As escolas de samba de Laguna atravessaram 13 anos sem desfile oficial, mas não deixaram a tradição morrer. Fundadas entre as décadas de 1940 e 1980, Os Democratas, Xavante, Brinca Quem Pode, Vila Isabel e Mocidade Independente mantiveram projetos, ensaios e ações comunitárias ao longo do período fora da avenida. Em 2026, com o retorno à programação oficial do Carnaval, cada uma levou para a passarela não apenas enredos e fantasias, mas décadas de história construídas nos bairros e transmitidas de geração em geração.

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O presidente da Fundação Lagunense de Cultura, Bruno Marçal, destacou o trabalho das escolas e a importância da retomada do desfile. “Esse foi o primeiro passo de um novo tempo. Agora, seguimos unidos, em parceria com a Liga das Escolas de Samba e toda a comunidade, para planejar e construir um Carnaval cada vez maior, mais organizado e à altura da tradição e da força cultural de Laguna”, afirmou.

O retorno das escolas de samba à programação oficial reforçou o protagonismo de Laguna no cenário carnavalesco catarinense e resgatou uma tradição que mobiliza comunidades inteiras na construção de enredos, fantasias e apresentações. As entrevistas com representantes das escolas foram exibidas no Jornal do Almoço,, ao longo da cobertura especial sobre o retorno do desfile oficial.

G.R.C. Escola de Samba Os Democratas

Fundada em 6 de janeiro de 1958 por Eli Caetano e um grupo de amigos, a Escola de Samba Os Democratas nasceu a partir da tradição dos antigos blocos carnavalescos da cidade, como Bola Preta e Bola Branca. Com o passar do tempo, os blocos ganharam novo formato e deram origem à escola de samba. “Democratas se juntaram e formaram aqui na comunidade de Campo de Fora a escola de samba Os Democratas”, relatou Arnaldo Júnior, carnavalesco e diretor artístico coreólogo do grupo.

Representando a comunidade com as cores amarelo e vermelho e tendo o sol como símbolo, a escola manteve atividades mesmo durante os 13 anos sem desfile oficial. “O Democratas, ele tem uma companhia de dança particular que trabalha especificamente com a parte de comissão de frente”, afirmou Arnaldo. Segundo ele, a escola também promoveu eventos como jantares e confraternizações, além de ações no Natal e no Dia das Crianças, sempre buscando trazer a comunidade para dentro da sede.

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Durante o período sem desfile oficial, a escola participou dos pré-carnavais, levando comissão de frente, mestre-sala e bateria. “A gente também preserva em levar uma boa qualidade de apresentação”, disse. Em 2026, o enredo escolhido foi: Façam suas apostas, o jogo vai começar. “É uma gratidão enorme ter conseguido essa vitória de estar com um Carnaval competitivo de novo”, declarou.

Clube Carnavalesco Xavante

O Clube Carnavalesco Xavante teve origem em 1946, no Café Tupy, no Centro de Laguna. Sem arquivos históricos consolidados, a trajetória foi preservada principalmente pela oralidade.

Christian Pavanate Soares, mestre de bateria e enredista do clube, contou que o nome Xavante surgiu a partir de uma reportagem vista sobre o Mato Grosso do Sul, que repercutiu na cidade. No dia da reunião dos fundadores, conforme Pavanate, surgiu a ideia do nome.

Atual presidente desde 2003, Ronaldo Pacífico Vargas afirmou que a escola não parou durante os anos sem desfile oficial. “A gente costuma brincar, que a a gente só estava treinando pro Carnaval”, disse. Segundo ele, o clube manteve eventos, projetos e atividades na sede ao longo do ano.

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Soares destacou que o pré-carnaval, instituído em lei como evento oficial do município, foi fundamental para manter viva a tradição. “Não morreu de fato”, afirmou. Em 2026, o enredo escolhido foi: Oito décadas de histórias, memórias e glória. “A gente tá bastante empenhado. E é uma sensação que a gente não sente desde 2013”, declarou.

A.C.R. Brinca Quem Pode

Fundada em 17 de fevereiro de 1947 por Paulo dos Reis e um grupo de amigos, entre eles Adelaide Pires e Agenor Pinto, a Brinca Quem Pode completou 79 anos em 2026.

Joel dos Reis, tesoureiro, mestre-sala e carnavalesco da agremiação, relembrou a fundação idealizada por seu pai. “A Brinca Quem Pode foi fundada em 17 de fevereiro de 1947, portanto esse ano completamos 79 anos”, afirmou. Segundo ele, os fundadores tinham entre 18 e 20 anos quando decidiram criar o bloco carnavalesco.

