Uma lição de casa focada nas raízes negras surpreendeu positivamente a advogada Karina Berardo, mãe de uma jovem de 15 anos matriculada em um colégio de Brasília. A atividade “A herança da cultura negra na formação do Brasil” é vista por ela como uma exceção no histórico escolar dos filhos. Até então, as abordagens em sala de aula se resumiam ao período da escravidão.

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— Acho que é a primeira vez que a proposta vem com essa perspectiva da contribuição do negro, mas ainda considero um pouco caricata — observa Karina.

A desconfiança de que o tema avança a passos lentos ganhou o respaldo de um diagnóstico robusto: um levantamento inédito com base nos dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) aponta que cerca de 50% dos estudantes de fim de ciclo (9º ano e 3º ano do Ensino Médio) não enxergam discussões sobre a desigualdade racial na rotina escolar.

O descompasso entre o discurso docente e a percepção em sala

A estatística acende o sinal de alerta sobre a efetividade de leis que, há mais de duas décadas, tornaram obrigatório o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena. O ponto central do problema parece residir em uma falha de comunicação pedagógica.

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Há uma distância considerável entre o que os educadores declaram praticar e o que de fato chega aos estudantes. Enquanto 81,6% dos professores do Ensino Fundamental e 71,6% do Ensino Médio afirmam que tratam do assunto “sempre” ou “muitas vezes”, o reconhecimento desse esforço cai pela metade entre os alunos: apenas 46,6% no fundamental e 46,8% no médio validam a afirmação.

Para a pesquisadora Eliane Firmino, do Cebrap, esse descompasso reflete a falta de padronização do sistema.

— A legislação existe, mas os dados sugerem que sua aplicação ocorre de forma heterogênea e ainda marcada por limitações da educação brasileira — pontua.

A ausência do debate é ainda maior na rede privada

O distanciamento da pauta racial se acentua nos extratos de maior poder aquisitivo. O estudo demonstra que o desconhecimento do tema é mais expressivo nos colégios particulares, atingindo 60,8% dos alunos em ambas as etapas, contra uma média de 51% na rede pública.

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O recorte por cor e raça aponta que os estudantes brancos são os que menos notam a presença dessas discussões, registrando até 55,4% de invisibilidade no Ensino Médio.

Entre jovens pretos (51,2%), pardos (50,2%) e indígenas (46,8%), a percepção da ausência do debate é ligeiramente menor. Na visão da socióloga Flávia Rios, professora da USP, a falta de cobrança institucional sobre as instituições privadas abre caminhos para a perpetuação de condutas discriminatórias.

— Estas legislações têm o objetivo de mudar mentalidades, de ensinar conteúdos, atitudes, comportamentos cidadãos, também em relação à nossa diversidade étnico-racial — defende.

Sob essa ótica, a agenda antirracista deve ser entendida como um pilar de interesse coletivo, e não restrito.

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— Não deve ser entendida apenas como uma política voltada para estudantes negros, mas como uma formação cidadã para todos os grupos sociais — complementa Eliane Firmino.

Rompendo a barreira das datas sazonais

No cotidiano das escolas, a temática costuma ficar restrita a eventos isolados do calendário, como o Dia da Consciência Negra. Essa abordagem pontual é criticada pela servidora pública Juliana Couto, de 48 anos, cujas filhas já enfrentaram episódios de preconceito. Pesquisadora do tema, ela reconhece que o debate evoluiu desde a sua juventude, quando o assunto era silenciado, mas projeta uma transformação real apenas para as próximas gerações.

— Talvez minhas bisnetas possam se beneficiar dessas pequenas sementes plantadas neste momento — reflete.

Para acelerar esse processo de maturação, especialistas defendem um monitoramento rigoroso e o envolvimento ativo de profissionais não negros.

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— Quando a gente fala sobre educação das relações étnico-raciais, é para ensinar crianças negras, brancas, indígenas e amarelas sobre o respeito — argumenta Suelaine Carneiro, coordenadora do Instituto Geledés.

O diagnóstico sugere caminhos estruturais para os gestores públicos, como a modernização da formação docente, a escolha intencional de materiais pedagógicos e o aumento da representatividade racial nos quadros de professores.

*Com edição de Luiz Daudt Junior.