A menos de seis meses do início da campanha, as eleições em Santa Catarina começam a ter as primeiras jogadas mais claras. Pré-candidato à reeleição, o governador Jorginho Mello anunciou nas últimas semanas o nome do vice e tenta organizar a chapa para o Senado acomodando os interessados pelas duas vagas, após meses de discussões públicas entre lideranças do partido. Em torno dele, os projetos dos que desejam enfrentá-lo nas urnas também se aproximam de uma formação.

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O xadrez eleitoral de SC começa com o tabuleiro inclinado à direita. O retrospecto mostra que nas últimas duas eleições gerais o eleitorado catarinense indicou a preferência por candidatos desta linha ideológica. Foi assim ao dar 70% dos votos ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno e eleger dois governadores filiados ao mesmo partido de Bolsonaro, com apoio declarado: Carlos Moisés, em 2018, e Jorginho Mello, em 2022. No Legislativo, o posicionamento foi o mesmo, com o PL de Jorginho e Bolsonaro elegendo 11 deputados estaduais, seis federais e o senador da vez, Jorge Seif (PL), na eleição de quatro anos atrás.

Não por acaso, as principais disputas públicas envolvendo pré-candidaturas ao governo de SC nas eleições de 2026 até o momento envolvem projetos norteados à direita. Após três anos e meio de mandato, o governador Jorginho Mello (PL) aparece como a figura mais valiosa do tabuleiro bolsonarista e busca se cercar de peças que possam lhe oferecer proteção e impulso na busca pela reeleição.
Jorginho conta com as demonstrações de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro dadas ao longo do mandato para manter o voto da corrente bolsonarista e tentar ficar mais quatro anos na Casa d’Agronômica. A jogada mais recente foi atrair o prefeito Adriano Silva (Novo), de Joinville, a maior cidade do Estado, anunciando-o como candidato a vice-governador em sua chapa. Adriano foi reeleito em 2024 com 78% dos votos válidos e é considerado peça-chave por oferecer votos no Norte do Estado, além de atrair um partido que estava mais próximo do projeto do PSD — o provável grande adversário de Jorginho nas urnas.

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Os planos de Jorginho envolvem ainda uma chapa forte para o Senado, que neste ano terá duas vagas em disputa. O filho do ex-presidente Carlos Bolsonaro (PL) é nome certo na urna após receber a indicação do pai, pedido irrecusável para quem busca demonstrar lealdade a Bolsonaro. Já a outra vaga foi alvo de uma cizânia interna no partido. A deputada federal Caroline de Toni tem apoio interno no PL, mas disputa a indicação com o senador Esperidião Amin (PP), que quer concorrer à reeleição e reivindica uma vaga na chapa ao Senado para unir a federação dos partidos União Brasil e Progressistas ao projeto de reeleição de Jorginho.

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O embate já teve Amin muitas casas à frente, mas nas últimas semanas de Toni ganhou força após ameaçar deixar o PL para se filiar ao Novo e conseguiu colocar em xeque a presença de Amin na chapa de Jorginho. Um anúncio formal de unidade no PL com garantia da vaga ao Senado para Carol de Toni e da permanência dela no partido é esperado para os próximos dias. Em entrevista coletiva nesta semana no Oeste de SC, Jorginho também indicou que a candidatura ao Senado deve ter chapa pura do PL, com Carlos e Carol como candidatos.

Na leitura de filiados do PL, esse cenário poderia forçar Amin a avaliar outros caminhos, como uma candidatura avulsa ao Senado ou disputar uma vaga de deputado federal, algo que o PP não elegeu na última eleição. Amin, no entanto, publicou vídeo em sua rede social na quinta-feira (19) reafirmando que é pré-candidato ao Senado, indicando refutar as teorias de possível disputa por vaga na Câmara. É com esses impasses que os movimentos na mesa do Senado devem continuar até a definição final para o início da campanha, entre julho e agosto.

— Acredito que a eleição deste ano vai ser muito polarizada, mais do que a de 2022, em virtude de o ex-presidente Bolsonaro estar preso, porque existe uma comoção em cima disso. O governo tem uma boa aprovação, o povo de Santa Catarina é de direita e não vai querer trocar o certo pelo duvidoso — afirma o vice-presidente do PL em SC, Bruno Mello.

