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    É possível contrair a Covid-19 de novo? Os especialistas dizem que é pouco provável

    Os infectados pelo coronavírus normalmente produzem moléculas imunes chamadas anticorpos

    03/08/2020 - 17h30 - Atualizada em: 08/08/2020 - 09h48

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    Por The New York Times
    Pesquisas são feitas com quem já contraiu o vírus
    Pesquisas são feitas com quem já contraiu o vírus
    (Foto: )

    *Por Apoorva Mandavilli

    As histórias são alarmantes: em Los Angeles, uma mulher parecia ter se recuperado da Covid-19, mas, semanas depois, teve uma recaída e refez o exame, que deu positivo; em Nova Jersey, um médico relatou que vários de seus pacientes foram curados, mas a maioria acabou reinfectada pelo coronavírus; outro médico disse que uma segunda infecção é realidade para algumas pessoas, e volta muito mais violenta.

    Esses casos recentes mexem com a ansiedade mais profunda das pessoas – a de que estão destinadas a sucumbir à Covid vezes sem conta, sentindo-se cada vez mais doentes, sem nunca conseguir sair dessa pandemia aterrorizante. E aumentam o temor de que nunca conseguiremos atingir a imunidade de grupo – que é o objetivo final, quando o vírus não consegue mais encontrar um número de vítimas suficiente para representar uma ameaça.

    Mas as histórias são exatamente isso – narrativas sem evidência de reinfecções, segundo quase uma dúzia de especialistas. "Eu ainda não soube de nenhum caso que seja provado de fato, sem nenhuma ambiguidade", ressalta Marc Lipsitch, epidemiologista da Faculdade de Saúde Pública T.H. Chan de Harvard.

    Outros foram ainda mais tranquilizadores. De modo geral, todos afirmam que, embora pouco se saiba a respeito do coronavírus sete meses depois do início da pandemia, o vírus está se comportando como a maioria desses organismos, reforçando a crença de que a imunidade de grupo possa ser obtida com uma vacina.

    O consenso entre eles é que talvez até o coronavírus infecte a mesma pessoa duas vezes, mas é muito pouco provável que isso ocorra em um período tão curto ou a acometa com maior virulência. Mais possível é que algumas desenvolvam uma infecção mais prolongada, com o vírus agindo mais lentamente ao longo de semanas ou até meses depois da exposição inicial.

    Os infectados pelo coronavírus normalmente produzem moléculas imunes chamadas anticorpos. Várias equipes recentemente relataram que o nível dessa proteção cai depois de dois ou três meses, causando consternação geral. "Mas uma queda no nível de anticorpos é perfeitamente normal depois de uma infecção grave", garante o dr. Michael Mina, imunologista da Universidade Harvard.

    Ele prossegue: "Muitos clínicos se mostraram confusos, achando que o vírus é extraordinariamente diferente, pois não leva a uma imunidade robusta, mas estão completamente enganados; nada é mais básico do que isso."

    Os anticorpos não são a única forma de proteção contra os patógenos; o coronavírus também provoca uma defesa vigorosa das células do sistema imunológico, que podem eliminar o vírus e rapidamente reunir reforços para batalhas futuras. Pouco se sabe sobre a durabilidade dessas células T de memória – as que reconhecem outros coronavírus podem permanecer a vida inteira –, mas elas podem erguer defesas contra a cepa que causa a Covid.

    "Se elas se mantiverem, principalmente nos pulmões e no trato respiratório, acho que têm grandes chances de impedir que a infecção se alastre", diz Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade Yale.

    Megan Kent, uma fonoaudióloga de 37 anos que mora na periferia de Boston, recebeu o resultado positivo do exame para Covid em trinta de março, depois que o namorado ficou doente. Lembra-se de ter perdido o olfato e o paladar (anosmia), mas, no geral, se sentia bem. Depois de uma quarentena de 14 dias, voltou ao trabalho no Melrose Wakefield Hospital e também prestou ajuda em uma casa de repouso.

