Quando o russo Cássio Gasanov acorda pela manhã, ele nunca sabe exatamente qual será a primeira paisagem do dia. Às vezes é a neblina fina cobrindo a Lagoa da Conceição. Em outras, um tucano pousado na varanda. Há dias em que o despertador é substituído pelo mergulho na cachoeira antes mesmo do café.

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Para quem passou anos cruzando fronteiras com apenas uma mala nas costas, a rotina na Costa da Lagoa, em Florianópolis, parece quase improvável.

— Hoje eu sinto que vivo meio que em uma bolha muito especial — diz ele.

Aos 34 anos, Cássio já morou na Geórgia, Rússia, Belarus e China. Viajou por países da Ásia e da Europa, construiu carreira como criador de conteúdo em russo e viveu, por anos, sem endereço fixo. Mas foi em uma comunidade acessível apenas por barco ou trilha, escondida entre morros e água em Florianópolis, que decidiu ficar. E tudo aconteceu por acaso.

Uma infância entre países e mudanças

Cássio nasceu na Geórgia ainda nos tempos da União Soviética. Depois do colapso soviético, a família precisou recomeçar em outro lugar.

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— Na Geórgia naquela época não havia trabalho nem dinheiro — conta ele ao NSC Total.

Os pais decidiram se mudar para a Rússia. Depois vieram temporadas em Belarus, no Leste europeu, e um novo retorno ao território russo. Embora tenha cidadania russa, ele passou boa parte da infância entre diferentes países, acostumado à ideia de que a vida podia mudar de direção a qualquer momento.

Aos 20 anos, partiu para a China. Ficou quase cinco anos no país, estudou mandarim e, em 2013, criou um canal no YouTube que transformaria completamente sua trajetória.

— Com o tempo, acabei me tornando um travel blogger (blogueiro viajante, em tradução livre) no espaço russo — explica.

A câmera virou passaporte. E o mundo, escritório.

Uma vida inteira dentro de uma mala

Em 2019, Cássio deixou definitivamente a Rússia. Na época, já carregava há anos a sensação de que aquele não era o seu lugar.

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— Eu não gosto do clima, do frio, e também nunca me identifiquei muito com a mentalidade e a cultura — afirma ele.

Ao lado do namorado, natural do Cazaquistão, começou uma vida completamente nômade. Sem casa fixa, sem contratos longos, sem planos muito definidos.

— Eu passava um mês em um país, depois outro mês em outro, às vezes dois meses em cada lugar.

Entre aeroportos, hospedagens temporárias e novos idiomas, o Brasil entrou no roteiro quase como mais uma parada. Ele sabia pouco sobre o país. Sobre Florianópolis, absolutamente nada.

— Para mim, o Brasil era basicamente Rio de Janeiro, Carnaval, Amazônia e as Cataratas do Iguaçu.

O encontro inesperado com Florianópolis

A chegada aconteceu primeiro por São Paulo, onde viveu por dois meses. Gostou da cidade, mas ouviu repetidamente a mesma recomendação de seguidores e conhecidos brasileiros: precisava conhecer Florianópolis.

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— Diziam que era mais segura, tranquila e cercada por natureza — relembra ele.

Ele veio, e diz ter ficado impressionado. Mas o maior choque ainda estava por vir.

A Costa da Lagoa apareceu de maneira totalmente aleatória, enquanto procurava uma hospedagem no Airbnb. Encontrou uma casa à beira da lagoa por um preço que considerou bom. Havia anos, ele alimentava o desejo de morar em uma casa, e não em apartamento.

— Quando vi aquela casa, pensei: “é isso, quero tentar” — afirma.

A mudança para a comunidade transformou completamente sua percepção sobre o que significa viver, de acordo com ele.

— Eu fiquei simplesmente em choque, no melhor sentido possível.

Tudo parecia novo: o transporte público de barco, a rotina sem carros, os mercados acessíveis pela água, as casas escondidas entre a mata.

— O fato de as pessoas se locomoverem de barco, de existir transporte público de barco com horário… se não tem barco, você precisa ir a pé — refletiu ele.

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O que para muitos moradores da Capital ainda é desconhecido virou, para ele, definição de lar.

Cachoeiras, tucanos e um cachorro chamado Bobik

Na Costa da Lagoa, até os acontecimentos mais importantes da vida de Cássio parecem nascer do acaso. Foi assim com o Brasil. Com a casa. E também com Bobik, cãozinho de estimação que faz sucesso em vídeos que o russo posta nas redes sociais.

A cachorra da vizinha ficou grávida. Entre os filhotes, nasceu aquele que acabaria mudando sua rotina.

— Quase tudo na minha vida acontece assim. Planejar demais não é muito a minha vibe — disse, com bom humor.

Hoje, o cachorro participa da rotina do tutor: passeios três vezes ao dia, mergulhos na lagoa, trilhas até cachoeiras e visitas aos vizinhos. O nome do cão faz referência Bobik v gostyakh u Barbosa (1977), um desenho animado soviético clássico.

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Entre um passeio e outro, Cássio grava vídeos, produz conteúdo para redes sociais em russo e, agora, também em português. Trabalha de casa, cozinha bastante, uma vez que na Costa da Lagoa não há delivery, e aproveita os intervalos para observar a natureza ao redor.

— No geral, minha rotina não é muito diferente da de outras pessoas. A grande diferença é que eu vivo em um lugar com uma natureza incrível.

Medo das cobras e encanto pelas pessoas

Apesar de ter se apaixonado pelo local, nem tudo foi fácil no começo. As aranhas, cobras e mosquitos tropicais “assustaram” o estrangeiro acostumado a outra fauna.

— Demorei bastante para me acostumar com isso — admite.

Mas nada marcou tanto sua experiência quanto os moradores da comunidade. A maneira com a qual ele foi acolhido, diz Cássio, mexeu profundamente com ele.

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— Eu fiquei realmente impressionado com o quanto as pessoas aqui podem ser abertas, gentis, inteligentes, acolhedoras. Tenho a sensação de estar em um dos lugares mais leves e gentis do mundo.

Na rua onde mora, existem apenas oito casas. São cerca de 20 vizinhos.

Foi ali, em uma pequena comunidade cercada por mata e água, do outro lado do mundo em relação à infância soviética, que o homem acostumado a viver em trânsito percebeu algo raro: vontade de permanecer.

— Em algum momento, eu percebi que queria viver cercado por esse tipo de gente.

Fotos revelam cotidiano da Costa da Lagoa, em Florianópolis

Como é a vida na Costa da Lagoa?