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ÉTICA MÉDICA

Ela não queria um exame pélvico, mas acabou forçada a fazê-lo

Em muitos estados e instituições médicas dos EUA, os profissionais de saúde não precisam obter consentimento explícito da paciente para realizar o procedimento

01/03/2020 - 18h15 - Atualizada em: 02/03/2020 - 10h34

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Por The New York Times

*Por Emma Goldberg

Em 2017, Janine, uma enfermeira de 33 anos do Arizona, deu entrada no hospital para fazer uma cirurgia estomacal; antes do procedimento, disse ao médico que não queria o envolvimento direto de nenhum estudante de medicina. Depois da operação, porém, quando estava voltando da anestesia, ela conta que um residente passou no quarto para informá-la do início de seu período menstrual, que ele notara enquanto fazia o exame pélvico.

"Que exame pélvico?", perguntou. Perturbada, tentou concatenar os eventos ocorridos enquanto estava inconsciente. Por que seus órgãos sexuais tinham sido inspecionados durante uma cirurgia abdominal, e por um estudante ainda por cima? Mais tarde, sua médica lhe explicou que a equipe médica tinha percebido que ela estava próxima de fazer o papanicolau.

Janine começou a chorar. "Comecei a ter um ataque de pânico, tentando entender o que tinha acontecido. Tenho histórico de abuso sexual, e aquilo me trouxe más lembranças", relembra, em entrevista.

Ela se sentiu ainda mais irritada pelo fato de também ser profissional da área médica: "O paciente deposita muita confiança nessa profissão, principalmente em questões mais delicadas, como a anestesia geral." (Janine pediu que fosse identificada somente pelo nome do meio. O hospital se recusou a falar sobre sua política de consentimento explícito para exames ginecológicos.)

O exame pélvico exige a inspeção física nas partes mais íntimas do corpo da mulher, e geralmente é realizado com a paciente consciente, depois de seu consentimento, na consulta com o especialista, para verificar a ocorrência de certos tipos de câncer, infecções e outras questões de saúde reprodutiva.

Mas, em muitos estados e instituições médicas dos EUA, o profissional não precisa obter consentimento explícito para o procedimento. Às vezes, é feito por médicos e/ou residentes enquanto a paciente está anestesiada para uma cirurgia ginecológica ou de outra natureza. Geralmente, é considerado necessário, mas em muitos casos é realizado pura e simplesmente pelo benefício educacional. Em alguns hospitais, os médicos explicam o procedimento para a paciente antecipadamente, ou há detalhes mais específicos em formulários de autorização, mas há mulheres que passam por ele sem saber.

Ela não queria um exame pélvico, mas acabou forçada a fazê-lo - Foto: Lindsay D'Addato/The New York Times
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Não há números para indicar quantos exames pélvicos são feitos sem consentimento nos EUA, mas pesquisas regionais sugerem que a prática é comum. Uma pesquisa realizada em 2005 pela Universidade de Oklahoma concluiu que a maioria dos estudantes médicos tinha realizado exames pélvicos em pacientes inconscientes, e que em quase 75 por centos dos casos eles achavam que não houvera obtenção de consentimento.

Phoebe Friesen, especialista em ética biomédica da Universidade McGill, chamou a atenção para a questão em 2018, com artigos na "Bioethics" e "Slate", que acabaram trazendo à tona várias histórias sob a hashtag #MeTooPelvic. Friesen ficou sabendo dessas ocorrências enquanto realizava um seminário sobre bioética no Hospital Sinai de Nova York, ao ouvir a narrativa de alguns estudantes que basicamente se resumia a "posso enfiar a mão na vagina dessa mulher porque conta como experiência".

Sarah Wright, professora de ciências em Madison, no Wisconsin, conta que recebeu o diagnóstico de sensibilidade extrema na vulva após uma cirurgia em 2009. Ficou imaginando como uma operação feita através de incisões no abdome poderia ter afetado seus órgãos sexuais, e concluiu que ou utilizaram um manipulador uterino, ou fizeram um exame pélvico sem seu conhecimento. Por isso, quando teve de marcar nova cirurgia com a Faculdade de Medicina e Saúde Pública da Universidade do Wisconsin, em 2018, pediu para fazer uma autorização de próprio punho.

"A mulher inconsciente em uma mesa de operação está no seu estado mais vulnerável; se alguém vai inserir algo em sua vagina, sejam as mãos ou instrumentos, isso precisa ser comunicado", diz Wright.

