Eram 7h do dia 2 de agosto quando Bárbara de Oms Dourado chegou no salão de beleza dela, localizado no bairro Santa Mônica, em Florianópolis, para mais um dia de trabalho. No entanto, ao abrir o espaço, que fica a 650 metros do batalhão da Polícia Militar, percebeu que estava sem energia elétrica. Intrigada com a situação, chamou a equipe da Celesc e ficou transtornada com a notícia que recebeu dos técnicos da companhia.
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— Estava tudo sem energia. Chamamos a Celesc, que verificou que o problema não era da rua, e sim interno. Quando subimos ao sótão, vimos que todos os fios tinham sido furtados — contou.
Dos cabos principais aos que alimentam os equipamentos internos, toda a fiação elétrica foi levada. O incidente fez com que o estabelecimento ficasse fechado por mais de 8 horas, gerando um prejuízo de R$ 7 mil — sem contar os gastos com o conserto, todos pagos pela empresária.
O caso da dona do salão de beleza de Florianópolis está entre as mais de 8 mil ocorrências de furtos de fios registradas entre janeiro de 2024 e setembro de 2025 em Santa Catarina, conforme dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP/SC). Só neste ano, 3.064 casos foram registrados no Estado.
Para a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), o furto de fios é considerado uma “epidemia urbana” que causa graves impactos para distribuidoras e consumidores em todo o país. Somente em 2024, o órgão registrou mais de 28 mil ocorrências de furtos de cabos em todo o Brasil, com prejuízo superior a R$ 45 milhões para as companhias — em Santa Catarina, foram 5.016, segundo a SSP.
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O advogado Bruno Santos Espindola explica que esses números estão relacionados com a complexidade e o fator cíclico do crime. Isto porque os casos envolvem não apenas quem furta e vende o material, mas toda a sociedade.
Ciclo vicioso
O gerente regional da Celesc, Leandro Seemann, pontua que o furto de cabos é uma questão que envolve fatores sociais e econômicos. As investigações da Polícia Civil reafirmam essa teoria e apontam, ainda, que o ciclo começa nas ruas, passa por comércios irregulares — que revendem o cobre furtado —, esbarra nos órgãos de segurança e de assistência social, até chegar ao ponto em que afeta a população em geral.
— Na maioria dos casos, os boletins apontam para uma complexidade com furto por pessoas em situação de vulnerabilidade social. Já a receptação é feita por comércios irregulares que mantêm o ciclo ativo — explica o delegado e diretor de Polícia da Grande Florianópolis, Pedro Henrique de Paula.
Outros dois pontos que facilitam a prática desse tipo de crime são a alta presença de cobre em fios energizados e o valor elevado. O gerente da Celesc, Leandro Seemann, destaca que, mesmo que o risco de retirada seja alto, o material é valorizado pelos compradores, chegando a valer até R$ 50 por metro no mercado clandestino. No entanto, o crime traz um prejuízo ainda maior para os moradores e a companhia responsável pela energia no Estado, conforme Leandro:
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— A recomposição da rede furtada custa caro e não ocorre de forma imediata, já que é preciso identificar os materiais levados, adquirir novos condutores e, só então, iniciar a reconstrução do sistema […]. O maior impacto é a energia não distribuída e o transtorno para a população. Um furto pode deixar um prédio inteiro sem luz, impedir consultas médicas, o uso de elevadores e até causar acidentes.
Além do gasto financeiro, esse tipo de crime também pode gerar outros problemas, como explosões, curtos e até sobrecarga em outros trechos da rede, conforme explica o especialista em redes e manutenção elétrica, Henrique Schmokel.
— Em questão de segundos, o contato errado pode causar um estrago total. Quando um trecho é cortado, há desequilíbrio de tensão e isso encarece todo o serviço de manutenção. O prejuízo é coletivo — diz.
Furtos deixam rastros no dia a dia da população de SC
Os furtos de cabos elétricos já provocaram mais de R$ 900 mil em prejuízos à Celesc apenas em 2025, um valor que representa 20% a mais do que no ano anterior, como aponta o gerente da companhia, Leandro Seemann. Para além das consequências financeiras, os crimes também causam transtornos na vida da população catarinense.
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Em 2015, por exemplo, três escolas da Grande Florianópolis ficaram sem energia elétrica após serem vítimas de furtos de fios. À época, o governo do Estado estimou um prejuízo de R$ 500 mil aos cofres públicos para a reposição de toda a fiação.
E a prática segue fazendo vítimas, 10 anos depois. É o caso da Creche Municipal Irmãos Celso, localizada no bairro Agronômica, em Florianópolis, que também ficou sem energia após ser alvo de furto de fios em setembro deste ano. O crime afetou 112 crianças que estudam no local.
