Às 5h da manhã, enquanto a maior parte da casa ainda dormia, um homem saía de moto de Santo Amaro da Imperatriz rumo ao trabalho, na Trindade. Voltava apenas no fim da tarde, sempre no mesmo horário. A disciplina era quase um ritual. Na memória de infância de Indianara Buratto, era assim que o pai ensinava sobre trabalho, sem precisar dizer uma palavra.
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— Eu sempre vi o meu pai trabalhando muito, saindo de casa muito cedo e extremamente disciplinado. Quando eu olho para a minha carreira hoje, ela tem muito disso: comprometimento e disciplina — lembra.
Muito antes de se tornar CEO da Vallora Benefícios, empresa catarinense que hoje fatura cerca de R$ 20 milhões e movimenta R$ 70 milhões em benefícios corporativos por mês, ela era uma jovem tentando encontrar um caminho. Aos 18 anos, saiu de casa.
— Eu era muito presa dentro de casa. Queria liberdade, queria trabalhar. Então saí e tive que me virar — conta.
A primeira oportunidade foi como babá e empregada doméstica. Dormia na casa da família de segunda a sábado e cuidava de um bebê recém-nascido.
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— Hoje eu olho para trás e penso: como colocaram um recém-nascido na mão de uma menina de 18 anos? Mas aquilo me ensinou responsabilidade na marra.
Mesmo trabalhando o dia inteiro, ela ainda pegava ônibus à noite para fazer cursinho pré-vestibular. A ambição, palavra que faz questão de usar sem vergonha, já aparecia ali.
— Sempre quis ter uma vida melhor. Sempre fui muito ambiciosa e ainda sou. Onde eu estou hoje ainda não é o lugar onde quero chegar.
Veja fotos da CEO de empresa que hoje fatura milhões
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A menina da sacola cheia de roupas
Antes mesmo de empreender oficialmente, Indianara já tentava transformar qualquer oportunidade em renda. Comprava roupas em Brusque, no Vale do Itajaí, colocava tudo em uma sacola e vendia para amigas e familiares.
— Eu sempre pensava: o que eu posso vender? O que eu posso fazer para ganhar dinheiro? — conta ela.
Quando dividia apartamento em Coqueiros com uma amiga, fechou a sala do imóvel e alugou o espaço para terceiros. Assim, conseguia reduzir os custos da moradia. A inquietação virou carreira durante o período em que trabalhou no Banco BV, à época conhecido como BV Financeira. Começou como assistente comercial, foi promovida a gerente e passou a atender empresas oferecendo crédito consignado.
Ali, além de bater metas e acumular prêmios, percebeu uma oportunidade.
— Eu enxerguei um gargalo naquele mercado e comecei a pensar em empreender para resolver aquilo.
Faltava coragem. As ideias iam e voltavam. Até um dia específico, que ela lembra com detalhes. Sentada no sofá da Havan, esperando uma reunião com o empresário Luciano Hang, teve um estalo.
— Eu pensei: por que eu não faço um piloto desse negócio dentro da minha casa para testar se realmente funciona?
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Pegou férias do trabalho e começou a operar o projeto improvisadamente. O retorno veio rápido.
— Em pouco tempo eu já ganhava mais dinheiro do que no CLT — relembra.
Nascia ali a Creditar, primeira empresa fundada por Indianara e pelo marido. O negócio começou focado em crédito consignado, mas logo abriu espaço para algo maior.
O “sim” que mudou tudo
Durante anos, Indianara foi a própria equipe comercial da empresa. Saía de casa na segunda-feira e só voltava na sexta, viajando para visitar clientes. Foi em uma dessas reuniões que ouviu uma pergunta que mudaria o rumo da empresa.
— Na primeira vez que um cliente me perguntou, eu disse que não, na segunda eu disse que não também, até que aquilo ali começou a soar comum e eu falei: “Opa”. Um cliente perguntou se eu trabalhava com vale-alimentação e vale-refeição. Aí eu disse que sim. Saí da reunião pensando: “agora eu preciso descobrir como fazer isso acontecer” — relembra.
