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"O importante para o artista é ficar flexível", diz Humberto Gessinger sobre seu processo de adaptação durante a pandemia

23/07/2020 - 07h00

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Por Janaína Laurindo
O artista lançou seu último trabalho, Não Vejo a Hora, no segundo semestre de 2019.
O artista lançou seu último trabalho, Não Vejo a Hora, no segundo semestre de 2019.
(Foto: )

Acostumado com a estrada, Humberto Gessinger veste suas meias e abre a porta de sua casa em vídeos compartilhados em suas redes sociais. O compositor e multi instrumentista, que viu recentemente uma fake news noticiando sua morte por covid-19, tem usado a quarentena para possibilidade de se sensibilizar novamente com a música. 

— A estrada nos insensibiliza, vamos criando uma casca grossa, e digo isso do ponto de vista musical mesmo. Claro, estamos sempre tocando em palcos diferentes, e as vezes na correria sem condições de tirar um som aprimorado. Até esteticamente vamos ficando meio grosseiro. E essa parada que todos nós fomos obrigados a fazer, nos faz repensar — conta o músico.

Acompanhado de um baixo acústico, meio um baixolão, ele tem revisitado composições antigas de sua carreira em vídeos acústicos e despretensiosos – em que suas meias coloridas viraram assunto — o aproximando do público no período de isolamento social.

— De repente nesse momento as pessoas estão procurando encontrar um ser humano do outro lado "da linha", alguém com fragilidades, mais do que uma produção super bem feita. As pessoas me perguntam se eu tenho saudade dos shows e esse contato acaba fazendo com que eu tenha menos — observa Humberto, que acrescenta:

— O importante para o artista é ficar flexível e atento para o momento e para o aqui e agora. O pessoal da minha geração, muitos estão ficando velhos rançosos, reclamando das novidades, mas assim como algumas coisas ficam mais difíceis outras se abrem para novas possibilidades. 

O artista lançou seu último trabalho, Não Vejo a Hora, no segundo semestre de 2019. O quarto de sua carreira solo, traz onze músicas inéditas gravadas em estúdios com duas formações: o "power trio" e o trio acústico, um antigo desejo do músico. As composições feitas ao longo de um ano, com exceção de duas canções um pouco mais antigas, foram feitas por Gessinger em parcerias com Duca Leindecker, parceiro do projeto Pouca Vogal (2008/2012), Bebeto Alves, Felipe Rotta, Nando Peters e Esteban Tavares.

Os singles deste novo projeto estão sendo trabalhados separadamente, forma com que muitos artistas tem apostado para valorizar e dar um maior respiro para o trabalho produzido.

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— Até para quem cria é preciso um distanciamento no tempo para saber exatamente o que acabou de fazer. Nos discos ao vivo com os Engenheiros do Hawaii, por exemplo, eu nunca colocava canções de discos recentes, é legal deixar o disco respirar um pouco — aponta Gessinger, que fala sobre a nova realidade da indústria fonográfica.

— Antes lançávamos um disco a cada dois anos. Hoje tu lança um disco e não acontece nada e depois de um tempo as pessoas descobrem. Isso de um ponto de vista artístico é muito mais legal. Antes tu sabia muito o que ia acontecer nos shows, era muito mais homogêneo. O público hoje é muito heterogêneo, porque no mundo digital as músicas estão ali a um clique de distância.

Nesta semana, em que começa a trabalhar a canção Partiu, essa de sua autoria apenas, o cantor comenta sobre a afinidade de seus fãs com suas composições. 

— É muito gratificante e me surpreende, porque eu não acho que eu sou o tipo de compositor que escreve hinos ou músicas meio de alto ajuda. Eu tenho uma dificuldade, as minhas músicas parece que têm sempre duas visões. Uma música como Toda a Forma de Poder, pode ser uma música política ou sentimental. Eu nunca tive o dom de escrever coisas unidimensionais, então me surpreende que as pessoas tenham tido a paciência de se aproximar mais da minha música e descobrir algumas coisas bacanas nelas.

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Neste sentido, Humberto fala da relação que a música pode criar com as pessoas, principalmente neste período em que elas estão mais introspectivas.

— Faz muito tempo que eu acredito nisso. A música tem uma capacidade de alinhar certos eixos da nossa alma e do nosso corpo. É uma coisa espiritual, mas também física, são as frequências sonoras vibrando e que o ouvido capta de uma maneira física e material, mas ela tem uma conexão espiritual muito forte. A minha vida foi salva algumas vezes pela música, e não foi uma ou duas vezes, tive fases difíceis em que eu encontrei na música um colo.

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