O impacto também ocorre no trânsito. No dia 11 de setembro, a cidade amanheceu com filas quilométricas após diversos semáforos ficarem desativados por mais de três horas na Avenida Beira-mar Norte, uma das principais vias da cidade, devido a um furto de fios na região.
Estabelecimentos comerciais também são alvos deste tipo de crime. Em abril deste ano, por exemplo, cerca de 1,3 mil unidades consumidoras do Centro da Capital ficaram sem luz após uma tentativa de furto de fios da rede subterrânea de um alimentador de energia elétrica gerar um apagão. O prejuízo passou de R$ 100 mil, segundo a Celesc.
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Fora de Florianópolis, outras cidades de Santa Catarina também convivem com as consequências deixadas por esta cadeia criminosa. No início do ano, um grupo que usava roupa de eletricista para subir nos postes e mexer na fiação foi preso em Blumenau. Em agosto deste ano, em Joinville, o furto de toda a fiação de um parque, gerou um prejuízo superior a R$ 120 mil aos cofres públicos, segundo a Secretaria de Infraestrutura Urbana (Seinfra).
Conforme levantamento de furtos de fios da Secretária de Segurança Pública de Santa Catarina (SSP/SC), entre os anos de 2024 e 2025, o crime segue um padrão cíclico e geográfico, migrando entre os municípios. A empresa aponta que esse fenômeno pode acontecer com a intensificação das ações de substituição dos fios de cobre por alumínio e do reforço na estrutura que protege os materiais, medidas que buscam coibir o crime, conforme explica o gerente regional da Celesc na Grande Florianópolis, Leandro Seemann.
— Existe uma mudança. Em 2024, tivemos uma redução [em São José], mas neste ano o número voltou a crescer. Agora, os furtos estão migrando novamente para São José — destaca.
Ainda de acordo com Seemann, o litoral e a região metropolitana estão vivendo furtos diários. Dados apontam que municípios localizados nessas regiões registram, em média, dois a três casos de furto de cabos por dia.
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Cidades como Florianópolis e Palhoça, por exemplo, registraram mais casos de furto de fios até setembro deste ano do que no ano passado inteiro. A Capital, por exemplo, registrou 479 casos até o mês passado, comparado com 409 registros do total de 2024. Em Palhoça, foram 286 furtos nos primeiros nove meses do ano, enquanto em 2024, o total de registros foi de 188, um aumento de 52%.
Receptação é a raiz do problema, diz delegado
Ferros-velhos e pontos de reciclagem ou sucatarias são os principais compradores de fios oriundos de furtos em Santa Catarina. De acordo com o delegado Willian Sales, da Delegacia de Roubos de São José, quem vende (ou compra, guarda, oculta) material metálico de origem furtada pode ser responsabilizado pelo crime de receptação, com pena de até 16 anos de prisão.
A grande disparidade de preços entre os estabelecimentos legais e ilegais está entre as principais indicações de que o fio é fruto de furto. Segundo Salles, outro indício está na falta de nota fiscal ou de comprovação de procedência lícita do material, visto que os proprietários dos ferros-velhos e recicladoras são obrigados a informar a origem do material.
— Os compradores são os alvos principais das investigações, pois a receptação é o que sustenta o furto. Em Santa Catarina, medidas administrativas foram endurecidas. Empresas flagradas comprando ou revendendo materiais de origem criminosa podem ter a inscrição estadual cancelada e ficar impedidas de atuar na mesma atividade e endereço por cinco anos — explica.
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Nos últimos anos, a Polícia Civil de Santa Catarina, em conjunto com a Polícia Militar e Guarda Municipal, deflagrou em diversas ocasiões a operação “Fio Desencapado” em cidades da Grande Florianópolis. O foco é os ferros-velhos e pontos de reciclagem, resultando na interdição desses estabelecimentos e apreensão de materiais sem procedência.
— Esses locais são os principais pontos de receptação. O cobre é valorizado e revendido, o que mantém o ciclo do crime. A Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Civil trabalham em conjunto com a Celesc e outros órgãos, planejando ações intensificadas de inteligência e fiscalização — destaca o delegado.
Além das investigações e mandados de busca e apreensão, há campanhas de sensibilização em andamento para alertar comerciantes e a população sobre os riscos e as consequências da receptação:
— A ideia é atacar a raiz do problema. Se reduzirmos a compra e a revenda do material furtado, o furto deixa de ser lucrativo.
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Ações sociais e penas mais duras para quebrar ciclo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou em julho deste ano uma lei que aumenta a pena para quem furta fios no Brasil. Conforme a nova legislação, ela pode chegar a oito anos de prisão. Anteriormente, a determinação nº 15.181 no Código Penal previa quatro anos de reclusão.
