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    Assistência social

    Do desemprego ao uso de álcool e drogas, qual é o perfil da população de rua de Joinville

    Desde 2016, as pessoas que vivem nas ruas de Joinville têm reportado motivações diferentes aos órgãos públicos

    06/07/2019 - 19h55 - Atualizada em: 07/07/2019 - 06h59

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    Cláudia
    Por Cláudia Morriesen
    foto mostra barracas na calçada, além de colchões e roupas presas a uma cerca
    Na rua Ottokar Doerffel, moradores tem liderança e regras de convivência
    (Foto: )

    Joinville não possui um diagnóstico que permita dizer quantas são as pessoas em situação de rua da cidade — até porque o número muda constantemente — nem tem um perfil aprofundado sobre esses moradores. Uma pesquisa está sendo montada pela Secretaria de Assistência Social para que seja executada entre 2019 e 2020 em Joinville, garantindo que as políticas públicas sejam direcionadas da forma correta às necessidades desta população. Mas, a partir dos casos atendidos pelo Centro Pop de Joinville, é possível perceber três características principais entre as motivações que levam pessoas a viverem nas ruas: desemprego, conflitos familiares e uso de substâncias químicas.

    Segundo o coordenador do Centro Pop, Sandro Mizzuno, as três podem ser individuais ou estarem interligadas. Há, ainda, um grupo que não se encaixa nestas definições porque escolheram as ruas por ideologia ou estilo de vida, e que não fica grandes períodos na mesma cidade nem dorme de forma contínua na rua.

    A população de rua é formada, em sua maioria, por homens, e esta é uma realidade vista em todo o país. As mulheres geralmente têm o uso de álcool e drogas ilícitas como motivo para estarem na rua e é comum que mantenham vínculo com parentes e amigos, o que garante menos tempo em situação de rua.

    Em Joinville, diferentemente de metrópoles, não há registro de crianças vivendo em situação de rua. Os poucos casos de menores de idade que chegam ao Centro Pop são de crianças e adolescentes acompanhados dos pais que, recém-chegados à Joinville com esperança de conseguirem emprego, se veem sem condições de alugar uma casa para a família. Em maio, nove pessoas com menos de 18 foram cadastradas no Centro Pop, mas eram pertencentes a duas famílias.

    — Há denúncias de crianças trabalhando nas ruas, mas elas não vivem ali. Fazemos abordagem porque trata-se de um crime, já que o trabalho infantil é ilegal — explica Sandro.

    Atuando há cinco anos no Consultório na Rua, estratégia da área da saúde para oferecer o serviço de atenção básica a esta população, o enfermeiro Abmael Silva Cabral percebeu que as razões da ida para a rua mudaram neste curto período de tempo. Se em 2014, quando o programa começou em Joinville, os moradores de rua relatavam principalmente o abuso de álcool e drogas como motivos, desde 2016 cresce o número de pessoas que ficaram desempregadas e não conseguiram mais pagar as contas. Há também aqueles que têm problemas de saúde e não conseguiram mais trabalhos, ou a perda da casa chegou antes da liberação do benefício de aposentadoria por invalidez.

    — A maioria destes fala que quer voltar, que está só passando por um momento difícil. Mas a rua tem outra dinâmica e a pessoa perde o estímulo de cuidar de agendas (como procurar emprego ou buscar direitos). A depressão também pode vir como fator secundário à situação de vulnerabilidade das ruas — avalia Abmael.

    Em maio deste ano, das 336 pessoas que procuraram o Centro Pop, 38,3% afirmaram ser usuários de drogas ilícitas. É uma proporção semelhante aos outros meses e também à registrada nas pesquisas nacionais sobre a população de rua. O uso de álcool, mesmo quando não é o causador da ida para as ruas, acaba tornando-se diário para um número maior de pessoas, como uma estratégia de sobrevivência à situação.

    — Eles dizem que, sem o álcool, não conseguem dormir à noite. Com ele, têm mais coragem. E, para muitos, é uma fuga dessa realidade — conta o enfermeiro.

    Não há uma pesquisa aprofundada com o perfil da população de rua de Joinville, mas os dados de maio de 2019 dos atendimentos do Centro Pop de Joinville apresentam um recorte:

    Homens

    87.7%

    Mulheres

    12,3%

    18 a 39 anos

    56.5%

    40 a 59 anos

    36%

    Não eram de Joinville

    70%

    Afirmaram ser usuários de drogas ilícitas

    38,3%

    Afirmaram ter transtornos mentais

    2%

    Diagnóstico está entre ações a curto prazo em Joinville

    Na última semana, a Secretaria de Assistência Social de Joinville deu início a um grupo de trabalho que terá como foco a realização de um diagnóstico da população de rua da cidade. A meta é chegar ao fim de 2020 com um levantamento mais próximo da realidade e um perfil aprofundado de quem são as pessoas que têm calçadas, marquises, pontos de ônibus e imóveis desocupados como local de moradia. Segundo Vagner, a pesquisa contemplará não apenas nome, idade e origem, mas também o espaço do indivíduo na rua, os motivos de estar vivendo na rua e as expectativas de futuro.

    Na última semana, a Secretaria de Assistência Social de Joinville deu início a um grupo de trabalho que terá como foco a realização de um diagnóstico da população de rua da cidade. O projeto está em fase de elaboração da metodologia e, depois, será realizada a capacitação de diferentes profissionais da Assistência Social para realização deste mapeamento em campo.

    É uma consulta que já acontece no Centro Pop, mas que não contempla toda a população de rua porque a ida ao órgão público depende da vontade da pessoa. A ausência destes dados dificulta a efetividade de encaminhamentos mais específicos dentro das políticas públicas de Assistência Social, de acordo com o secretário da pasta em Joinville. O coordenador do Centro Pop, Sandro Mizzuno, concorda com a urgência desta pesquisa.

    — O diagnóstico é determinante para qualquer intervenção. Na medicina, não há como pensar o tratamento se não fizer o diagnóstico do paciente. Da mesma forma, não há como pensar novas possibilidades de políticas públicas. Ficamos “apagando incêndios”, tratando o usuário que aparece aqui hoje sem pensar em perspectivas mais amplas — analisa ele.

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