A China Communications Construction Company (CCCC), estatal chinesa responsável pela ponte-túnel Hong Kong-Zhuhai-Macau, uma das maiores obras subaquáticas já executadas no mundo, vai participar da construção do túnel imerso entre Santos e Guarujá, no litoral paulista. A travessia, primeira do tipo a ser construída no Brasil, tem investimento estimado em R$ 6,8 bilhões, é considerada a maior obra do novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e deve reduzir o tempo de travessia entre as duas cidades de até uma hora por rodovia (ou 18 minutos de balsa) para cerca de dois minutos, com tarifa prevista em R$ 6,15 para carros. A conclusão está prevista para 2030.

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A participação chinesa acontece por meio da construtora portuguesa Mota-Engil, vencedora do leilão da concessão em setembro de 2025.

A CCCC detém cerca de 32% do capital da empresa portuguesa, e entra no projeto com aporte financeiro e transferência da expertise técnica acumulada em décadas de obras subaquáticas na Ásia.

Será o primeiro grande teste da engenharia chinesa de túneis imersos em território brasileiro, uma tecnologia inédita por aqui, mas consolidada em países como China, Holanda e Dinamarca.

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Quem é a CCCC, a estatal chinesa por trás da participação na obra

A China Communications Construction Company é uma das maiores empresas de infraestrutura do mundo e uma das principais executoras do programa de obras internacionais do governo chinês, conhecido como Nova Rota da Seda.

A estatal tem participação em projetos de portos, rodovias, ferrovias e túneis em mais de 150 países, e é particularmente reconhecida pela expertise em obras subaquáticas de grande escala. Entre as obras que consolidaram a reputação técnica da empresa estão:

  • Ponte-túnel Hong Kong-Zhuhai-Macau, concluída em 2018, com 55 quilômetros de extensão total, considerada uma das obras de engenharia mais complexas já executadas no mundo
  • Ligação Shenzhen-Zhongshan, inaugurada em 2024, que combina ponte e túnel imerso e reduziu o tempo de travessia entre as duas cidades de duas horas para 30 minutos
  • Túnel da Baía de Dalian, no norte da China, um dos maiores túneis subaquáticos rodoviários do país

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A presença da empresa no projeto brasileiro não é de construção direta, mas de participação acionária na concessionária.

A Mota-Engil, portuguesa, lidera o consórcio vencedor, e a CCCC entra com capital e transferência de conhecimento técnico, modelo que a empresa chinesa tem adotado em outros mercados onde não atua sozinha.

Na prática, isso significa que o padrão técnico do túnel Santos-Guarujá deve incorporar a experiência acumulada pela estatal em décadas de obras subaquáticas na Ásia.

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Como será o túnel Santos-Guarujá

O projeto prevê uma estrutura com dimensões e capacidades específicas, pensada para atender tanto o tráfego urbano quanto a logística portuária. Os principais números da obra são:

  • Extensão total: 1,5 quilômetro, sendo 870 metros imersos sob o canal do Porto de Santos
  • Investimento estimado: R$ 6,8 bilhões, com R$ 5,14 bilhões divididos entre União e governo paulista e o restante aportado pela concessionária
  • Prazo de concessão: 30 anos em modelo de Parceria Público-Privada (PPP) patrocinada
  • Início das obras: previsto para 2026
  • Conclusão: prevista para 2030

A travessia foi desenhada para receber carros, motos, ônibus, caminhões, pedestres, ciclistas e uma faixa reservada ao VLT, ampliando o efeito da obra sobre a mobilidade de toda a Região Metropolitana da Baixada Santista, que tem cerca de 2 milhões de habitantes distribuídos em nove municípios.

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Quem vai pagar, quanto e as tarifas previstas

Como se trata de uma PPP patrocinada, a remuneração da concessionária virá de duas fontes: tarifas pagas pelos usuários e contraprestação anual paga pelo poder público (R$ 436,1 milhões por ano, conforme a proposta vencedora). As tarifas definidas no edital são:

  • Automóveis: R$ 6,15 por travessia
  • Motocicletas: R$ 3,07 por travessia
  • Ônibus e caminhões: R$ 18,35 por travessia

Os valores são iniciais e seguirão regras de reajuste previstas em contrato. Hoje, cerca de 80 mil pessoas cruzam diariamente o canal entre Santos e Guarujá, a maioria pela balsa administrada pelo governo estadual ou por rodovias que fazem o contorno pela BR-101, trajeto que pode levar até uma hora em horários de pico.

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Por que a megaobra é considerada estratégica para o Brasil

O túnel Santos-Guarujá é tratado pelo governo federal como a principal entrega do novo PAC em infraestrutura de transportes.

A razão é que a obra conecta duas cidades separadas pelo canal de acesso ao Porto de Santos, o maior da América Latina, responsável por cerca de 30% de toda a movimentação de cargas do comércio exterior brasileiro.

A travessia por balsa, hoje, é um gargalo logístico que afeta o fluxo de mercadorias, o transporte de trabalhadores portuários e o turismo regional.

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A demanda por uma travessia fixa entre Santos e Guarujá começou a ser discutida ainda no início do século 20, daí a frase do ministro Silvio Costa Filho, de Portos e Aeroportos, de que o túnel encerra “uma espera de 100 anos”. Os impactos esperados vão além da redução de tempo:

  • Alívio do gargalo logístico do Porto de Santos, maior da América Latina
  • Melhora direta na rotina de 80 mil pessoas que cruzam o canal diariamente
  • Geração de empregos durante a fase de obras (estimada em milhares de postos diretos e indiretos)
  • Integração mais rápida entre os nove municípios da Região Metropolitana da Baixada Santista
  • Alternativa fixa à balsa, que hoje enfrenta filas longas em finais de semana e alta temporada

O que ainda falta para a obra começar

Apesar da definição do leilão e da confirmação da concessionária, a obra ainda precisa cumprir etapas antes do canteiro efetivamente abrir.

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A licença ambiental prévia já foi emitida pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), e a definição da área onde será instalada a doca de montagem dos módulos do túnel está prevista para 2026.

A fase de montagem e imersão da estrutura deve ocorrer até 2030, acompanhada da construção dos acessos viários em Santos e Guarujá. Após os 30 anos de concessão, a administração do túnel passará à Autoridade Portuária de Santos (APS).

Se o cronograma for cumprido, o Brasil terá, ao fim da década, uma das obras de infraestrutura mais simbólicas do país em operação, com a marca da engenharia chinesa acumulada ao longo de décadas de túneis subaquáticos na Ásia.

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Os detalhes técnicos do projeto estão disponíveis no documento da audiência pública realizada pelo Ministério de Portos e Aeroportos.