O improviso virou estratégia. Aos poucos, os benefícios corporativos começaram a ganhar espaço no portfólio da empresa. Até que, em 2021, o antigo nome deixou de fazer sentido.
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— A Creditar era uma empresa muito ligada ao crédito. Então percebemos que precisávamos ressignificar a marca.
Nascia a Vallora Benefícios, hoje posicionada como um hub de benefícios corporativos para empresas.
O primeiro milhão e o medo de perder tudo
Indianara tinha menos de 30 anos quando viu o primeiro milhão cair na conta. Mas, junto com o dinheiro, veio também o medo.
— Eu pensava: será que isso vai durar? Será que vou conseguir sustentar essa empresa?
A sensação de escassez nunca desapareceu completamente. Talvez seja justamente ela que continue movendo a empresária.
— Eu nunca me acomodei. Quando queria faturar R$ 5 milhões, fui atrás. Depois queria R$ 10 milhões. E assim vai.
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Ela ri ao repetir uma frase que costuma dizer internamente, mesmo que com receio de que as pessoas a interpretem de maneira equivocada:
— Tudo em que eu boto a mão vira ouro. Não porque eu seja a mais incrível do mundo, mas porque a minha mentalidade é muito forte.
A CEO moldada pelas crises
Se hoje Indianara lidera uma empresa consolidada nacionalmente, ela garante que não foram os momentos de sucesso que a transformaram em empresária.
— Quem me moldou foram as crises — afirma.
Ela fala sobre clientes que tolerou por tempo demais, profissionais desalinhados com a cultura da empresa e decisões difíceis — como quando precisou desligar cerca de 30 funcionários de uma vez para reestruturar a operação.
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— Foi uma das dores mais difíceis que eu vivi — diz.
A maturidade, diz, veio junto da capacidade de parar de aceitar o que não fazia mais sentido.
— Hoje eu entendo que, para caminhar comigo, as pessoas precisam estar na mesma vibe e querer crescer também.
Mulher, jovem e em mesas dominadas por homens
Muito antes de se tornar CEO, Indianara já sentia que precisava provar mais do que os outros. Quando ainda era executiva da BV Financeira, adotava estratégias para parecer mais velha durante reuniões.
— Eu colocava óculos, prendia o cabelo e estudava muito sobre mercado, economia e política para mostrar que eu tinha conteúdo.
Ela atendia empresários mais velhos, quase sempre homens.
— Existe preconceito, sim. Muitas vezes é até inconsciente.
Hoje, dez anos depois, ela percebe uma mudança importante: muitos daqueles empresários acompanham a trajetória da Vallora desde o início.
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— Eles lembram de quando eu chegava grávida nas reuniões e veem onde a empresa chegou hoje. Isso é muito especial — diz, com carinho.
O maior sucesso não está na empresa
Apesar dos números milionários, Indianara não define sucesso apenas pelos resultados financeiros. Para ela, sucesso é conseguir equilibrar a liderança da empresa com a vida em casa.
— De nada adianta estar aqui e dentro da minha família estar tudo errado.
Mãe, esposa e sócia do próprio marido, ela admite que já se culpou por não conseguir estar presente o tempo inteiro.
— Aos poucos fui entendendo que esse também é o meu lugar de potência. Eu amo o que faço. Se me perguntarem se eu sobrevivo sem a Vallora, eu sobrevivo. Mas sem a minha família, não — completa.
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“As peças vão se encaixando”
Ao olhar para trás, Indianara não fala sobre fórmulas mágicas. Fala sobre movimento, e sobre começar mesmo sem saber exatamente como.
— Eu nunca tinha sido empresária. Também não sabia fazer. Mas tive coragem.
É esse o conselho que deixa para mulheres que sonham em empreender, mas ainda não acreditam que são capazes.
— Quando a gente se movimenta, as peças do quebra-cabeça vão se encaixando.
Antonietas
Antonietas é um projeto da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.










