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    "É um fato inédito no Brasil", diz presidente de associação sobre suspeita de contaminação em cervejaria

    Polícia Civil de Minas Gerais apontou uma contaminação em cerveja artesanal como possível causa de internações e até uma morte em Belo Horizonte

    10/01/2020 - 11h09 - Atualizada em: 10/01/2020 - 11h14

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    Lucas
    Por Lucas Paraizo
    Cervejaria
    Substância encontrada na bebida mineira é utilizada na refrigeração dos tanques de cerveja
    (Foto: )

    A morte de um homem e a internação de outros sete por uma doença misteriosa em Belo Horizonte (MG) acendeu o alerta em cervejarias brasileiras após a divulgação de um laudo preliminar da Polícia Civil mineira. Segundo informações divulgadas pelo jornal O Globo, o laudo apontou a contaminação de duas amostras da cerveja "Belorizontina", uma Pilsen produzida pela cervejaria Backer — uma das mais tradicionais cervejarias artesanais do Brasil.

    Segundo o laudo, dois lotes da bebida teriam a presença da substância dietilenoglicol, que estaria ligada aos sintomas apresentados pelas pessoas hospitalizadas em Belo Horizonte. Por precaução, os dois lotes com 66 mil garrafas no total estão sendo recolhidos pela cervejaria, que afirmou em nota estar ajudando na investigação e que não utiliza a substância em questão no processo de fabricação.

    A ligação entre a doença — que vem sendo tratada como síndrome nefroneural — e a cerveja ainda não foi provada, mas o caso repercute no Brasil inteiro. Existem cerca de 1000 cervejarias artesanais no Brasil e Santa Catarina é um dos principais polos do setor no Brasil. Presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), o catarinense Carlo Lapolli afirma que o caso em Minas Gerais "é um fato inédito no Brasil" e que deve ser analisado com calma para que todas as questões sejam respondidas.

    Lapolli explica que o dietilenoglicol é utilizado no sistema de refrigeração por ser um anticongelante. É uma substância presente até no radiador de carros por exemplo, e que pode ser usada para manter a cerveja gelada nos tanques das cervejarias, no entanto não é comum por ser mais caro que o álcool etílico tradicional que tem a mesma função.

    — Essa substância é raramente utilizada em cervejarias como anticongelante. Nas artesanais eu diria que quase a totalidade utiliza álcool etílico. O álcool puro, utilizado para produção de licor, sem risco de contaminação se tiver contato direto com a cerveja. Essa é uma pergunta a ser respondida, porque a própria Backer diz que não usa o dietilenoglicol — ressalta Lapolli.

    Na maioria das cervejarias o sistema de refrigeração é o chamado "tanque encamisado". Água gelada é bombeada ao redor dos tanques de cerveja, que possuem proteção interna com revestimento de inox, onde fica armazenado o líquido. Ao redor da placa de inox passa uma serpentina, um isolamento térmico, e outra capa de inox. Por esse formato dos tanques, Lapolli diz que uma contaminação como a suspeita na Backer seria extremamente improvável:

    — Quando há um vazamento, é para dentro desse "sanduíche" de isolamento térmico. Inclusive a gente nota esse vazamento pingando fora do tanque quando acontece. O vazamento pra dentro do tanque é muito raro, não tenho notícia desse tipo de vazamento na indústria, não tem contato direto com a cerveja. O dietilenoglicol teria que estar numa concentração muito grande para fazer mal. Ele é usado de forma diluída no sistema de refrigeração, e eventual vazamento para dentro do tanque implicaria numa diluição nos milhares de litros de cerveja preparados pela cervejaria — explica o cervejeiro e presidente da Abracerva.

    Impacto no setor

    Em expansão no Brasil nos últimos anos, o setor de cervejas artesanais pode sofrer com publicidade negativa relacionada ao caso em Minas Gerais, mas Lapolli acredita que deve ser algo temporário. Para ele, a decisão da Backer em recolher os lotes foi acertada para tentar elucidar a questão, mas o caso deve ser analisado com calma, sem julgamentos prévios

    — É um impacto temporário no mercado mas que logo se recupera pelo nível de excelência do controle de qualidade das cervejarias artesanais brasileiras. Trata-se de um processo industrial muito controlado, tem revisão de processos, normas, procedimentos. Uma cervejaria pequena tem o mesmo nível de fiscalização e controle que uma grande — afirma.

    Segundo a reportagem do O Globo, as vítimas em Belo Horizonte têm idades entre 23 e 76 anos e apresentaram os mesmos sintomas — desconforto gastrointestinal (náusea, vômito e dor abdominal), insuficiência renal aguda de evolução rápida (em até 72 horas) e alterações neurológicas como paralisia facial, vista borrada, cegueira total ou parcial. O caso está sendo investigado pela polícia e por autoridades estaduais e municipais da área da saúde.

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