    Em oito de maio, do nada, começou a se sentir mal. "Parecia que tinha sido atropelada por um caminhão", descreve. Dormiu o fim de semana inteiro e foi para o hospital no dia 11, certa de que estava com mononucleose. No dia seguinte, seu exame deu positivo para o coronavírus – de novo. Ficou quase um mês para se recuperar do mal-estar e agora já sabe que desenvolveu anticorpos.

    "Desta vez foi cem vezes pior. Será que fui infectada novamente?", questiona.

    Para os especialistas, há outras explicações mais plausíveis para a experiência vivida por Kent. "Não estou dizendo que não pode ocorrer, mas, pelo que vi até agora, é um fenômeno raro", comenta o dr. Peter Hotez, diretor do Departamento Nacional de Medicinal Tropical da Faculdade de Medicina Baylor.

    Kent pode não ter se recuperado integralmente, ainda que tenha se sentido melhor, por exemplo. O vírus pode ter se escondido em certas partes de seu organismo – como o vírus do ebola, que é conhecido por esse comportamento – e ter ressurgido depois. Ela não fez novo exame entre os dois positivos, mas, mesmo que tivesse feito, versões deficientes e baixos níveis virais poderiam resultar em um falso negativo.

    Dadas essas condições mais prováveis, Mina é bem explícito em relação aos médicos que causam pânico com relatos de reinfecções. "É péssimo. O pessoal perdeu o juízo. Isso aí não passa de caça-clique sensacionalista."

    Nas primeiras semanas da pandemia, algumas pessoas na China, no Japão e na Coreia do Sul fizeram exames duas vezes e o resultado de ambos foi positivo, gerando temores semelhantes.

    O Centro de Prevenção e Controle de Doenças sul-coreano investigou 285 casos desse tipo e descobriu que o segundo resultado positivo ocorrera dois meses depois do primeiro, e um caso, 82 dias depois. Quase metade das pessoas teve sintomas ao se submeter ao segundo exame, mas os pesquisadores não conseguiram fazer cultura viva do vírus a partir de nenhuma das amostras, e os infectados não transmitiram o vírus para mais ninguém.

    "Foi uma prova epidemiológica e virológica irrefutável de que não houve reinfecção, pelo menos não nesses pacientes", garante Angela Rasmussen, virologista da Universidade Columbia, de Nova York.

    A maior parte das pessoas expostas ao coronavírus cria anticorpos que conseguem destruí-lo; quanto mais graves os sintomas, mais forte a reação. (Poucas não conseguem produzi-lo, mas isso acontece em relação a qualquer vírus.) O medo da reinfecção foi reforçado por estudos recentes que sugerem que esse nível de anticorpos simplesmente despenca.

    Por exemplo, um estudo publicado em junho concluiu que o volume de anticorpos de uma parte do vírus caiu a níveis indetectáveis em questão de três meses em 40 por cento dos assintomáticos. Em julho, um estudo que ainda não saiu em nenhuma publicação científica revisada por pares mostrou que os anticorpos neutralizadores – o subtipo poderoso que consegue impedir o vírus de infectar as células – caiu drasticamente em um mês.

    "De fato, é inacreditavelmente deprimente. É uma queda violenta", comenta Michael Malim, virologista do King's College London.

    Mas outros trabalhos sugerem que a queda do nível de anticorpos ocorre, sim – só que depois se estabiliza. Em um estudo com quase 20 mil pessoas postado no servidor on-line MedRxiv, em 17 de julho, a grande maioria produziu um número satisfatório de anticorpos, e metade dos que tinham nível baixo ainda conseguiu destruir o vírus.

    "Nada disso é realmente surpreendente do ponto de vista biológico", diz Florian Krammer, imunologista da Faculdade de Medicina Icahn Mount Sinai, que liderou a análise.

    Para os especialistas, a reinfecção ocorreu com outros patógenos, incluindo o da influenza, mas eles também enfatizam que são casos excepcionais, e que com o novo coronavírus não deve ser diferente.

    "Eu diria que a recaída é possível, mas não provável; coisa rara mesmo. Acontece que essas ocorrências incomuns parecem frequentes a um nível alarmante quando há um número muito grande de infectados", conclui Rasmussen.

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