O brilho do sol e dos fogos de Ano-Novo no litoral de Santa Catarina, considerado sucesso por gestores com queima de fogos, shows nacionais e praias lotadas, convive com outra face do verão nos destinos turísticos do Estado. Ela está ligada aos desafios estruturais para comportar a altíssima demanda extra gerada pelos turistas e oferecer experiências marcantes desde a chegada até a saída dos visitantes do Estado.
Continua depois da publicidade
Neste sentido, o principal gargalo apontado pelos gestores turísticos é a mobilidade urbana. O colapso da BR-101, que convive o ano inteiro com filas na região entre Piçarras e Porto Belo, fica ainda mais exposto nas festas de fim de ano, quando motoristas de todo o país tentam chegar às paradisíacas orlas catarinenses. Segundo dados da concessionária Arteris Litoral Sul, mais de 5,2 milhões de veículos passaram por rodovias federais concessionadas que cortam SC e parte do PR (BR-101, Contorno Viário de Florianópolis, BR-376 e BR-116, no Paraná) no período do fim de ano.
O número é levemente abaixo da expectativa da concessionária, mas ainda assim acima do registrado no mesmo período do ano passado, quando 4,9 milhões de carros passaram por este trecho. Nos dias de maior movimento, como 2 de janeiro, sexta-feira que marcou a volta para casa de muitos turistas, as filas no sentido Norte da rodovia chegaram a 25 quilômetros em trechos como o de Tijucas a Balneário Camboriú.
Veja fotos do Réveillon em cidades de SC
O professor do Campus Florianópolis Continente do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) Tiago Savi Mondo, pós-doutor em Turismo e coordenador da Central de Inteligência Turística de Florianópolis, lançada pelo próprio instituto, considera que a mobilidade é, de fato, o principal gargalo estrutural a ser resolvido no Estado. Ele afirma que o assunto exige estudos, com participação de universidades e especialistas, para minimizar os problemas nos deslocamentos na vida dos moradores e dos turistas.
Continua depois da publicidade
— Durante o verão, como a demanda é muito maior, já que 70% do nosso turista de veraneio vem ao Estado de carro, segundo a pesquisa da Fecomércio, isso vai dificultar mais. É preciso diagnóstico, tecnologia e entender quais as possibilidades que temos para minimizar esse impacto — avalia.
No Litoral Norte, a solução de longo prazo mais pacificada é a Via Mar, nova rodovia alternativa à BR-101 de Biguaçu a Joinville, aguardada para dividir o tráfego com a maior rodovia do Estado. A via está em fase de elaboração de projetos e pode ter obras do primeiro lote iniciadas ainda em 2026. Enquanto a obra não sai, lideranças da região defendem medidas paliativas, como ligações entre bairros e a pavimentação do Morro do Encano, rota alternativa entre Itapema e Balneário Camboriú e que poderia desafogar as marginais da BR-101.
— Essa região de Joinville a Itapema está muito preocupante e atrapalha o fluxo turístico, atrapalha a decisão das pessoas de ir e vir, e vai ficando mais grave a cada ano. As pessoas estão fazendo outros horários, você vê um fluxo de pessoas vindo de madrugada para tentar mitigar, mas acredito que é o grande gargalo, não só no período de festas, mas durante todo o ano. É algo que precisa de uma ajuda coletiva para melhorar — afirma o secretário de Turismo de Balneário Camboriú, Evandro Neiva.
Longas filas na SC-401
Em Florianópolis, o desafio da infraestrutura também é parte importante da preocupação em oferecer boas experiências aos turistas. Na região da BR-101, o Contorno Viário da Grande Florianópolis foi visto como um avanço. Inaugurada em agosto de 2024, a estrutura ajuda a tirar do trecho próximo ao acesso à Ilha o trânsito pesado ou motoristas que buscam ir ao Sul do Estado. No entanto, a SC-401, rodovia que leva às praias do Norte da Ilha, voltou a assistir dias de longas filas nos dois sentidos, como na sexta-feira, 2 de janeiro.
Continua depois da publicidade
A SC-401 passa por obras de ampliação e chegou a ter uma terceira faixa liberada em um dos trechos críticos dias antes do início da alta temporada de verão. Segundo o secretário de Turismo de Florianópolis, a pista adicional ajudou a cidade a ter um trânsito menos severo na região, com menos filas em pontos como o elevado do CIC. Ainda assim, a Capital teve alguns dias críticos na rodovia que leva ao Norte da Ilha, como o 2 de janeiro, com longos congestionamentos.
