Milhares de peixes mortos foram encontrados boiando na superfície do Rio Imaruim, no trecho da Avenida Rio Grande, na região Central de Palhoça, na Grande Florianópolis na segunda-feira (23). As imagens registradas no local rapidamente repercutiram entre moradores, levantando questionamentos sobre o que pode ter provocado a mortalidade dos animais. (veja fotos abaixo)
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De acordo com a Defesa Civil do município, a ocorrência ficou concentrada na região da foz do rio. Uma varredura foi realizada ainda na segunda-feira, mas, segundo o órgão, não foram identificados outros pontos com peixes mortos ao longo do curso d’água.
O órgão municipal trabalha com duas hipóteses: descarte irregular de embarcação de pesca ou a entrada acidental no rio de um cardume de manjubinhas, espécie de água salgada, o que teria provocado choque osmótico. Porém, um especialista ouvido pelo NSC Total aponta como mais provável para a causa da morte a baixa concentração de oxigênio na água, possivelmente associada à poluição e à degradação ambiental do trecho.
Registros chocaram moradores
Defesa Civil trabalha com duas hipóteses
Conforme o coordenador da Defesa Civil de Palhoça, Julio Marcelino, duas hipóteses são consideradas. A primeira é de que tenha havido descarte irregular por parte de alguma embarcação de pesca.
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— Esses barcos utilizam pesca de arrasto e acabam descartando peixes muito pequenos. Isso acontece em todo o litoral catarinense — explicou.
A segunda possibilidade envolve a própria característica da espécie encontrada. Segundo a Defesa Civil, trata-se de manjubinha (Anchoviella lepidentostole), um peixe de água salgada. A suspeita é de que um cardume possa ter entrado no rio por engano.
— A manjuba é um peixe de água salgada. Ao entrar em um ambiente de água doce, ocorre um choque osmótico, porque a concentração de sais no rio é muito menor do que no mar. Isso pode prejudicar o organismo do peixe, inclusive seus órgãos — detalhou o coordenador.
Ainda de acordo com o coordenador, não foram encontradas outras espécies mortas no local. A área é de manguezal, onde a oxigenação da água costuma ser mais baixa, mas não há registro de indústrias nas proximidades que possam ter lançado componentes químicos no rio.
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IMA acompanha o caso
O caso é acompanhado por diferentes órgãos ambientais e de fiscalização. O Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) realizou a coleta de amostras da água na tarde de segunda-feira para análise. O resultado ainda não foi divulgado.
Também foram notificadas a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) e a Polícia Científica de Santa Catarina. Na manhã desta terça-feira (24), a Polícia Militar Ambiental de Santa Catarina acompanhava o laboratório durante nova coleta de material para subsidiar a investigação do IMA.
Como estava o rio na manhã desta terça-feira
O diretor de Controle, Passivos e Qualidade Ambiental do IMA, Diego Hemkemeier Silva, informou que as amostras coletadas seguem para análise laboratorial e que o monitoramento permanece em andamento.
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— Até o momento, os registros indicam a ocorrência pontual na região, e o monitoramento segue em andamento para verificar se há qualquer ampliação da área afetada. Na segunda e na terça, servidores do IMA estiveram no local, tentando identificar possíveis causas do ocorrido. Não há histórico recente de eventos semelhantes nesse trecho específico do rio, embora as situações de mortandade de peixes possam ocorrer de forma esporádica em corpos hídricos por diversas causas, sejam elas ambientais ou provocadas até mesmo pelo ser humano. Até mesmo o descarte de pesca, nesse caso, não é descartado, justamente pela padronização e homogeneidade da espécie encontrada no local — esclareceu.
O diretor também informou que o curso d’água não é ponto de monitoramento de balneabilidade do instituto, e que não há informações sobre riscos à população.
— O curso d’água não é um ponto monitorado pelo programa de balneabilidade, que analisa pontos em balneários e praias frequentadas para uso recreativo dos banhistas. Em relação aos riscos à população, não há, até o momento, informações a respeito. Porém, por precaução, orienta-se evitar o contato com a água e com os peixes mortos, bem como não consumir quaisquer exemplares eventualmente encontrados ali no local, até que as causas sejam totalmente esclarecidas — completou.
Especialista aponta hipótese ligada à qualidade da água
Para o biólogo Bruno Renaly Souza Figueiredo, doutor em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais, a explicação para as mortes pode ir além de uma simples “confusão” dos animais, e, na verdade, estar relacionada às condições ambientais do rio.
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— Pelas imagens, não me parece que seja resultado de uma confusão por parte dos animais. Os peixes podem ter entrado na maré alta e encontrado um rio em condições impróprias — afirmou.
Segundo ele, é possível observar sinais de degradação no rio.
— Nas imagens é possível ver um rio sem vegetação ao redor, portanto em condições precárias de preservação, com coloração escura indicativo de poluição, provavelmente esgoto. Em ambientes aquáticos que recebem esgoto ou outros resíduos ricos em nitrogênio e fósforo, ocorre um fenômeno conhecido como floração de algas — explicou.
De acordo com o especialista, esses nutrientes funcionam como fertilizantes, estimulando o crescimento excessivo de algas e microrganismos. Durante o dia, com a presença de luz solar, as algas realizam fotossíntese e produzem oxigênio. À noite, porém, a fotossíntese cessa, mas a respiração continua.
— Tanto as algas quanto as bactérias que degradam matéria orgânica passam a consumir oxigênio da água. Em locais já degradados, com grande carga de esgoto, essa respiração noturna pode reduzir drasticamente o oxigênio dissolvido, às vezes a níveis próximos de zero. Esse processo é chamado de hipóxia — detalhou.
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Peixes dependem do oxigênio dissolvido na água para sobreviver. Quando a concentração cai rapidamente, podem morrer por asfixia.
— Portanto, em vez de uma “confusão” do cardume, uma explicação biologicamente mais provável é que os peixes tenham entrado no rio, possivelmente durante a maré alta, e encontrado um ambiente com baixa concentração de oxigênio, incompatível com sua sobrevivência — concluiu.
Como denunciar
Os órgãos ambientais reforçam a importância de que a população registre oficialmente ocorrências suspeitas. Em caso de crime ambiental em flagrante, a orientação é acionar a polícia pelo telefone 190.
Denúncias ambientais também podem ser feitas diretamente na plataforma do IMA. O canal permite que o cidadão informe detalhes, endereço exato e outras informações pertinentes, facilitando a atuação da fiscalização.
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