Em algum momento em 1925, os moradores de Indaial se reuniram às margens do Rio Itajaí-Açu para observar uma cena incomum. Vestido com um pesado traje metálico e conectado à superfície por mangueiras, um escafandrista trabalhava nas fundações da futura ponte que atravessaria o rio. Para uma comunidade que ainda vivia os primeiros anos da modernização da região, a presença daquele profissional parecia uma coisa de outro mundo.
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Quase um século depois, a estrutura continua no mesmo lugar. Conhecida como Ponte dos Arcos, ela atravessou enchentes, transformações urbanas e gerações de moradores até se tornar um dos principais símbolos de Indaial. Em outubro, completará um século cercada de histórias que misturam ousadia técnica, acidentes de obra e um capítulo importante da engenharia brasileira.
Veja fotos antigas da ponte
Indaial ainda era distrito
A construção começou em uma época em que Indaial ainda era distrito de Blumenau. Ela foi construída para facilitar o acesso à Estrada de Ferro Santa Catarina, que passava pelo outro lado do Rio Itajaí-Açu. Na época, a ponte foi recebida com celebração também pelos moradores de Benedito Novo, Timbó, Rodeio e Encruzilhada, que hoje é Rio dos Cedros, que precisavam arcar com uma balsa para se deslocar.
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O contrato firmado em 19 de fevereiro de 1924 com a empresa Emílio Odebrecht & Cia. previa um custo de 440 contos de réis para a execução da estrutura de concreto armado, com 175 metros de extensão e seis metros de largura. Considerando a cotação da época, correspondia a cerca de 136,4 mil dólares, um valor já expressivo para os padrões daquele período.
O investimento foi dividido entre o governo de Santa Catarina, responsável por 240 contos de réis, e o município de Blumenau, que arcou com outros 200 contos. Porém, despesas extras, causadas por enchentes e adaptações no projeto, elevaram o custo final para aproximadamente 500 contos de réis, com a diferença sendo custeada pela população dos distritos e até moradores beneficiados pela obra.
O responsável pelo projeto foi Emil Heinrich Baumgart, nome que foi abrasileirado para “Emílio Baumgart” em alguns registros. O engenheiro blumenauense se tornaria uma das maiores referências do concreto armado no país, uma técnica que combina o concreto com uma armadura de aço, trazida por ele mesmo da Alemanha, como conta a historiadora Angelina Wittmann.

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Engenheiro participou até do Copacabana Palace
Décadas depois, o mesmo nome estaria associado a obras emblemáticas como o Edifício Joseph Gire, mais conhecido como A Noite, no Rio de Janeiro, considerado o primeiro arranha-céu da América Latina. Ainda mais notório, foi a participação de Emil em 1923 no Copacabana Palace, o hotel símbolo da praia mais famosa do Brasil, segundo a Associação dos Engenheiros e Arquitetos do Médio Vale do Itajaí.
Porém, foi às margens do Itajaí-Açu que uma das histórias mais curiosas da carreira de Baumgart começou a tomar forma.
A enchente que mudou o destino da ponte
Quem observa a Ponte dos Arcos hoje talvez não imagine que ela quase foi diferente. O projeto original previa que os arcos ficassem na parte inferior da estrutura. Porém, durante a construção em maio de 1924, uma rápida elevação do nível do rio levou embora as formas de madeira que estavam preparadas para a concretagem.
O incidente obrigou Baumgart a rever o projeto em pleno andamento da obra, ou seja, ele precisou trocar o pneu com o carro andando. A solução encontrada foi transferir os arcos para a parte superior da ponte, criando o visual que se tornaria uma marca registrada de Indaial.
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Segundo relatos históricos, a experiência marcou profundamente o engenheiro e ajudou a inspirar o desenvolvimento do método dos balanços sucessivos, um sistema construtivo utilizado em pontes de grandes vãos e reconhecido internacionalmente. Anos depois, Emil aplicaria a técnica novamente na ponte sobre o Rio do Peixe, entre Joaçaba e Herval d’Oeste.
Uma ponte à frente do seu tempo
Inaugurada em 10 de outubro de 1926, a Ponte Emílio Baumgart, mais conhecida como a Ponte dos Arcos, figurava entre as primeiras do Brasil a utilizar concreto armado em larga escala, uma tecnologia considerada moderna para a época. A construção ajudou a consolidar uma mudança na forma como pontes eram projetadas e executadas no país.
Ela foi construída sobre quatro pilares, com cinco arcos, a 6,90 metros acima do nível normal do rio, com comprimento de 175 metros e a largura de seis metros. A concretagem dos pilares precisou do trabalho de um escafandrista, que é um mergulhador com escafandro, um equipamento clássico de proteção para mergulho, composto por uma pesada roupa impermeável e um capacete rígido de metal fechado.
A pedra fundamental foi assentada em 13 de fevereiro de 1925. Segundo a historiadora Angelina Wittmann, um total de 45 pessoas trabalharam na obra, entre encarregados e operários. O escafandrista necessário para o serviço teria sido José Caetano dos Reis, trazido de Portugal somente para trabalhar na ponte indaialense por dominar a técnica do mergulho para concretagem, segundo o Portal de Indaial.
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Ao longo das décadas, a obra que nasceu como uma solução de infraestrutura se transformou em um patrimônio histórico e cartão-postal de Indaial. Mesmo para quem atravessa a ponte diariamente, parte dessa trajetória permaneceu pouco documentada.
O resgate de uma história quase esquecida
Às vésperas do centenário, os professores da Universidade Regional de Blumenau (FURB) iniciaram um trabalho para reunir informações históricas e técnicas sobre a estrutura. A iniciativa é liderada pelos professores Abrahão Bernardo Rohden e Matheus Bieging, do departamento de Engenharia Civil, em parceria com uma empresa da região.
O objetivo é localizar documentos, registros e informações capazes de reconstruir a história da ponte e preservar a memória para as próximas gerações. Em maio, uma das primeiras etapas do projeto utilizou um drone equipado com sensores capazes de escanear toda a estrutura. A tecnologia permitiu criar um modelo tridimensional detalhado da ponte, registrando com precisão as características atuais.
Segundo os pesquisadores, a escassez de projetos originais e documentos técnicos torna o levantamento ainda mais importante. A expectativa é que o material coletado ajude a compreender melhor a obra, mas também a inserir a Ponte dos Arcos no conjunto de estudos sobre a evolução da engenharia brasileira para os universitários.
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— É uma ponte muito importante e há pouco material documentado sobre ela. Temos livros que contam a história das pontes do Brasil e ela, infelizmente, não está nesse acervo. Uma das coisas que pretendemos fazer é trazer informações, documentos técnicos que registrem a história dessa obra tão importante — explica o professor Rohden, que também é coordenador do curso.
Um século depois da inauguração, a ponte, que foi recebida com festa por parte da população, segue conectando margens. Agora, também ajuda a conectar o presente à histórias que quase se perderam no tempo. Algumas delas envolvem enchentes, inovação e até um escafandrista que, há 100 anos, chamou a atenção dos moradores ao mergulhar nas águas do Itajaí-Açu para ajudar a erguer uma das estruturas mais emblemáticas do Vale do Itajaí.





























































