizinhos militarizaram as travessias de fronteira e sindicatos que representam trabalhadores médicos pediram recentemente ao Tribunal Penal Internacional que acuse Bolsonaro de crimes contra a humanidade, argumentando que ele deixou o vírus se espalhar livremente.

    O Brasil possui um sistema público de saúde universal com um dos melhores programas de imunização do mundo em desenvolvimento, que permite conter surtos de febre amarela, sarampo e outros patógenos.

    Mas, nos últimos anos, à medida que a economia ia se contraindo, o sistema foi sendo prejudicado por cortes orçamentários. Também teve de combater campanhas de desinformação, que encontraram uma boa audiência nas redes sociais.

    Em 2019, pela primeira vez em 25 anos, o Brasil não cumpriu sua meta de vacinação de nenhuma das vacinas que administra rotineiramente.

    Um avanço no tratamento do coronavírus poderia estimular o setor de vacinas do país. Também poderia revigorar suas instituições científicas, que empregam cientistas de classe mundial, mas que vêm cambaleando depois de anos de cortes orçamentários que enfraqueceram o sistema público de saúde e abalaram a reputação do país como uma potência de pesquisa.

    Katherine O'Brien, diretora de imunização da OMS, elogiou os investimentos brasileiros na fabricação de vacinas contra a Covid-19, mas afirmou que negócios bilaterais como aqueles em que o Brasil está envolvido ainda eram uma aposta.

    "Alguns países vão ter sorte, firmando contratos com uma candidata que demonstrará eficácia. Outros países vão buscar acordos com candidatas que vão falhar e não receberão nada", disse O'Brien.

    Com cerca de 210 milhões de habitantes, o Brasil tem capacidade para fabricar cerca de 500 milhões de doses de vacinas por ano. Nos atuais acordos, as fábricas brasileiras lidariam inicialmente com as fases finais de produção, depois da importação das matérias-primas, e, posteriormente, as produziriam inteiramente.

    O Brasil assinou dois acordos para ter acesso preferencial a uma vacina. Um deles, entre o Instituto Butantan, do estado de São Paulo, e a Sinovac, forneceria aos brasileiros 120 milhões de doses até o início de 2021. A segunda, entre o Bio-Manguinhos, do governo federal, e a AstraZeneca, garante o acesso a cem milhões de doses da vacina até o início do ano que vem.

    Ambos os acordos incluem um acerto de transferência de tecnologia que permitiria ao Brasil fabricar vacinas por conta própria. Autoridades do governo esperam começar a vacinar alguns brasileiros até o primeiro semestre de 2021, embora uma data exata dependa dos resultados de estudos em andamento e de um futuro processo de aprovação junto à agência reguladora local.

    Mas, enquanto os pesquisadores celebram o papel do Brasil na corrida global pela vacina, eles também se sentem obrigados a lembrar aos cidadãos que a boa notícia, sozinha, não vai pôr fim ao sofrimento que o vírus espalhou pelo país.

    "Eles não devem presumir que tudo acabou. Ainda há muito trabalho que o Brasil precisa fazer para fortalecer sua infraestrutura de saúde pública, com o objetivo de reduzir a transmissão do vírus", afirmou Maria Elena Bottazzi, desenvolvedora de vacinas da Escola de Medicina Baylor.

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