Candidato a rival na direita

O principal adversário de Jorginho apresentado até o momento é o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD). Companheiro de Bolsonaro na Câmara dos Deputados e amigo do ex-presidente, ele também tem identificação com o eleitorado de direita e bolsonarista, mas adota um discurso que busca ser capaz também de atrair eleitores de centro ou que busquem alternativas fora da polarização de PT e PL.
O partido tinha como principal aliado até o início do ano o partido Novo, apoiado pelo PSD nas eleições municipais de 2024 em cidades como Blumenau e Joinville. No entanto, o anúncio de Adriano Silva como vice na chapa de Jorginho tirou o Novo do plano de jogo do projeto de João Rodrigues.

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Em contrapartida, a escolha de Jorginho Mello para vice deixou de lado o MDB, partido até então cotado como provável dono da indicação a vice na chapa do atual governador, com nomes como o deputado Carlos Chiodini. Sem o espaço de vice, o partido também não deve ter lugar na chapa de Senado, já congestionada na briga entre Carlos Bolsonaro, Carol de Toni e Amin.

Em represália à perda da vaga na majoritária, o MDB anunciou um desembarque do governo Jorginho, esperado para depois do Carnaval. Curiosamente, os movimentos que podem ter bloqueado a aliança do MDB com Jorginho Mello e que podem deixar de fora também o PP, caso Amin não consiga ser candidato ao Senado, são vistos como novas oportunidades de coligação para o PSD de João Rodrigues. Por ter 70 prefeitos, mais de 800 vereadores e o maior número de filiados do Estado, o MDB é visto como um aliado de peso para fortalecer o projeto e que pode ter se sentido sendo deixado “de lado” no arranjo de Jorginho.

O cenário nacional também é uma esperança do projeto do PSD. A inclinação do presidente nacional Gilberto Kassab de lançar candidato à Presidência da República (atualmente, o partido tem três nomes que disputam internamente a vaga: os governadores Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite) praticamente selaria o caminho de João Rodrigues para ser candidato ao governo e oferecer palanque ao presidenciável do PSD no Estado. Nesse cenário, o diálogo com legendas como MDB e PP deve ganhar ainda mais força.

Xadrez eleitoral de SC tem tabuleiro à direita e movimentos a seis meses da campanha

Há alguns meses, lideranças afirmavam nos bastidores que PSD e PL poderiam estar juntos no mesmo projeto, mas hoje essa possibilidade já é descartada por ambas as legendas. A leitura é de que o timing para um arranjo deste tipo passou, deixando para trás especulações que chegaram a cogitar o nome do presidente da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), Julio Garcia, como vice na chapa governista. Nas redes, João já tem elevado as críticas ao governo Jorginho, como na semana passada, quando questionou o projeto de criar um novo feriado estadual em novembro.

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Um suposto telefonema de Carlos Bolsonaro para João Rodrigues que teria ocorrido no dia 7 de fevereiro serviu como uma jogada-surpresa na última semana. As lideranças do PL não confirmam a ligação, mas aliados do prefeito do PSD afirmam que a conversa ocorreu e teria questionado se Carlos Bolsonaro teria espaço na chapa de João caso não consiga confirmar a condição de candidato a senador na aliança do PL. O senador bolsonarista Jorge Seif também admitiu a conversa em entrevista nesta semana. O sinal ao filho do ex-presidente teria sido positivo, em razão da relação entre João e Bolsonaro. Apesar do contato, uma mudança de lado do filho de Bolsonaro é considerada pouco provável, já que o irmão de Carlos, Flávio Bolsonaro, será candidato a presidente pelo PL e pode ter um nome do PSD justamente como adversário direto na disputa nacional. Ainda assim, serviu para “temperar” ainda mais o atual momento do jogo eleitoral.

Embora a legislação eleitoral permita que as escolhas ocorram até 5 de agosto, a expectativa do PSD é que a maioria das respostas ocorra até o início de março. Como exerce mandato de prefeito, João Rodrigues precisa renunciar ao cargo se quiser concorrer — ele já sinalizou interesse de deixar a função em 23 de março, dia do seu aniversário. Segundo lideranças do partido, ele não deve renunciar sem a certeza de que terá partidos aliados em eventual candidatura ao governo.

