As mulheres representam 58% dos servidores civis no Brasil, mas ainda recebem até 25% menos que os homens no fim do mês. A diferença não está no salário-base, que segue regras de isonomia, e sim na estrutura paralela de remuneração, formada por gratificações, cargos de confiança e progressões, onde a disparidade se concentra.
O dado é do estudo do Instituto República (2023), que revela uma distorção persistente mesmo em um sistema com tabelas salariais padronizadas.
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Como gratificações e cargos de confiança excluem as mulheres
A maior parte do descompasso está na parcela variável da remuneração. Adicionais por desempenho, funções comissionadas e bônus aumentam a renda total, mas a distribuição não é uniforme.
Esses cargos, de livre nomeação e maior remuneração, continuam majoritariamente ocupados por homens. O efeito vai além do ganho imediato. Eleva a renda ao longo da carreira e aprofunda desigualdades estruturais.
Mesmo com critérios formais, a concessão de gratificações ainda passa por avaliações subjetivas e pela proximidade com centros de decisão. Segundo o estudo, isso abre margem para distorções recorrentes.
As barreiras invisíveis na ascensão das mulheres
A progressão na carreira também pesa no resultado final. Em geral, mulheres avançam em ritmo mais lento, influenciadas por fatores como interrupções na trajetória profissional e menor acesso a posições estratégicas.
Esse desequilíbrio fica ainda mais evidente nos cargos de alta liderança. No Executivo federal, das 1.296 funções de Direção e Assessoramento Superior (DAS) níveis 5 e 6, apenas 323 são ocupadas por mulheres, cerca de duas em cada dez posições de comando.
O funil de gênero no setor público
Nos níveis mais altos de remuneração, a diferença se amplia. Segundo o levantamento, mulheres representam apenas 21% dos servidores que recebem acima de 20 salários mínimos, abaixo dos 31% registrados em 2016.
O dado indica não só a manutenção do cenário, mas também o avanço da desigualdade nas faixas mais altas do funcionalismo.
Mulheres dominam cargos de entrada e menor remuneração
Na outra ponta, a distribuição se inverte. As mulheres são maioria entre os servidores de menor renda. Dados analisados pelo Instituto República, com base no IBGE, mostram que elas representam 64% dos trabalhadores que recebem entre um e dois salários mínimos, ante 36% de homens.
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Esse cenário, somado à menor presença em cargos de comando e à segregação das carreiras, ajuda a explicar a concentração feminina nas faixas mais baixas de renda.
Por que o modelo de bônus atual precisa ser revisto
Além da desigualdade de gênero, o modelo de remuneração do setor público também levanta dúvidas sobre a eficiência do gasto. A concentração de bônus e funções estratégicas em grupos específicos pode reduzir o retorno do investimento em pessoal, ao gerar distorções na alocação de recursos na máquina pública.
Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as diferenças de rendimento se mantêm em diferentes recortes, o que indica que o problema não está somente nas regras formais, mas na forma como incentivos e progressões são distribuídos ao longo da carreira.
O paradoxo da isonomia: por que regras iguais não garantem salários iguais no Brasil
O cenário indica que a igualdade prevista nas tabelas salariais não se reflete integralmente na renda final. As diferenças acabam aparecendo fora da estrutura fixa, em mecanismos menos transparentes ligados à progressão na carreira e à ocupação de cargos estratégicos.
Nesse contexto, o debate sobre equidade no setor público vai além do salário-base e passa a envolver também o desenho dos incentivos, a distribuição de oportunidades e os critérios de ascensão profissional
* Com edição de Jean Laurindo

