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Desconfiado no início, Ney Matogrosso colabora para biografia que sai em 2020

Confira entrevista com Julio Maria, autor de livro sobre Elis Regina, que está há três anos pesquisando a vida de Ney

08/02/2019 - 22h13 - Atualizada em: 09/02/2019 - 01h44

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Aramis
Por Aramis Merki
Ney em apresentação dos Secos & Molhados, grupo do qual foi o vocalista entre 1973 e 1974
(Foto: )

O jornalista e escritor Julio Maria está há três anos produzindo um livro sobre Ney Matogrosso, que faz show neste sábado (9) e domingo (10) em Florianópolis. Maria, que também escreveu Elis Regina – Nada Será Como Antes (2015), planeja lançar a obra em 2020. Ney, uma das maiores vozes da música brasileira, resistiu em aceitar ser alvo de uma biografia.

Desde o começo, ficou às claras que o biografado não leria nada antes da publicação. Atualmente, ele até contribui para o processo de construção do livro.

Confira a entrevista realizada com Julio Maria:

Como você se aproximou do Ney para propor a biografia?

O Ney foi um dos entrevistados para o livro da Elis. Ele tinha histórias boas com ela. E aí, falando com ele, me deu aquela vontade de fazer a [biografia] dele. E quando foi lançada a da Elis, chamei ele para o lançamento no Rio. Comecei ali um flerte para fazer a minha próxima biografia. Propus que a gente fizesse, mas eu lembro da frase dele: “eu não posso te impedir...”. Então eu falei: “mas além de não me impedir, você pode me ajudar?”

Porque é muito diferente o cara te ajudar ou não. Aí ele falou: “claro, dou entrevista, tudo, não tem problema nenhum”. Então ótimo.

No final da conversa, lembro de falar também: “tem mais uma questão, você também não pode ler antes de sair”. Isso foi mais tenso. O que quis dizer para ele naquele momento é que não era um livro dele, mas um livro sobre ele. Mas por outro lado, toda história que eu apuro envolvendo polêmicas, eu levo para ele, checo com ele, como jornalismo.

Então está sendo um livro com muita entrevista com ele. Vou aproveitar que está vivo e aberto a isso. Mas também tenho histórias que às vezes nem ele sabe.

Ouça a playlist com músicas de toda a carreira de Ney, produzida para o especial Ney Matogrosso: carreira, vida e as metamorfoses do artista:

O contato com ele durante o processo é uma coisa de jornalista e fonte. Mas, nessa relação que vocês construíram, você acha que terá uma repercussão quando o livro for lançado e ele tiver acesso? Pergunto por ser uma obra sobre uma personalidade viva, diferente da biografia da Elis.

O Ruy Castro (autor das biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha, entre outros) tem uma frase que diz que “os vivos atrapalham”. Ele não faz biografia de gente viva. No caso do Ney, acho que isso é uma exceção. Até agora ele só ajudou, não quer saber do que estou falando, o que estou fazendo, que assunto estou abordando. Ele só deu um alerta lá atrás: “olha tem muita mentira sobre mim”. Então, é claro, tudo tem que ser checado. Ele tem ajudado até a achar algumas pessoas. Encontrei, por exemplo um irmão dele. Essa ele não ajudou, porque ele não sabia onde estava. Eu fui para uma cidade no interior de São Paulo, e era um irmão que ele não via há dez anos.

Ney e a mãe, Beíta
Ney e a mãe, Beíta
(Foto: )

A família não sabia se ele estava vivo. É o irmão mais velho, a cara do Ney Matogrosso. Então tem sido muito tranquilo fazer a biografia de uma pessoa viva, nesse caso. Claro que depois ele pode falar “nossa, mas isso aconteceu mesmo?” Aí é mesmo um teste. Porque a sua memória não é a única, às vezes ela pode colidir com a memória de outras pessoas sobre o mesmo fato. Aí você pode dizer, “não foi bem assim” mas, e aí, como foi? Eu lembro que o filho da Elis, Pedro Mariano, falou “eu queria agradecer, por que ter me permitido conhecer minha mãe”. Então é isso, traçar um perfil fiel, mais próximo do seu biografado, com histórias que você levantou.

Teve a biografia do Ney feita em 92, pela Denise Pires. Ele demonstrou uma insatisfação.

Ele comentou. Mas aquilo foi uma série de entrevistas que ela fez com ele e a partir disso fez um livro. É um livro de memórias dele, ela não ouviu mais ninguém. E aquilo, na verdade, estressou muito ele, mas não o livro em si. Foi o processo, ele disse que ela ia e fazia uma espécie de terapia com ele, às vezes de uma forma agressiva.

Eu li o livro, tem informações legais, é o primeiro traço da linha do tempo do Ney Matogrosso. Eu lembro que naquele momento ele não falava de algumas coisas que hoje ele fala. Como o relacionamento importante que ele teve com Marco de Maria, que foi com quem ele ficou mais tempo.