O presidente estadual do PSD, Eron Giordani, afirma que o projeto de candidatura de João Rodrigues permanece, com mudança apenas na política de alianças. O Novo, que estava no horizonte de parceria, sai de cena após o anúncio de Adriano Silva como vice de Jorginho, mas o partido direciona esforços para tentar atrair MDB e a federação de União Brasil e PP, que podem ficar sem espaço no projeto do governador.

— Não quer dizer que eles (MDB) saíram de lá e vieram para cá, é uma construção que vai ter que ser feita. Mas a gente está próximo, estreitando relações — adianta o dirigente.

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Projeto avançando também à esquerda

Mesmo no cenário desafiador em razão do histórico de votações à direita de SC, a esquerda também abre o jogo eleitoral de 2026 com otimismo. O principal motivo é o resultado de 2022, quando o PT foi ao segundo turno pela primeira vez na história das eleições para o governo de SC, com a candidatura de Décio Lima contra Jorginho Mello.

Na ocasião, o partido havia apostado em uma estratégia de unir na chapa um nome mais identificado ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT com outro de trajetória mais ligada à centro-direita. Dário Berger (à época no PSB) concorreu ao Senado na chapa de esquerda e ficou em terceiro lugar, atrás de Jorge Seif (PL) e Raimundo Colombo (PSD). A tática repetiu a fórmula usada na chapa majoritária para a presidência, com a dobradinha de Lula e Geraldo Alckmin (PSB) montada para formar uma frente ampla e atrair eleitores do centro à esquerda.

Para 2026, os primeiros movimentos dados pelo projeto petista indicam que a aposta pode ser em uma estratégia semelhante. O partido tem conversas adiantadas com o ex-deputado federal Gelson Merisio, atualmente no Solidariedade, mas que pode se filiar a outras legendas, como o mesmo PSB de Alckmin.
Merisio e o atual presidente do Sebrae, Décio Lima (PT), são os principais nomes do grupo para formar a chapa nas vagas de candidato ao governo e ao Senado, com posições ainda a definir.

O presidente do PT em SC, deputado Fabiano da Luz, confirma as conversas com Merisio e com partidos progressistas e afirma que o partido pretende apresentar projeto adversário ao governo Jorginho, alertando contra deficiências em infraestrutura e educação. Dentro do PT, a leitura é de que uma eventual candidatura de Décio ao Senado poderia ter boas chances de vitória em razão da disputa direta contra Carlos Bolsonaro e do racha causado na direita pela mudança dele para o Estado.

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Segundo fontes do partido, Merisio e Décio já estiveram reunidos em encontro discreto com o presidente Lula para avaliar cenários para SC em 2026. Em entrevista nesta semana ao primeiro episódio do podcast Café nas Eleições, do NSC Total, Décio afirmou que Merisio será “o candidato do Lula” nas eleições de SC, mas ainda despista sobre o papel de cada um na chapa petista.

— Nós estamos juntos, mas ainda não definimos os espaços (que cada um ocupará). O mais importante é construirmos juntos uma frente ampla, em defesa da democracia — afirma o atual presidente do Sebrae.

Tanto a garantia de um palanque em SC quanto a possibilidade de conquistar uma cadeira no Senado e ajudar na governabilidade de um eventual quarto mandato de Lula são vistas como manobras importantes no jogo petista.

Jorginho Mello, João Rodrigues, Décio Lima e Merisio estão entre nomes cotados em SC (Fotos: Eduardo Valente, Secom SC / Facebook, reprodução / Fabrício de Almeida, Arquivo NSC / Divulgação)

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Aliados à espera

Em meio aos partidos que já têm peças praticamente colocadas no tabuleiro, outros desafiantes ainda observam as primeiras jogadas antes de escolher de qual lado da mesa pretendem estar em outubro. Um exemplo disso é o MDB. Com coligação encaminhada com o PL do governador Jorginho Mello e vaga de vice na chapa “apalavrada”, o partido assistiu a uma reviravolta após o espaço ser anunciado ao prefeito de Joinville, Adriano Silva, do Novo.

