A empresa Posco Engenharia e Construção do Brasil, criada pela sul-coreana Posco Engineering & Construction Co, pediu autofalência à Justiça do Ceará em setembro de 2025 e vem deixando um rastro bilionário de dívidas, que podem chegar a R$ 1 bilhão. Com informações da coluna de Carlos Madeira, do Uol.

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Criada exclusivamente para a construção da usina siderúrgica CSP (Companhia Siderúrgica do Pecém) em 2016 com um contrato que chega a R$ 28 bilhões com a cotação do dólar atual, a empresa alegou que não tem condições de pagar as dívidas e apresentou alguns bens, incluindo um carro que não funciona mais e que acumula multas.

O contrato para a construção da usina foi pago integralmente, mas depois disso, as coisas começaram a desandar. Isso porque a empresa deixou de pagar trabalhadores e fornecedores contratados, assim como impostos no Brasil. Em 2023, a operação da CSP foi vendida para outra empresa, com o valor pago de R$ 11,8 bilhões.

Após o pedido de autofalência, as cobranças judiciais e os juros ficam paralisados, assim como os processos ficam centralizados em um único juízo. Quando o pedido foi feito, a Posco reconheceu que existe uma dívida de R$ 644 milhões, mas credores já informaram à Justiça que diversos débitos podem ter ficado fora desse número.

Assim, a dívida reconhecida atualmente foi distribuída entre débitos trabalhistas, que passa de R$ 573 milhões; tributário, com R$ 33,7 milhões; quirografário, com R$ 10,4 milhões; e intercompany, com R$ 26,6 milhões. Os valores, no entanto, são contestados, como a dívida com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, informado como R$ 30,2 milhões. A Fazenda afirma que a dívida correta é de 42,7 milhões.

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Entre os credores, além da Fazenda, estão a Receita Federal e o INSS. Segundo o advogado Frederico Costa, presidente da Associação Internacional dos Credores da Posco, os valores dos impostos passam de R$ 200 milhões.

Carro sucateado como bem

No processo, a Posco já afirmou que não consegue pagar a dívida. Entre os bens apresentados, está um Ford Fusion 2015/2016 sem funcionamento, que possui danos e foi multado pelo menos 11 vezes entre outubro de 2020 e agosto de 2025.

A empresa também afirmou que possui um terreno em São Gonçalo do Amarante, no Ceará, avaliado em R$ 1,1 milhão; e R$ 109,80 em conta-corrente, além de R$ 4,8 mil em aplicações financeiras.

Revolta de credores

O advogado Frederico Costa, sócio da empresa com maior valor a receber, afirma que a Posco “nunca chamou para negociar”. Para a Campelo Costa Sociedade de Advogados, a empresa deve R$ 567 milhões.

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A Campelo já obteve em primeira instância a desconsideração da personalidade jurídica. Dessa forma, é permitida a cobrança das empresas que estão por trás da operação brasileira da Posco, como a matriz sul-coreana.

Segundo Frederico Campelo, a intenção é provar que não é a primeira vez que a empresa pede falência dessa forma.

— Esse pedido é claramente fraudulento, apresenta dados falsos e incorretos. Vamos mostrar que a empresa age assim de forma sistemática pelo mundo. Estamos mapeando outros casos semelhantes: dá calote e pede falência — afirmou.

Falência por “crise insuperável”

A empresa nomeada como administradora judicial, a Farias e Lucena Serviços Administrativos, disse, em dezembro de 2025, no processo, que a falência aconteceu por uma “crise econômica estrutural e insuperável, provocada por fatores internos e externos”.

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Entre os motivos apontados para as causas, estão o aumento dos custos operacionais durante a execução do projeto, como mão de obra, materiais e logística; a recessão econômica no Brasil entre 2014 e 2016; a falta de novos contratos após 2018, a crise no setor siderúrgico; e a pandemia de Covid-19.

Em manifestação no processo, no último dia 18 de dezembro de 2025, a empresa nomeada como administradora judicial, Farias e Lucena Serviços Administrativos, afirmou que a falência “decorreu de crise econômica estrutural e insuperável, provocada por fatores internos e externos”, apontando cinco causas:

O presidente da associação de credores, no entanto, reagiu aos motivos apresentados.

— Não se pode querer alegar condições de crise sanitária ou de qualquer natureza para uma obra que teve o seu valor inteiro para a sua contratada, e quando ela sabia desde o início que esta era sua única operação no país. Não havia surpresa, apenas não deixaram o dinheiro em solo brasileiro e o enviaram para as suas controladoras na Coreia — disse Frederico.

Sobre os argumentos, o presidente da associação de credores refuta. “Não se pode querer alegar condições de crise sanitária ou de qualquer natureza para uma obra que teve o seu valor inteiro para a sua contratada, e quando ela sabia desde o início que esta era sua única operação no país. Não havia surpresa, apenas não deixaram o dinheiro em solo brasileiro e o enviaram para as suas controladoras na Coreia”, afirma Frederico.

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