Em meio à rotina intensa de um hospital, onde o tempo costuma ser marcado por diagnósticos, cuidados e incertezas, um gesto simples tem feito toda a diferença. São pequenas cartinhas, escritas à mão, que carregam palavras de carinho, respeito e alegria. Por trás delas está Cristopher Sant’Anna Pasinato, ou simplesmente Chris, que encontrou na escrita uma forma de se conectar com o mundo e transformar o dia de quem cruza seu caminho.
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A história dele começa muito antes das cartinhas. Filho mais novo de Vera Lúcia Sant’Anna Pasinato, residentes em Xanxerê, no Oeste de Santa Catarina, Chris ainda era um bebê quando enfrentou o primeiro grande susto. Com apenas 40 dias de vida, teve uma convulsão sem febre. A partir dali, iniciou-se uma jornada marcada por exames, incertezas e buscas por respostas. Mesmo com resultados iniciais considerados normais, o desenvolvimento do menino começou a levantar preocupações na família.
— Percebíamos que ele não evoluía como os irmãos na mesma idade. Aquilo nos angustiava muito — relembra Vera.
A busca por um diagnóstico levou a família até São Paulo, onde, após uma série de avaliações mais aprofundadas, veio a confirmação: Chris estava dentro do espectro autista. Há quase quatro décadas, quando o assunto ainda era pouco conhecido e cercado de desinformação, a notícia trouxe um impacto profundo.
— Passamos por todas as fases: revolta, negação, luto… até chegar à aceitação. Foi um caminho difícil, com muito preconceito, mas o tempo foi nos ajudando a entender e a seguir em frente — conta a mãe.
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Apesar dos desafios, Chris sempre demonstrou habilidades que chamavam a atenção. Uma delas apareceu cedo: a leitura. Aos quatro anos, aprendeu praticamente sozinho. Bastou conhecer o alfabeto para começar a formar palavras e, pouco tempo depois, já estava lendo.
Na escola, porém, o percurso não foi simples. Nos primeiros anos, o ambiente da sala de aula era difícil de lidar. O choro constante e a falta de adaptação faziam com que ele passasse boa parte do tempo no parquinho, no balanço. A inclusão, como se conhece hoje, ainda não era uma realidade.
Com o passar do tempo, veio o amadurecimento. No ritmo dele, mas constante. Aos poucos, Chris encontrou seu espaço, permaneceu em sala de aula e seguiu avançando nos estudos até concluir o ensino médio. Também se dedicou ao inglês, com bom desempenho, incluindo apresentações como uma banca sobre a vida de Elvis Presley.
Anos depois, uma nova oportunidade mudaria sua rotina e, sem saber, a de muitas outras pessoas.
Foi por meio de uma indicação que surgiu a chance de trabalhar no Serviço de Arquivo Médico e Estatístico (SAME), no Hospital Regional São Paulo. Já são 14 anos convivendo com profissionais, pacientes e visitantes. E foi nesse ambiente que um talento silencioso ganhou força: a escrita.
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Cartinhas aos colaboradores
As cartinhas começaram em 2006, em um momento especial: o aniversário de 50 anos da avó. O gesto, inicialmente familiar, logo se transformou em algo maior. Chris passou a escrever para outras pessoas, muitas vezes sem sequer conhecê-las pessoalmente.
Cada mensagem carrega um detalhe que se tornou marca registrada: os acrósticos com o nome de quem recebe.
— É uma forma de demonstrar carinho, admiração e respeito — explica. Chris escreve para celebrar datas, alegrar dias comuns e, principalmente, espalhar sentimentos positivos. — Eu gosto de transmitir alegria. Quero que as pessoas se sintam felizes — diz.
Enquanto escreve, ele encontra também o próprio bem-estar:
— Me sinto muito bem. Coloco carinho, afeto, amor… tudo que tenho de bom nas palavras.
E quem recebe sente. As reações, segundo ele, são sempre marcantes. Sorrisos, surpresa e emoção fazem parte das respostas e acabam alimentando ainda mais a vontade de continuar.
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— Quando vejo que a pessoa ficou feliz, eu fico feliz também — relata.
Hoje, as cartinhas são mais do que um gesto: são uma forma de expressão, de conexão e de propósito. Em um ambiente onde muitas vezes predominam preocupações, elas chegam como um respiro leve, lembrando que pequenos atos podem ter grandes impactos. Para Chris, não há dúvida disso:
— Sim, pequenos gestos podem mudar o dia das pessoas. Porque tudo que eu escrevo é com carinho. E meu objetivo é transmitir felicidade.
Abril Azul: mais informação, menos preconceito
Celebrado como o mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Abril Azul reforça a importância de ampliar o conhecimento da sociedade sobre o autismo e, principalmente, promover a inclusão. A campanha convida à reflexão sobre respeito, empatia e oportunidades, destacando que cada pessoa no espectro é única, com suas próprias habilidades, desafios e formas de se expressar.






