Cinco vacas que foram deixadas em uma ilha remota no século 19 pareciam condenadas a desaparecer. Sem cuidado humano, expostas ao frio e ao vento forte da região, e com pouco acesso à pouca água doce, elas tinham tudo para virar apenas uma nota esquecida na história da pecuária.

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Mas o improvável aconteceu: A partir daquele pequeno grupo, surgiu uma manada com milhares de animais, capazes de sobreviver por mais de 130 anos em um dos pontos mais isolados e remotos do Oceano Índico.

Agora, uma análise genética mostrou que a história era ainda mais surpreendente do que parecia. O DNA desses animais revelou que, curiosamente, eles não apenas resistiram ao isolamento, como também carregavam uma combinação biológica decisiva para enfrentar um ambiente tão extremo.

Cinco vacas, uma ilha

Tudo começou em 1871, quando um fazendeiro chamado Heurtin abandonou cinco vacas na ilha de Amsterdã, território francês de cerca de 54 quilômetros quadrados no sul do Oceano Índico. A região é marcada por ventos intensos, frio, umidade e poucos recursos naturais. Mesmo assim, os animais conseguiram se reproduzir e formar uma populão numerosa ao longo das décadas.

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O rebanho conseguiu chegar a quase 2 mil indivíduos em meados do século 20. Mesmo após enfrentar doenças e quedas populacionais; conseguiu se recuperar, algo considerado improvável para uma população inciada com tão poucos fundadores.

Por trás do DNA

Por muito tempo, uma das hipóteses mais aceitas era a de que as vacas teriam passado por um processo rápido de nanismo insular. Em outras palavras, teriam ficado menores ao longo de gerações como forma de adaptação ao meio ambiente limitado da ilha. A nova análise, porém, mudou essa interpretação. O estudo mostrou que não havia sinais genéticos de seleção para redução acelerada de tamanho.

Na prática, os pesquisadores concluíram que os animais provavelmente já eram pequenos quando chegaram à ilha. Essa característica não teria surgido ali, mas fazia parte da origem genética do próprio grupo fundador.

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Mistura inesperada

O genoma das vacas revelou duas linhagens principais. Aproximadamente três quartos da composição genética vinham de raças taurinas europeias, próximas ao tipo Jersey, conhecidas por adaptação a ambientes frios, úmidos e ventosos.

A outra parte vinha do gado Zebu do Oceano Índico, ligado a animais de regiões como Madagascar e Mayotte. Essa mistura pode ter sido decisiva. Em vez de depender de uma adaptação rápida depos do abandono, o rebanho já chegou à ilha com uma diversidade genética que ajudou sua sobrevivência.

Porque não desapareceram?

Com apenas cinco animais no início, o cruzamento entre parentes era algo natural e inevitável. Em populações pequenas, isso costuma aumentar o risco de doenças hereditárias e pode levar ao colapso genético. Mesmo assim, os cientistas não encontraram sinais fortes de acúmulo de variantes prejudiciais.

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O rebanho cresceu rápido o suficiente para preservar parte da diversidade antes que a endogamia causasse danos irreversíveis. Essa velocidade de expansão ajudou a explicar por que os animais conseguiram passar por tantas gerações em isolamento.

O fim da manada

Apesar da impressionante história e capacidade de sobrevivência, o gado acabou se tornando um problema ambiental. Os animais ameaçavam outras espécies nativas na ilha de Amsterdã, como o albatroz-de-amsterdam e a árvore Phylica arborea. Por isso, programas de restauração ecológica começaram a reduzir a população. Em 1987, uma cerca foi instalada e mais de mil animais foram retirados de uma área da ilha.

O último exemplar foi removido em 2010, encerrando de vez uma linhagem que havia começado com apenas cinco vacas abandonadas.

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