Desde a origem, a escola manteve ligação com a ancestralidade africana. “Ela vem resgatando um pouco dessa ancestralidade do povo africano, sempre mantendo os pés firmes na nossa comunidade”, declarou Joel. A proposta cultural sempre esteve conectada ao território e às raízes da comunidade.

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Ao longo dos anos sem desfile oficial, a escola manteve projetos de dança, bateria e capoeira, além de promoções como jantares e almoços. “Foi um tempo bastante longo e bastante árduo, onde mantivemos a essência da escola”, disse Joel.

O presidente Edson Roberto da Luz afirmou que a agremiação nunca perdeu a esperança. “A gente nunca deixou, nunca perdeu a esperança”, declarou. Em 2026, o enredo escolhido foi: O raio vem anunciar que no terreiro da avenida sopram os ventos de Oyá.

S.R.C. Escola de Samba Vila Isabel

A Vila Isabel teve fundação histórica em 1957 e foi oficializada em 1958. Segundo Thiago Laurindo, que compôs a dupla de carnavalescos ao lado de Marlon Barbosa, a origem esteve ligada a uma dissidência da escola de samba do Morro da Mangueira.

“Fundaram a Vila Isabel no dia 2 de novembro de 1957, porém por ser uma data fúnebre, os dirigentes decidiram então passar essa fundação para o ano seguinte”, relatou. A data oficial foi definida em 13 de maio de 1958.

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Desde o início, a escola teve como propósito evidenciar a cultura negra e afrodescendente. “A Vila Isabel nasce com esse propósito de evidenciar principalmente a cultura negra, a cultura afrodescendente, a cultura quilombola e a cultura dos nossos ancestrais”, disse Thiago.

Daiana Santos Linhares, rainha de bateria, afirmou que desfilava desde criança. Ela desfilava desde criança. “Eu desfilo desde criança aqui na escola”, afirmou. Ainda menina, participou das alas infantis e, aos 13 anos, foi segunda princesa do Carnaval de Laguna. Naquele mesmo período, recebeu a faixa de rainha de bateria das mãos da então ocupante do posto, que hoje é presidente da escola. “É indescritível essa sensação”, declarou ao falar sobre o retorno.

G.R.C.E.S. Mocidade Independente do Bairro Progresso

Fundada em 1980, a Mocidade Independente do Bairro Progresso nasceu da iniciativa de ex-integrantes de outra escola que decidiram criar uma nova agremiação na comunidade.

Gabriel Marçal, mestre de bateria e diretor de Carnaval, contou que seu pai esteve entre os fundadores. “Como diz o ditado, a fruta não cai muito longe do pé e eu faço parte da Mocidade”, afirmou.

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Assim como as outras escolas, mesmo durante os anos sem desfile oficial, a escola manteve oficinas e projetos sociais. “Também conseguimos inserir um trabalho social com as crianças autistas. […] Temos aulas de percussão, de cavaquinho e violão”, disse Rafael Vargas, diretor de patrimônio e de bateria.

No retorno à avenida, a Mocidade levou como enredo: Ayangalú, o Orixá que fala no batuque do tambor. Na tradição das religiões de matriz africana, Ayangalú é associado ao toque dos tambores, à força do som e à comunicação espiritual por meio da percussão. A escolha dialogou diretamente com a identidade da escola, marcada pela bateria como elemento central do desfile.

“O acontecimento do Carnaval nesse ano mostra que esse esforço de manter o pré-carnaval ao vivo, as escolas ativas, valeu a pena”, declarou Gabriel.

Laguna já conhece a campeã do Carnaval 2026

Laguna já conheceu a grande campeã do Carnaval 2026. A Mocidade Independente do Bairro Progresso conquistou o título com o samba-enredo: Ayangalú, o Orixá que fala no batuque do tambor, após o desfile oficial realizado no dia 7 de fevereiro.

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A apuração das notas ocorreu no dia seguinte, no Mercado Público de Laguna, reunindo representantes das agremiações, autoridades e a comunidade. O resultado consagrou a escola após a avaliação dos jurados nos quesitos técnicos e artísticos.

O prefeito de Laguna, Preto Crippa, destacou o momento. “O retorno do desfile das escolas de samba de Laguna, após 13 anos, é um momento histórico para a nossa cidade. Quero agradecer a todos que se dedicaram incansavelmente para que esse sonho se tornasse realidade”, afirmou.

Veja imagens das escolas de samba de Laguna