Quando iniciou na engenharia, a gaúcha Jaqueline Bellini (61) percebeu que teria que “fazer mais” para se destacar em um campo predominantemente masculino no final da década de 1980. O que mais motivou a engenheira mecânica, radicada em Joinville aos 22 anos, foram os problemas que encontrou durante o caminho. Ela, inclusive, classifica muitos obstáculos como “problemas divertidos” que a levaram a lugares e posições que nunca imaginou chegar, como liderar o primeiro projeto global da Whirlpool, empresa dona das marcas Brastemp, Consul e KitchenAid.

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Natural de Passo Fundo, cidade que fica a aproximadamente 295 quilômetros de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, Jaqueline aceitou um convite de amigos que acabou mudando a sua vida em 1987. O grupo veio a Joinville, município localizado no Norte de Santa Catarina, para participar de uma entrevista de emprego para integrar uma das primeiras turmas de trainee na Whirlpool. Recém-formada, ela então iniciou na área de engenharia mecânica e desenvolvimento de produtos, algo pelo qual sempre fora apaixonada.

Veja fotos da engenheira

Segundo ela, apenas duas mulheres se formaram em sua turma na Universidade de Passo Fundo em 1986:

— E quando eu entrei aqui, fui fazer a entrevista de trainee, eu era a única mulher engenheira mecânica. E eu não esperava nada muito diferente, porque era um espaço muito similar à universidade. Tinha uma engenheira de alimentos e outras químicas. Mas a mecânica é muito restrita — conta.

De 40 trainees selecionados para a sua turma, apenas ela permanece na Whirlpool. São 39 anos de história dentro da mesma empresa, passando por diversos projetos, cargos e experiências. Ela permaneceu por, aproximadamente, 17 anos na área de engenharia, lidando diretamente com a criação de produtos como o Ice Maker, um dos mais revolucionários na época.

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— Foi um dos meus primeiros projetos de muita importância. Uma máquina de fazer gelo para exportação. A gente fez em cima de um produto compacto que é o frigobar. O meu desafio era colocar uma máquina de gelo ali dentro — relembra.

Segundo Jaqueline, o projeto foi bem manual e rendeu, ainda, a sua primeira viagem aos Estados Unidos. Na época, ela mal falava inglês e, mesmo assim, conseguiu negociar os trâmites necessários para aprovar o lançamento do produto no país e no Canadá.

— Era um produto que ninguém botava muita fé. A gente vendeu cerca de mil peças, que na época era bastante, para pouco investimento. Com uma equipe muito pequena, eu cuidava de tudo. Do investimento, do custo. Eu me diverti fazendo isso — relembra.

Ao longo dos anos na engenharia de produtos, Jaqueline participou de diversos projetos e ajudou a moldar a história da refrigeração em todo o mundo. O primeiro projeto global liderado pela engenheira foi de um produto fabricado em Joinville. Na ocasião, ela passou a interagir com diversas culturas.

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A engenheira chegou a negociar inovações com a Itália, Índia e nações da América Latina. A profissional, inclusive, conheceu mais de 35 países por meio da Whirlpool.

— Eu ia para fábrica, fazia peça. Não me importava, porque eu gostava de fazer isso. Eu acho que isso é uma coisa importante também, gostar de ser engenheiro. E o engenheiro raiz gosta de problema. Porque os meus maiores problemas foram os que me trouxeram as melhores oportunidades de crescimento, de aprendizado, de me desenvolver — afirma.

Alguns produtos ganharam novas roupagens com o passar do tempo, mas seguem no catálogo de produtos das marcas pertencentes à companhia. Atualmente, Jaqueline atua como gerente sênior de assuntos regulatórios em toda a América Latina e afirma que aprende novas coisas todos os dias mesmo após 39 anos de carreira.

Mulheres na engenharia

No Brasil, são 223.711 mulheres engenheiras registradas no Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea). O levantamento realizado em 2025, porém, aponta que o número representa cerca de 20% dos profissionais em todo o país.

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Jaqueline conta que, quando iniciou na engenharia, a bandeira da diversidade e equidade ainda nem existia. Por isso, quando se tornou líder passou a incentivar ainda mais mulheres dentro da Whirlpool, sempre relembrando sua própria história.

— Aí contratei mulheres, contratei engenheiras também fora do Brasil. E eu sempre procurei passar para elas essa paixão de fazer as coisas e se sentir parte delas — diz.

Para ela, as mulheres podem ser muito mais do que a sociedade dita.

— Eu sou mãe, sou engenheira, viajei pra caramba. A gente dá um jeito, se organiza. A mulher é assim, quanto mais coisa você tem, mais você faz. E é importante que você goste de problemas, porque os problemas são oportunidades. Todas as minhas maiores vitórias foram em grandes problemas — aconselha.

Antonietas

Antonietas é um projeto da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.

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