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    VOLTA AO NORMAL 

    Em meio à pandemia, a busca pela normalidade na anormalidade

    Hong Kong foi um dos primeiros lugares fora da China continental a ser atingido pelo coronavírus e a paisagem da cidade mudou de forma imediata

    29/05/2020 - 14h16

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    Por The New York Times
    japão
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    *Por Vivian Wang

    HONG KONG – A dois quarteirões do meu apartamento, na extremidade oeste da ilha de Hong Kong, uma Starbucks foi transformada em algo que mais se parece com uma zona de construção, ou talvez com uma instalação artística estranha.

    Uma poltrona perto da janela foi isolada temporariamente com fita crepe, e mais tiras passavam por cima e ao redor de outras cadeiras próximas, esticadas como corda bamba sobre as mesas ao lado. Retângulos de papelão branco estão presos nas laterais das mesas, que agora se assemelham mais a cubículos de escritório do que a lugares para se reunir com os amigos.

    Mas se os clientes estão incomodados com a estranheza do local, eles não demonstram. Em uma recente noite de terça-feira, um jovem casal se amontoou a uma das mesas sem fita, rindo de algo no telefone da garota. Um homem se debruçou sobre seu laptop, aparentemente alheio aos silos que o protegiam dos demais clientes.

    Hong Kong foi um dos primeiros lugares fora da China continental a ser atingido pelo coronavírus e a paisagem da cidade mudou de forma imediata. Checagens de temperatura corporal eram realizadas em todos os prédios públicos e placas em elevadores informavam com que frequência os botões estavam sendo higienizados. Uma rede de farmácia distribuía um punhado de adesivos a cada compra, com a imagem da mascote da empresa – um gato laranja piscando – e um lembrete: "Lave as mãos! Esfregue as mãos! Vinte segundos. Obrigado."

    Em todos os lugares, havia lembretes de que não era uma época normal. Quatro meses depois, essas placas ainda estão por aqui. Mas a cidade está voltando à vida – na verdade, não a despeito desses lembretes onipresentes, mas ao lado deles.

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    A frequência do tai chi matinal no parque atrás do meu apartamento passou de algumas poucas senhoras com máscara facial para dezenas de pessoas. As multidões que passeiam ao longo do Porto Victoria ficaram mais densas; as crianças riem atrás das viseiras de plástico que seus pais as obrigam a usar. Muitos cha chaan tengs – os restaurantes cantoneses que atendem através de um buraco na parede e que servem chá de leite, tortas de ovos e bife chow fun – ainda oferecem descontos para quem pede a comida para viagem, mas as mesas da parte de dentro também estão começando a ficar mais cheias.

    Mais diretamente, essa é uma resposta às boas notícias das últimas semanas. Hong Kong registrou apenas três casos transmitidos localmente nos últimos trinta dias. Apenas quatro pessoas morreram de Covid-19. O governo afrouxou as restrições de distanciamento social, permitindo que os funcionários públicos retornassem ao trabalho e os restaurantes voltassem a atender em capacidade total, em vez da metade.

    Essa, no entanto, não é a única razão pela qual o vírus não parece mais dominar todas as facetas da vida aqui. Enquanto o medo e a ansiedade persistem, os moradores de Hong Kong parecem particularmente hábeis em conviver com essas emoções – talvez não adotando essa estranha nova realidade, mas também não se afastando dela.

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    Essa habilidade de não se abalar me impressionou bastante durante meu tempo aqui. Mudei-me de Nova York para Hong Kong há três meses. Antes de embarcar no avião, eu nunca havia usado uma máscara facial. Muitas de minhas conversas com amigos nova-iorquinos giram em torno de quanto tempo levará para que as coisas voltem a ser como eram antes – realmente como eram antes: não apenas sem as ordens de ficar em casa e as empresas fechadas, mas também sem máscara e sem as palavras "distanciamento social".

    Em Hong Kong, a vida "real" não parece tão mutuamente exclusiva quanto a atual. Isso ocorre porque, em grande parte, a cidade já passou por isso antes. Antes de me mudar para cá, li sobre a última batalha de Hong Kong contra uma epidemia: a síndrome respiratória aguda grave. Eu sabia que ela havia sido atingida pela doença, que afetou a cidade em 2003 e matou quase 300 pessoas. Mas não fazia ideia de quanto essa experiência havia se incorporado à psique da cidade até minha chegada.

    Máscaras faciais não são incomuns, mesmo em períodos sem surtos. E os moradores de Hong Kong se lembram com facilidade de apertar os botões do elevador com a chave, e não com a ponta do dedo, porque já fazem isso há anos.

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    Portanto, quando o coronavírus chegou, as pessoas simplesmente pegaram os hábitos que já tinham e os escalaram – às vezes, antes mesmo de o governo pedir. Elas ficavam em casa quando podiam e usavam máscara quando não podiam. Conheci muitas pessoas novas nas minhas primeiras semanas na cidade; nenhuma delas apertou minha mão. A primeira vez que peguei o metrô aqui, consegui ver, por toda a extensão do trem, a floresta de postes vermelhos do metrô sem avistar sequer uma única pessoa.

    Paradoxalmente, essa vigilância e esse autocontrole de tantos anos ajudaram Hong Kong a se preservar, talvez com mais sucesso do que outras cidades que tentaram se apegar aos hábitos que tinham antes do vírus. Museus, escolas e academias fecharam aqui, mas os restaurantes não precisaram fazê-lo, assim como os salões de beleza e o comércio de varejo.

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    Ainda assim, de muitas maneiras, isso é uma ilusão. Em uma cidade tão densa quanto Hong Kong, mesmo a vida em meio volume parece vibrante. São os balanços financeiros que revelam a verdade. Hong Kong está em profunda recessão, tendo acabado de registrar sua maior contração econômica de todos os tempos. Os restaurantes podem ter ficado abertos, mas estão sofrendo. Uma mulher que entrevistei em março largou o emprego como segurança para cuidar de seus filhos depois que as escolas fecharam; estas ainda não reabriram.

    E, como todo o resto do mundo, as pessoas de Hong Kong estão cansadas. Algumas vezes, o distanciamento social recebe elogios. Em um restaurante, há duas semanas, depois que as mesas disponíveis ficaram cheias, uma garçonete guiou um cliente até a mesa onde eu já estava sentada com dois amigos. "Tudo bem, quatro pessoas", disse ela, referindo-se ao limite de quatro pessoas estipulado pelo governo para aglomerações públicas. (Desde então, esse número subiu para oito.)

    De qualquer forma, mesmo o fim do surto em Hong Kong pode não trazer de volta a verdadeira normalidade. Os protestos pró-democracia que assolaram a cidade durante a maior parte do ano passado já começaram a se reacender à medida que as pessoas se sentem mais confortáveis em se reunir. Muitos acreditam que em breve elas voltarão a protestar.

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    Assim, talvez eu não saiba realmente como é a vida normal em Hong Kong durante algum tempo. Mas, cada vez mais, isso não parece ser tão importante.

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