Ela conta que a administração do departamento recusou seu pedido. "Perguntaram se era imprescindível, porque, se fosse, era melhor eu fazer a cirurgia em outro lugar."

A faculdade se recusou a falar dos detalhes do caso de Wright, mas, em 2019, adotou uma nova política, exigindo dos médicos a obtenção de autorização antes de permitir que os residentes realizassem exames delicados que deveriam estar relacionados a tratamentos de rotina em pacientes anestesiadas.

"A formalização da política de exames delicados fornece padrões claros, específicos e amplamente utilizados para a autorização de exames pélvicos, de mama, urogenitais, de próstata e retais", explica a dra. Laurel Rice, diretora do departamento de obstetrícia e ginecologia da faculdade.

Robin Fretwell Wilson, professora de direito e reitora associada da Faculdade de Direito da Universidade de Illinois - Foto: Rachel Woolf/The New York Times
Robin Fretwell Wilson, professora de direito e reitora associada da Faculdade de Direito da Universidade de Illinois
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No ano passado, uma onda de projetos de lei proibiu o exame pélvico não autorizado em onze estados dos EUA; Maryland, Utah, Nova York e Delaware promulgaram leis exigindo autorização expressa, juntando-se a outros seis que já tinham regras para esses casos. Diversas instituições médicas criaram medidas próprias.

"Sabemos que o corpo feminino não deve ser tratado como propriedade de alguém, e isso se estende também à medicina. Em tempos de movimento MeToo, isso fica ainda mais evidente", afirma Robin Fretwell Wilson, professora e reitora associada da Faculdade de Direito da Universidade do Illinois, que há tempos defende a criação de leis de autorização informada.

'É um pesadelo?'

Para os residentes, fazer um exame sem consentimento gera um mal-estar que vai sumindo com o tempo; já para as pacientes, as marcas são mais profundas, muitas vezes afetando a confiança que tinham nos profissionais da saúde.

Em 2007, Ashley Weitz, de 36 anos, foi ao pronto atendimento do Intermountain Healthcare LDS Hospital, em Salt Lake City, Utah, porque não conseguia parar de vomitar. Fez um ultrassom e um exame de sangue, a rotina padrão; o médico que a atendeu repassou uma lista de causas prováveis para o problema e perguntou se poderia fazer o exame para DST; Weitz se recusou, explicando que era celibatária e sobrevivente de abusos na infância, e preferia não fazer o procedimento.

A seguir, ele lhe deu Fenergan, um sedativo injetável; depois de um tempo, quando recobrou a consciência, ela se viu com os pés sobre estribos de metal e sentiu um espéculo dentro de si, frio e estranho. Gritou de dor, e se lembra de o médico ter respondido: "Aguenta aí, estou quase acabando."

Sarah Wright, professora de ciências, em sua casa em Madison - Foto: Taylor Glascock/for the New York Times
Sarah Wright, professora de ciências, em sua casa em Madison
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"Só me lembro da dor e da confusão; parecia que estava tendo um pesadelo. Estava sonolenta, saindo da sedação. Levantei a cabeça e só o vi reunindo as amostras que coletara sem minha permissão", conta Weits.

Ela faz questão de dizer que não teria problema algum em fazer o procedimento se tivesse sido informada de seu objetivo. "Se o médico tivesse conversado comigo, explicado que ajudaria no diagnóstico, provavelmente eu teria consentido. Foi a forma como ele procedeu que gerou todo esse trauma."

Weitz prestou depoimento na Câmara de Utah a favor do projeto de lei que exige o consentimento expresso para esses casos, que acabou promulgado no ano passado. Um porta-voz do Intermountain Healthcare disse que seus "profissionais não fazem exames nem procedimentos, incluindo na área pélvica, sem consentimento informado, de acordo com a lei estadual".

A dra. Jennifer Goedken, obstetra e ginecologista da Universidade Emory, diz que trabalhar em um hospital universitário lhe mostrou a importância de dar aos alunos a experiência prática do exame pélvico, e a princípio temeu que o debate legislativo pudesse estigmatizar o procedimento.

"Como médicos que cuidam da saúde da mulher, não queremos que o exame pélvico seja relegado a tabu, mas sim que os residentes aprendam a reconhecer anormalidades e fazer uma análise boa e confortável", conclui.

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