Com o tema “O fim do mundo pode ser adiado?”, o líder indígena Ailton Krenak palestrou na 19ª edição da Feira do Livro de Joinville nesta terça-feira (6). Em entrevista exclusiva ao AN, ele comentou sobre temas como a importância do evento, o marco temporal e as perspectivas com políticas de cuidados com o meio ambiente.

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Krenak ressaltou a importância de outros autores indígenas já terem participado da feira, como Daniel Munduruku e Cristino Wapichana. Além disso, ressaltou que é um autor crítico sobre a sociedade atual, conteúdo que traz à palestra.

— Critico esses humanos devorando o planeta Terra de uma maneira desenfreada. Aponto o dedo para a economia e sociedade que nós constituímos. Mas existe uma unanimidade que acha que nós estamos indo de “vento em popa”… só se for para o inferno — crava. 

Pela primeira vez em Joinville e a segunda em Santa Catarina, ele lembra que há 30 anos fez uma palestra na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, e resgatou comentários sobre a colonização catarinense, citando movimentos que causaram mortes e violências aos povos originários. Para ele, a situação se compara com o avanço da indústria atual nas florestas. 

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— Foi feita a custa de caça aos indígenas. Colonos chamavam indígenas de ‘bugres’. Tinha uma classe de ‘bugreiros’ para destruir aldeias. Assim como as indústrias hoje avançam sobre as terras indígenas. Os antepassados desses bugreiros de hoje. É o mesmo massacre — analisa. 

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Com livros que apontam perspectivas e mudanças para o futuro, Ailton destaca que não se pode ficar de boca aberta esperando os próximos anos chegarem, mas buscar por o que ele classifica como um “otimismo utópico”, respeitando a diversidade de cultura e gênero, por exemplo. 

— O problema é que nós vivemos em um mundo em convulsão, com uma ideia da supremacia de uma raça sobre a outra. Gostaria de alertar que o homo sapiens deu metástase. Se não mudarmos o rumo, estamos todos fritos — comenta. 

O que é o marco temporal indígena

Marco temporal em pauta

Nesta quarta-feira (7), o Superior Tribunal Federal (STF) deve julgar o marco temporal, que defende que as terras indígenas tenham demarcação homologada no Brasil somente caso já fossem ocupadas ou estivessem sob disputa dos povos originários na data da promulgação da Constituição Federal atual, de 5 de outubro de 1988.

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Krenak diz que o tema está “dançando” na mão da Justiça há cinco anos e que é necessário ter coragem para confrontar o documento, o que, para ele, se trata de “excrescência jurídica”. Além disso, ele acredita que a votação não deve acontecer nesta quarta. 

— Vou ficar surpreso se eles realmente voltarem. Desconfie que vão inventar um pedido de vista. Eles não têm coragem de assumir diante da sociedade e isso seria um escárnio — exclama.

“Saímos do espeto para a brasa”, analisa Krenak

Crítico do ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro (PL), o indígena diz que após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2022, os indígenas devem se manter em luta contra os ataques. 

— Saímos do espeto para a brasa. Tem gente que sabe pisar em cima de brasa. Tem gente que prefere ficar enfiado no espeto. O governo Lula vai ter o desafio de cumprir pelo menos 10% do programa dele, porque [o programa] já está mutilado. O Congresso já esquartejou o programa de governo — finaliza.

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