Ao mesmo tempo em que governo federal aumenta reclusão para condenados por crime, programas de acolhimento e capacitação de pessoas em situação de rua tentam atacar a raiz de problema. Isto porque, em Santa Catarina, entende-se que o furto envolve questões sociais, econômicas e criminais, exigindo uma resposta integrada entre diferentes setores do poder público.
A partir disso, ações sociais voltadas para pessoas em vulnerabilidade, que veem na revenda do cobre uma forma rápida de conseguir dinheiro, são tomadas diariamente. A prefeitura de Florianópolis, por exemplo, tem apostado em programas de acolhimento e capacitação através de cursos para reinserção no mercado de trabalho, evitando que o crime seja uma opção. Em média, a Assistência Social, em conjunto com a Guarda Municipal e a Secretaria de Ordem Pública, realiza 480 abordagens semanais para pessoas em situação de vulnerabilidade social.
As pessoas são encaminhadas à Passarela da Cidadania. O espaço oferece abrigo, quatro refeições diárias, serviços de higiene e lavanderia, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e oficinas profissionalizantes. Para a secretária da pasta, Luciane dos Passos, esse tipo de acolhimento é fundamental na redução dos crimes.
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— Enquanto houver pessoas em vulnerabilidade extrema e sem perspectivas de reinserção social, o risco de reincidência nesses casos continuará alto. É um problema que exige resposta não só policial, mas também social — reforça a secretária da pasta.
Nos últimos 90 dias, 61 acolhidos conseguiram retornar ao mercado de trabalho, resultado direto das ações de qualificação e acompanhamento técnico com foco na autonomia e reinserção social.
Entre os cursos oferecidos no local estão Banho e Tosa, Marcenaria, Costura, Barbearia, Serviços Gerais e Jardinagem, além do EJA Pop, voltado à retomada dos estudos. O projeto acredita que quanto mais oportunidades de renda digna e estabilidade social, menor é o risco de que a sobrevivência dependa de práticas ilegais.
Substituição de equipamentos também é feita para diminuir furto
As opções de enfrentamento variam conforme as regiões do Estado e especificidades de cada caso. Para tentar reduzir as ocorrências, uma medida da Celesc, por exemplo, é substituir fios de cobre por alumínio sempre que tecnicamente possível.
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No entanto, pensar em alternativas como a substituição dos fios de cobre por um novo padrão de distribuição elétrica sem o material não é considerada uma opção em regiões próximas ao mar, já que, de acordo com Leandro Seemann, gerente regional da companhia, o cobre é um dos poucos produtos resistentes à salinidade litorânea:
— Em ambientes litorâneos, onde a umidade e a maresia são constantes, os fios de cobre são essenciais pois têm alta resistência à corrosão.
Além das substituições, os reforços na rede são medidas recentes que buscam proteger a infraestrutura pública. Em Florianópolis, por exemplo, tampas pesadas de concreto estão sendo instaladas em caixas subterrâneas, dificultando, assim, o manuseio da estrutura sem equipamentos especializados.
Já os órgãos de segurança monitoram as ações suspeitas. Em contato com a reportagem, a Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) informou que mantém operações contínuas de fiscalização e abordagem em todo o Estado, em parceria com a Polícia Civil, Guardas Municipais, Celesc e operadoras de telefonia.
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Por outro lado, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) tem apostado em sistemas de reconhecimento facial e monitoramento inteligente em pontos estratégicos de Santa Catarina. Apesar do avanço tecnológico, o órgão reconhece que ainda não há estudos específicos sobre as causas para o crescimento do crime no Estado.
Como agir
Em meio a essa problemática que atinge diversas regiões de Santa Catarina, cresce também a dúvida: o que fazer ao perceber que a fiação foi furtada? Bruno Santos Espindola, advogado especialista em Direito Civil e do Consumidor, orienta que o primeiro passo é registrar um boletim de ocorrência.
— Isso é essencial para que o município mapeie os locais mais afetados e para que o consumidor tenha respaldo formal do ocorrido — explica.
Depois disso, deve-se notificar a Celesc, informando a falta de energia e aguardando o prazo de recomposição. Quando equipamentos queimam, produtos estragam e famílias ficam horas, ou até dias, sem luz, também há um protocolo a ser seguido. Tudo depende do tipo de dano e das circunstâncias do caso:
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— Quando falamos em indenização, precisamos entender dois tipos de responsabilidade: a objetiva, que ocorre quando o dano é causado diretamente pela concessionária, e a subjetiva, quando há fatores externos, como furtos de cabos ou eventos de terceiros.
De acordo com o advogado, o consumidor tem direito à compensação em casos de prejuízo material, desde que comprove a relação entre o dano e a falta de energia. O consumidor pode solicitar ressarcimento diretamente à Celesc, por meio de formulário no site ou aplicativo, apresentando nota fiscal e prova do dano.
Veja o infográfico
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