O impacto financeiro do transporte público sobre as famílias de menor poder aquisitivo atinge patamares que asfixiam a subsistência básica no país. Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) constatou que o deslocamento diário por meio de ônibus e metrô drena até 18% do valor líquido de um salário mínimo. Em termos absolutos, a despesa mensal média de R$ 260 por trabalhador equivale ao preço de até oito cestas básicas econômicas, acumulando um impacto anual de R$ 3.120 por cidadão.

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Raio-X das tarifas e os custos no Distrito Federal e Entorno

A investigação, que integrou o Instituto de Ciência Política (IPOL), o Grupo de Pesquisa Geopolítica e Urbanização Periférica (GeoUrb) e o Núcleo Brasília do Observatório das Metrópoles, mapeou a desproporção tarifária que penaliza quem reside nas periferias.

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Sob a coordenação do professor Thiago Trindade, os dados expõem as assimetrias do sistema de cobrança atual, onde o peso do transporte é inversamente proporcional à renda do usuário.

Na estrutura do Distrito Federal, as viagens de curta distância custam R$ 2,70, enquanto as conexões entre regiões administrativas saem por R$ 3,80. O teto de R$ 5,50 é aplicado nas viagens longas e no Metrô-DF, que registra cerca de 42,4 milhões de passageiros anuais.

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Já a frota de ônibus urbanos locais, que opera predominantemente sob a tarifa de R$ 5,50, transportam 359,6 milhões de usuários por ano. O cenário mais severo está nas linhas metropolitanas do Entorno, coordenadas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT): são 49,8 milhões de passageiros anuais submetidos a uma tarifa predominante de R$ 11,45.

Gastos em mobilidade corresponde a 18,4% do salário mínimo

Dessa forma, o gasto mensal de R$ 260 com transporte corresponde a 18,4% do salário mínimo e pesa especialmente sobre a população de baixa renda, que depende diariamente dos ônibus para trabalhar, estudar e acessar serviços públicos.

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Segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a cesta básica em Brasília custava R$ 712,06 em março deste ano.

Barreira no mercado formal e o debate sobre a tarifa zero

O diagnóstico técnico alerta que a ausência de subsídios públicos integrados e estruturados encarece o custo patronal do vale-transporte, criando uma barreira invisível de contratação. Muitas corporações evitam admitir profissionais que dependem de múltiplas conexões diárias. Como alternativa para mitigar essa segregação e reduzir as desigualdades de acesso à cidade, o estudo defende a viabilidade técnica da gratuidade universal.

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O esvaziamento da renda familiar gera um efeito cascata que compromete os investimentos domésticos em saúde, educação e alimentação. No entanto, as projeções do mapeamento para as 27 capitais e regiões metropolitanas indicam que a Tarifa Zero teria o potencial de injetar R$ 45,6 bilhões anuais na economia brasileira, ao converter o gasto com passagens em consumo direto de bens e serviços.

Desse montante global, cerca de R$ 2,1 bilhões passariam a circular como recursos novos especificamente na economia local, já descontados todos os modelos de gratuidade ativos atualmente.

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Proposta de fundo nacional com custeio patronal

Para viabilizar o modelo de gratuidade sem sobrecarregar o orçamento público, os cientistas da UnB desenharam uma reconfiguração estrutural do vale-transporte. A proposta sugere a formatação de um fundo específico de alcance nacional, alimentado por uma nova dinâmica de contribuição empresarial que poupa os microempreendedores e foca no adensamento de mão de obra.

O professor Thiago Trindade detalha a engenharia financeira projetada pelo grupo de pesquisa para sustentar o sistema de passe livre:

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— A gente fez um cálculo e chegou à conclusão de que se cada empregador depositar uma taxa de R$ 250 por mês para esse fundo, a gente já seria capaz de financiar a tarifa em âmbito nacional, mas com um detalhe importante. Essa contribuição só viria para as empresas a partir do décimo funcionário.

*Com edição de Luiz Daudt Junior.