Veja fotos de filas em rodovias de SC no verão
— No final do ano, com o acúmulo exagerado de carros, realmente em um ou dois dias vai dar uma fila que é normal em qualquer lugar do mundo que a gente viaje. Mas aí são datas pontuais que uma cidade turística obrigatoriamente tem que saber conviver com isso — avalia o secretário de Turismo, Desenvolvimento Urbano e Inovação de Florianópolis, Juliano Richter Pires.
O professor Mondo afirma que, apesar da terceira faixa da SC-401, ainda existem funis e gargalos de interseções que exigem outras soluções para a mobilidade.
Continua depois da publicidade
— Em Florianópolis, foi feito trabalho para a terceira via. Funis e gargalos de interseções ainda existem, teríamos que pensar em outras formas de fazer essa mobilidade dentro da Ilha. No Norte, tem projeto de nova rodovia. Acredito que preocupação exista, mas passa temporada atrás de temporada e pouca coisa é feita. Percebo que os diagnósticos vão ficando ociosos e quando decidimos fazer alguma coisa, já é algo defasado — analisa.
A reportagem procurou a Secretaria de Estado do Turismo para avaliar o período de Réveillon no turismo de SC, mas a pasta informou que vai aguardar o fim da temporada de verão para comentar os resultados.
Outros desafios do turismo
Uma dificuldade vivida por cidades litorâneas ano a ano na temporada de verão é garantir o abastecimento de água a moradores e turistas em meio ao aumento populacional. Nos dias do final do ano passado, um dos casos de maior divulgação foi o de São Francisco do Sul, que chegou a ficar sete dias sem água e precisou montar um comitê de crise na véspera do Réveillon para discutir soluções. A empresa concessionária do serviço adotou um plano de manobras com horários para que os moradores abastecessem os reservatórios individuais para tentar reduzir o problema.
A cidade informou ter registrado um aumento de 7,5 milhões de litros consumidos por dia na reta final do ano passado, fruto do aumento de turistas na cidade, que teve o maior número de praias identificadas com a Bandeira Azul.
Continua depois da publicidade
“Diante desse cenário, a administração municipal atuou de forma rápida, firme e transparente, cobrando soluções da concessionária responsável e instalando um comitê de crise para acompanhar a situação em tempo real. A Prefeitura também auxiliou a concessionária na adoção de medidas emergenciais, como manobras no sistema, ampliação do uso de caminhões-pipa e reforço da capacidade de captação”, informou a prefeitura, em nota.
A concessionária Águas de São Francisco do Sul, responsável pela distribuição de água no município, informou em nota à reportagem do NSC Total que o crescimento da população flutuante além das projeções, a onda de calor e falhas no fornecimento de energia elétrica teriam sido as principais causas de problemas no abastecimento entre 26 de dezembro e 4 de janeiro, data desde a qual segundo a empresa o problema foi normalizado.
“A concessionária já está em contato com o município, e novas projeções da população flutuante serão elaboradas para garantir o atendimento adequado durante esses 10 dias de pico de consumo”, informou a companhia, em um trecho da nota.
O especialista em Turismo afirma que muitas cidades já adaptaram as estruturas para a demanda altíssima por água de cidades turísticas na temporada, mas em outras isso ainda não é realidade — muitas vezes, porque na ponta do lápis acaba não compensando, quando o pico de consumo em alguns casos é em apenas uma semana.
Continua depois da publicidade
— Aí entra a política pública, de entrar em uma balança de investimento e ver se isso é aceitável ou não para aquela cidade. É algo da esfera municipal, mas que o Estado pode criar políticas de incentivo e apoio à melhoria nessas redes de água — aponta.
Em Florianópolis, o município informou que a Casan precisou controlar a distribuição de água durante os dias 29 e 30, em função das fortes chuvas que atingiram a cidade e da turbidez na água, mas que até o momento o assunto não é uma preocupação da temporada. Como a previsão é de um verão mais seco, no entanto, a cidade monitora a situação para o restante da temporada.
Chuvas e alagamentos
Nos últimos dias de 2025, as fortes chuvas registradas após uma onda de calor intenso causaram estragos em cidades do litoral e levaram sete municípios a decretar situação de emergência, incluindo Laguna, Barra Velha e Florianópolis — que já havia enfrentado problemas com chuvas no início de dezembro. Na Capital, temporais durante os dias 29 e 30 de dezembro provocaram alagamentos em ruas do Centro, Saco dos Limões e João Paulo. O cenário alertou para a necessidade de planejamento e preparação das cidades catarinenses ao novo cenário climático, com chuvas cada vez mais concentradas e acima da média, e que desafiam a capacidade de escoamento das vias atuais.