Desde então, o partido anunciou o desembarque do governo e passou a recalcular a rota. Uma ala ainda defende que o partido apoie o projeto de Jorginho, mesmo sem espaço na majoritária, para fortalecer as candidaturas a deputado, enquanto outros grupos defendem abrir conversa com o PSD de João Rodrigues e até mesmo um projeto de candidatura própria — que poderia ter nomes como os deputados Antídio Lunelli ou Carlos Chiodini. Como em 2022, o rumo do MDB deve ser definido mais perto do prazo das convenções.

Outro grupo que vive indefinição é a federação dos partidos União Brasil e PP. A vaga de candidato ao Senado para a tentativa de reeleição de Esperidião Amin era praticamente a única exigência das legendas para ingressar num projeto ao governo — os partidos mantinham conversas com o PL e o PSD. Com a vaga ao Senado em disputa sem fim entre Carol de Toni e Amin, e a inclinação desta semana de que Carol deve levar a melhor na queda de braço, a federação também pode ter que aguardar definições ou analisar outras opções que contemplem espaço para uma candidatura de Amin nas eleições de outubro.

A corrida ao governo de SC tem colocado na mesa também outros pré-candidatos ao governo, que por enquanto têm construído o projeto sem tantas idas e vindas nos diálogos com outras legendas. O deputado estadual Marcos Vieira (PSDB), o vereador de Florianópolis Afrânio Boppré (PSOL) e o ex-lutador Marcelo Brigadeiro (Missão) são os nomes que já se apresentam como pré-candidatos ao governo e que devem disputar espaço no tabuleiro do xadrez eleitoral catarinense.

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Antipetismo e expectativa para 2026

O doutor em Ciência Política e professor da faculdade Ielusc, de Joinville, João Kamradt, avalia que a aliança de Jorginho Mello com o prefeito Adriano Silva foi um movimento inteligente do ponto de vista eleitoral. Na avaliação dele, Adriano resolve dois problemas ao consolidar o eleitorado no Norte do Estado, que tem a cidade que é o maior colégio eleitoral de SC, e reforçar um discurso de gestão eficiente, diminuindo a imagem de direita focada apenas na ideologia.

— Adriano consegue agregar para o projeto do Jorginho neste momento uma gestão que em Joinville é bem avaliada, mostra um perfil técnico e empresarial e é uma pessoa com baixa rejeição, com forte conexão com o eleitor urbano — detalha.

Veja os pré-candidatos ao governo de SC em 2026

Sobre a provável chapa pura do PL com Carlos Bolsonaro e Carol de Toni, o professor explica que ela dá um recado claro de que o partido busca a hegemonia total da direita no Estado, o que reduz o espaço para aliados e obriga outros partidos da centro-direita a se reposicionarem. Ele reconhece que o Estado vem dando demonstrações de clara preferência pela direita e que o discurso anti-PT é algo enraizado no Estado, junto de uma visão conservadora nos costumes e liberal na economia. Isso explica porque tanto Jorginho quanto João Rodrigues se posicionam claramente à direita. Na visão dele, é provável que o comportamento do eleitorado se repita neste ano, a menos que haja uma forte divisão dentro da direita, o que poderia abrir uma brecha para uma estratégia diferente do campo da esquerda.

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— A leitura que a gente pode ter é de que hoje o Jorginho larga na frente, ter o Adriano como vice fortalece muito o projeto, a candidatura de João Rodrigues ainda é uma incógnita, mas que não pode ser subestimada, enquanto a esquerda, por sua vez, vai precisar de uma estratégia que precisa fugir do script tradicional — avalia Kamradt.

Pré-candidatos em SC

Governo do Estado

  • Jorginho Mello (PL)
  • João Rodrigues (PSD)
  • Décio Lima (PT) ou Gelson Merisio (Solidariedade)
  • Marcos Vieira (PSDB)
  • Afrânio Boppré (PSOL)
  • Marcelo Brigadeiro (Missão)

Senado

  • Carlos Bolsonaro (PL)
  • Caroline de Toni (PL)
  • Esperidião Amin (PP)
  • Décio Lima (PT)
  • Gilson Marques (Novo)