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Em áudio, Moro pede desculpas a integrantes do MBL por chamá-los de tontos

Gravação divulgada por deputado estadual também dá detalhes do contexto em que declarações sobre STF teriam ocorrido

23/06/2019 - 20h50

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Folhapress
Por Folhapress
(Foto: )

O Movimento Brasil Livre (MBL) divulgou neste domingo (23) áudio em que o ministro da Justiça, Sergio Moro, pede desculpas aos seus integrantes por mensagem trocada com integrantes da Operação Lava Jato em março de 2016, na qual os chama de tontos.

— Se de fato usei o termo, peço escusas, mas saibam que têm todo o meu respeito e sempre terão — declarou Moro, segundo a gravação publicada no Youtube pelo deputado estadual Arthur Mamãe Falei (DEM-SP), do MBL.

Procurada pela Folha de S.Paulo, a assessoria do ministro informou não ter conhecimento do áudio.

O diálogo em que Moro critica o movimento consta em reportagem da Folha e do site The Intercept Brasil neste domingo.

Nele, Moro pede ao coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, que encontre uma forma de conter o MBL, que havia armado protesto em frente ao apartamento do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki, morto no ano seguinte.

O temor era de que isso melindrasse as relações do então juiz com o ministro, que poderia retirar da 13ª Vara de Curitiba parte dos processos em curso para que eles passassem a tramitar no Supremo.

"Nao.sei se vcs tem algum contato mas alguns tontos daquele movimento brasil livre foram fazer protesto na frente do condominio do ministro", digitou o então magistrado no Telegram. "Isso nao ajuda evidentemente."

No áudio deste domingo, Moro reitera que, em seu entendimento, as mensagens foram obtidas de maneira criminosa e podem ter sido adulteradas.

— Nem sei se são verdadeiras. Saí do Telegram em 2017 — afirmou.

Ele justifica que o momento era tenso em função da divulgação, autorizada por ele próprio, de escutas de conversas entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a então presidente Dilma Rousseff.

— Aquilo lá eu fiz com convicção na absoluta correção, mas gerou toda uma pressão e foi um período complicado. Achei que esse protesto na época era um tanto quanto inconveniente — argumentou o ministro.

— O ministro Teori Zavascki era boa gente, uma pessoa séria e a realização daquele protesto poderia gerar uma animosidade do Supremo contra a 13ª Vara.

Moro sustenta não saber se usou mesmo termo "tonto".

— Acredito que não, pode ter sido adulterado, mas queria dizer assim, pedir minhas escusas se eu eventualmente utilizei. Sempre respeitei o MBL e sempre agradeci o apoio que este movimento deu não só à Lava-Jato mas a esse movimento, nos últimos cinco anos, de avanço contra a corrupção e construção de um país melhor — declarou.

A reportagem publicada pela Folha e pelo Intercept neste domingo foi produzida a partir de mensagens privadas enviadas por uma fonte anônima ao The Intercept Brasil e analisadas em conjunto pelo jornal e pelo site.

Ela mostra como os procuradores da Lava Jato se articularam para proteger Moro e evitar que tensões entre ele e o Supremo paralisassem as investigações em março de 2016.

Os diálogos indicam que os procuradores e o então juiz temiam que Teori, relator da Lava Jato no STF, desmembrasse inquéritos que estavam sob controle de Moro em Curitiba após a divulgação de uma lista de políticos associados à Odebrecht, que tinham direito a foro especial –e que só podiam ser investigados com autorização da corte.

Moro escreveu ao procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, para reclamar da Polícia Federal, que havia tornado a pública a lista de políticos ao anexar aos autos de um inquérito papéis encontrados na casa de um executivo da Odebrecht, e discutiu com ele a melhor forma de encaminhar os processos ao STF.

Ao examinar o material, a reportagem da Folha não detectou nenhum indício de que ele possa ter sido adulterado.

Os repórteres, por exemplo, buscaram nomes de jornalistas da Folha e encontraram diversas mensagens que de fato esses profissionais trocaram com integrantes da força-tarefa nos últimos anos, obtendo assim um forte indício da integridade do material.

Nas demais conversas publicadas pelo site Intercept desde o último dia 9, Moro sugere ao Ministério Público Federal trocar a ordem de fases da Lava Jato, cobra a realização de novas operações, dá conselhos e pistas e antecipa ao menos uma decisão judicial.

O então juiz, segundo os diálogos, também propõe aos procuradores uma ação contra o que chamou de "showzinho" da defesa do ex-presidente Lula, sugere à força-tarefa melhorar o desempenho de uma procuradora durante interrogatórios e se posiciona contra investigações sobre o ex-presidente FHC na Lava Jato por temer que elas afetassem "alguém cujo apoio é importante".

Segundo a legislação, é papel do juiz se manter imparcial diante da acusação e da defesa. Juízes que estão de alguma forma comprometidos com uma das partes devem se considerar suspeitos e, portanto, impedidos de julgar a ação. Quando isso acontece, o caso é enviado para outro magistrado.

As conversas entre então juiz e a Lava Jato também provocaram reação no Supremo Tribunal Federal, que agendou para esta terça-feira (25) a análise de um pedido dos advogados do ex-presidente Lula pela anulação do processo do tríplex em Guarujá (SP), encabeçado por Moro e que levou o petista à prisão em abril do ano passado.

Até aqui, Moro tem minimizado a crise e refutado a possibilidade de ter feito conluio com o Ministério Público. Assim como os procuradores, diz não ter como garantir a veracidade das mensagens (mas também não as negou) e chama a divulgação dos diálogos de sensacionalista.

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