Durante décadas, o imaginário do cowboy chegou ao público brasileiro por meio do cinema, da televisão e, mais recentemente, do streaming. Homens de chapéu, cidades pequenas cercadas por campos abertos, dramas familiares e amores intensos sempre estiveram ali. Porém, nos últimos anos, esse universo saiu das telas e passou a ocupar com força as prateleiras das livrarias e as listas dos livros mais vendidos no Brasil e no mundo.
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Romances ambientados em fazendas, ranchos e pequenas cidades rurais, especialmente no Canadá e nos Estados Unidos, tornaram-se um fenômeno editorial no Brasil, impulsionados por redes sociais, como o TikTok, e por um público leitor cada vez mais interessado em histórias que misturam romance, acolhimento e temas contemporâneos.
Editoras como a Paralela, selo da Companhia das Letras, Arqueiro, selo da Sextante, e Verus, selo do Grupo Editorial Record, observam e acompanham o movimento de perto, com obras fenômenos de venda já publicadas, como a série Fazenda Rebel Blue, de Lyla Sage; Chestnut Springs, de Elsie Silver; e o livro Entre vacas e beijos, de Bailey Hannah.
Como o romance com cowboys ganhou espaço no Brasil
Segundo Renata Moritz, editora da Companhia das Letras, a aposta nos livros de Lyla Sage aconteceu antes mesmo de o romance com cowboys se consolidar como tendência. Mais do que buscar uma temática específica, Renata conta que o que chamou a atenção da equipe editorial foi a voz da autora.
— Quando publicamos o primeiro livro, ainda não estava esse boom todo. Eu gosto de dizer que fomos um pouco precursores desse movimento. O que nos encantou nos livros da Lyla foi a forma que ela escreve. Ela tem uma voz que não é genérica, os personagens têm química, tem drama na medida certa, não são unidimensionais, são moralmente ambíguos, o que eu acho que sempre dá uma riqueza para as histórias. E por acaso são cowboys — afirma Renata.
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A autenticidade da escrita também pesou na recepção brasileira. Embora as histórias escritas por Lyla se passem no interior norte-americano, a editora percebeu rapidamente paralelos com o Brasil.
— Existe muita similaridade entre o agro brasileiro e o americano. Percebemos que existe um público que estava sedento por esse tipo de ambientação e encaixou como uma luva — pontua a editora da Companhia das Letras, citando, inclusive, referências da cultura pop nacional, como o sertanejo e fenômenos como a cantora Ana Castela.
— Já estava tudo pronto. Era só juntar uma coisa com a outra — complementa.
Na Arqueiro, o sucesso dos romances da autora Elsie Silver, especialmente da série Chestnut Springs, confirma que o movimento não é isolado. Para Frini Georgakopoulos, editora de aquisições da casa, o apelo está na experiência de leitura.
— A escrita da Elsie é extremamente viciante. Ela equilibra muito bem a história de amor, com dramas familiares e temáticas mais sensíveis. A sensação ao ler um livro dela é de imersão em um ambiente acolhedor e estar cercada por personagens interessantes e envolventes que parecemos conhecer durante toda uma vida — explica.
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Romance, drama e temas sensíveis
Frini destaca que os livros equilibram histórias de amor de tirar o fôlego, com dramas familiares e temas sensíveis, como trauma, perda e responsabilidade e para ela, o público brasileiro já estava preparado para esse tipo de narrativa.
— Gostamos de histórias que trazem drama, fortes emoções, romances arrebatadores, mas também gostamos de personagens que se ajudam, que estão lá um para o outro, esse senso de comunidade. Não existe uma distância entre o público brasileiro e a escrita da Elsie Silver, por isso ela funciona tão bem em tantos territórios diferentes. Escrever sobre amor, família e desafios em um ambiente fora da cidade grande é algo de fácil identificação em várias culturas — afirma.
A editora da Arqueiro observa, ainda, que se trata de uma tendência internacional, e não apenas local. Por isso, a Arqueiro optou por manter as capas originais dos livros de Elsie Silver, já reconhecíveis nas redes sociais, fazendo apenas adaptações pontuais nos títulos para o mercado nacional.
Na Verus, selo do Grupo Editorial Record, a leitura do fenômeno passa também pela forma como os arquétipos masculinos vêm sendo revisitados. Rafaella Machado, editora-executiva do selo, explica que livros como Entre vacas e beijos, de Bailey Hannah, conquistam leitores ao equilibrar romantismo e superação.
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— O livro chamou atenção pelo equilíbrio perfeito entre o acolhimento de um romance de cidade pequena e a profundidade de uma história de superação. Os leitores elogiam a obra principalmente pela escrita viciante de Hannah e pela construção de personagens autênticos, destacando o protagonista Austin Wells como o herói ideal: um caubói protetor e paciente que ajuda a heroína a se curar de um passado difícil sem tirar dela o protagonismo de sua própria jornada — aborda.
Mulheres protagonistas da própria história
Essa releitura da masculinidade aparece como um dos pontos centrais do sucesso do subgênero.
— As pessoas confundem muito a masculinidade clássica com a masculinidade tóxica. Nossos livros mostram mulheres adultas indo atrás de seus sonhos e sendo felizes com caras que as apoiam — diz Rafaella.
Para ela, a ficção acaba suprindo uma demanda emocional contemporânea, uma vez que existe uma vontade da mulher moderna de viver o romantismo sem abdicar de si mesma.
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Apesar de frequentemente associados a um público jovem, os romances com cowboys têm conquistado leitoras de todas as idades. Renata Moritz relata que as mais maduras, inicialmente resistentes, acabam se surpreendendo.
— Às vezes esse público não sabe que gosta desse tipo de livro. Acha que não é para ele por causa da capa ou da comunicação. Mas quando lê, se apaixona e o que mais emociona é ver a comunidade se formando — relata Renata.
Identificação entre os leitores
Essa dimensão comunitária, aliás, ajuda a explicar por que histórias tão distantes da realidade urbana de muitos leitores geram tanta identificação.
— Um bom livro é aquele em que você se reconhece nos personagens, mesmo que eles vivam em outro país ou outra época. Você se conecta pelas inseguranças, pelos medos, pelas escolhas — diz Renata.
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Para Frini Georgakopoulos, o conforto oferecido por essas narrativas não significa alienação:
— Quando abrimos um livro de ficção, buscamos conforto e escapismo. E não no sentido de alienação, mas sim no sentido de recarregar energias para lidar com o que enfrentamos fora da página. Buscamos empatia, identificação, novas experiências, pontos de vista e tudo isso pode acontecer em um reino distante ou em uma cidade pequena.
Rafaella Machado concorda e vê o movimento como reflexo de um desejo mais amplo por qualidade de vida e ritmo desacelerado.
— Penso que esse gênero tende a crescer à medida que muita gente passa a valorizar mais a vida no campo, um ritmo mais lento, mais qualidade de vida. Outras vertentes em alta como o sertanejo ajudam a consagrar essa tendência para além do romance hétero — relata a editora da Verus.
Desta forma, as editoras já pensam nos próximos passos, inclusive com histórias ambientadas no Brasil. A Verus, por exemplo, prepara o lançamento de Bala no Alvo, Dente de Leão, romance sáfico de Giu Domingues, que se passa em rodeios brasileiros, com cowboys e “trambicagens”.
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