O Cazuza virou mais história, mas o Marco foi o cara que ele realmente casou. Cuidou até o final, [Marco] morreria de aids também, mas o Ney não falava sobre [na época da primeira biografia].

Essa coisa da vida pessoal, o relacionamento com o Cazuza, que gera tanto interesse nos fãs, o teu livro terá esse foco? Vai pela vida pessoal, pela carreira, percorre tudo?

Eu aprendi fazendo a biografia da Elis que tudo aquilo que o artista vive e interfere na vida artística é passível de ser biografado. Não dá pra separar, então. Se tem um segredo que o artista conseguiu guardar a sete chaves, isso foi guardado e será preservado, até porque ninguém sabe. O Cazuza, por exemplo, o próprio Ney assumiu, então é óbvio que será super retratado e vasculhado.

O relacionamento com o Marco de Maria, também, porque é um momento que você vai retratar quando chega a aids, nos anos 80. Então tem que ter, pois tem uma dramaticidade muito grande e real daquele momento. E isso vai traçando uma história magnífica do cara. Tenho uma imagem do Ney nesse momento: ele vai caminhando e as pessoas vão caindo ao lado dele, vão morrendo. Tem um momento da vida dele que, em uma semana, ele vai ao cemitério enterrar amigos três vezes.

Então não vejo como deixar esses detalhes pessoais de fora. E o próprio Ney nunca falou nada contra, ele é o entrevistado mais fácil. Às vezes mando mensagem de Whatsapp e ele responde na hora, sobre qualquer coisa que você imaginar.

As apresentações dos Secos & Molhados eram constantemente acompanhadas por militares
As apresentações dos Secos & Molhados eram constantemente acompanhadas por militares
(Foto: )

Qual característica você considera que percorre a trajetória dele?

Musicalmente, ele realmente é um espanto com relação a voz. Ao alcance, ao timbre. A voz dele é uma coisa que espantou logo no começo e que ele foi carregando aquilo e fazendo disso uma marca que o tornaria único. Então a gente tem, na voz e na performance, a figura artística do Ney Matogrosso.

Pessoalmente, é até uma dificuldade como biógrafo, porque a gente quer os deslizes também, os pecados do biografado. A gente não quer retratar o santo. E eu te confesso que o Ney é de um caráter inabalável. Eu tava acostumado com a Elis Regina, que aprontava para caramba, tinha episódios de crueldade e de bondade de um dia para o outro.

Eu não quero jamais fazer um livro que soe chapa branca, ou livro de fã, sabe? Mas eu tenho que dizer que a solidez de caráter do Ney é uma coisa. E acho que a história dele está aí, não precisa achar escorregão dele. É só ser fiel e mostrar como ele vai vencendo preconceitos. Derrubando os tabus desde os anos 1950, que ele sai de casa porque briga com o pai, vai para aeronáutica, se assume gay, vira hippie, começa o Secos & Molhados. Toma uma facada pelas costas no término dos Secos & Molhados. Aquela história toda de como tentaram usar o Ney como um empregado de uma coisa da qual ele era a principal figura.

E a única cartada que ele tem é o caráter. Ele não tem nada, ele faz tudo com as mãos abanando, ele não guarda dinheiro. Sempre está começando tudo de novo. E sem nenhum medo. É uma lição atrás da outra. Muitas histórias que você fala “que cara foda, que caráter indestrutível, e que importância tem a palavra”. Você vê isso no trato com ele. Ele usa poucas palavras, tudo muito explicado.

O show "Atento aos sinais" ficou cinco anos em cartaz. Na foto, apresentação no Psicodália 2017, em Rio Negrinho-SC
O show "Atento aos sinais" ficou cinco anos em cartaz. Na foto, apresentação no Psicodália 2017, em Rio Negrinho-SC
(Foto: )

Quem descreve o Ney fala de um magnetismo, sobretudo no palco. Como é isso?

O Ney para mim é um animal. No sentido de que, quando ele sobe no palco, tem alguma coisa de ave, misturada com algum réptil também. Ele tem um espírito muito forte, selvagem, desde o começo. É um cara que nem pensava muito em ser cantor, a música vem quase por acidente, ele queria ser ator. E aí ele aparece no palco, aquela figura que ninguém sabe explicar o que é. E depois continua com essa figura.

Até no show atual (Bloco na Rua), você vê que ele é essa figura, isso não saiu de dentro dele. E isso tem a ver com a verdade que a gente tem com Ney. Ele é realmente uma figura muito especial. De trato, de sempre ter um mistério. Sempre tem um lugar que você não atinge. Sei que tem ali alguma coisa muito bem guardada, ou, enfim, um mistério que o Ney tem com ele mesmo.

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