O secretário de Turismo de Florianópolis, Juliano Richter Pires, reconhece que as chuvas e alagamentos podem afastar os turistas, mas afirma que a prefeitura vem fazendo mutirões de drenagem com retirada de terra de córregos e rios, o que teria feito com que a quantidade de ruas alagadas neste verão fosse menor do que em outros anos.
Continua depois da publicidade
— Obviamente, com aquela chuva torrencial que caiu nos últimos dias do ano, realmente não tem jeito, é muita chuva em pouco tempo, você começa a ter alguns alagamentos ao longo da cidade, mas que são muito menores do que a gente tinha antes das dragagens feitas nos rios, que ajudam bastante na saída da água — avalia.
Balneário Camboriú também sofreu alagamentos com as chuvas fortes dos últimos dias do ano, mas aposta na obra de macrodrenagem que já foi iniciada e deve ser retomada após a alta temporada de verão. Considerada a maior obra de drenagem do país, a intervenção deve aumentar a capacidade de escoamento das águas da chuva e evitar alagamentos na região da Avenida Atlântica e da orla.
Balneabilidade
Santa Catarina teve um período de festas e Réveillon com condições ligeiramente melhores das praias do que na temporada passada. Segundo os relatórios de balneabilidade feitos pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA-SC), o Estado tinha 67% dos pontos considerados próprios para banho nos últimos dias do ano, contra 63% no ano passado. Em Florianópolis e em Balneário Camboriú, foram três pontos próprios a mais do que na temporada anterior (57 contra 54 na Capital e 13 contra 10 na cidade do Litoral Norte).
Os dados são vistos de forma positiva pelos gestores por terem ocorrido em período de fortes temporais de verão, como nos dias 29 e 30 de dezembro — as chuvas costumam levar sujeira das ruas pela rede fluvial ao mar e em tese seriam prejudiciais às condições de banho.
Continua depois da publicidade
— A gente tem observado uma melhora na balneabilidade, não significativa, mas uma melhora, e isso é importante também. Obviamente que a gente tem um caminho longo, principalmente no Sul da Ilha, por uma questão de saneamento básico, é algo público, mas a gente vem tentando trabalhar, e a Casan também vem atuando para melhorar esses indicadores, principalmente no Sul da Ilha, onde a gente tem alguns pontos de balneabilidade um pouco mais precária — explica Pires.
Itapema, mesmo com o revés do rompimento de uma adutora no final do ano que segundo o município causou reflexos em despejo irregular na praia durante um dia, fechou o ano com sete pontos próprios para banho, dois a mais do que no fim do ano anterior. Segundo a secretária da pasta, a obra de alargamento da praia, prevista para começar ao fim da temporada atual e que deve estender a faixa de areia a até 65 metros, prevê também uma macrodrenagem na região da praia, o que pode solucionar o problema nos dois únicos pontos que seguiram impróprios até o início deste ano.
— A maior parte dos nossos pontos estão próprios e continuaram próprios a temporada inteira. Foi uma das primeiras vezes que tivemos isso. Mantivemos apenas os dois pontos impróprios, que são problemas pontuais que a gente sabe que só vão melhorar com o alargamento da praia — explica a secretária de Turismo de Itapema, Pati Marin.
O cenário de melhores condições na água coincide também com um número menor de viroses de verão e doenças diarreicas agudas (DDA), que no início de 2025 causaram um surto de casos em cidades do litoral de SC.
Continua depois da publicidade
Em Florianópolis, o município informou uma queda de 52,5% no número de casos atendidos na rede municipal (466 atendimentos entre o fim de 2025 e início de 2026, menos da metade dos 988 atendimentos do período na temporada passada. O município associa o número a uma maior fiscalização de ambulantes e estabelecimentos que oferecem alimentos nas regiões das praias. As cidades de Itapema e Balneário Camboriú também relataram redução nos casos dessas viroses.
O professor do IFSC, Tiago Savi Mondo, afirma que questões como prevenção de alagamentos e balneabilidade das praias são desafios complexos e que não se limitam à gestão do turismo, mas que influenciam muito a decisão de compra do turista, já que as praias são um dos maiores ativos do Estado.
— O grande desafio da gestão pública é entender o turismo não somente como fenômeno econômico que vai trazer divisas para o Estado e o município, mas um fenômeno que vai trazer impactos positivos e também negativos, que podem e devem ser mitigados. A gente precisa entender quais são esses efeitos para mitigá-los. Bato na tecla de que a universidade é subutilizada no nosso Estado, porque tem grandes mentes, ferramentas e tecnologias que podem auxiliar muito a gestão do turismo — avalia.














































