Natureza, ruínas, construções históricas e a identidade compartilhada por uma comunidade tradicional. Tudo isso integra o Caminho da Costa da Lagoa, em Florianópolis, que é tombado pelo Decreto Municipal nº 247/86, documento que determina que a área é Patrimônio Histórico e Natural de Florianópolis. Ele reforça a importância histórica da comunidade, que tem registro dos primeiros moradores do período pós-colonial em meados de 1750.

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A região do Canto dos Araçás, onde inicia a área tombada, era conhecida como Valagão. O caminho histórico segue daquele ponto até a Praia do Saquinho, próximo ao Parque Estadual do Rio Vermelho. A vegetação e as construções históricas na região também são tombadas, além do próprio caminho, que servia como importante via de conexão com outras comunidades e, atualmente, é utilizado pelos próprios moradores e por turistas que visitam a Costa da Lagoa.

O historiador e museólogo Francisco do Vale Pereira, integrante do Núcleo de Estudos Açorianos (NEA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), explica que o decreto reforça a identidade e relevância da região para o município.

— A Costa da Lagoa é tombada como patrimônio histórico, artístico e natural do município de Florianópolis. Na prática significa que aquela área, com todos os seus aspectos da vida que existe ali, tanto da vida vegetal, da vida animal e da vida de pessoas que estão naquela região, tudo isso faz parte de um contexto e tem importância, significado e sentido. Tudo isso representa uma identidade muito específica e daquela comunidade — destaca o historiador.

As características, natureza e a vida naquele local devem ser preservadas, o que mostra um reconhecimento de uma reivindicação da comunidade que adotou aquele estilo de vida como o seu, pontua Francisco.

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Primeiros habitantes podem ter chegado antes da colonização

Não há exatidão de quando os primeiros moradores se instalaram na comunidade, já que a presença de indígenas em toda a Ilha de Santa Catarina é decorrente de antes da chegada dos portugueses no século XVII. Por isso, a suspeita é de que, muito antes da colonização, os povos originários já estavam presentes no local, principalmente pela disponibilidade de água em abundância.

Em 1673, segundo os historiadores, chegou até a Ilha de Santa Catarina a comitiva portuguesa vinda da capitania de São Vicente que fundou a então Nossa Senhora do Desterro. Quase 80 anos depois, em 1750, é que foi criada a freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, onde, de fato, há os primeiros registros de moradores na região da Costa da Lagoa.

— Ali era um caminho que se fazia pela nascente e vertente da cachoeira, com a comunicação que se fazia tanto com Ratones, Monteverde, Saco Grande, e também para facilitar o acesso a essas comunidades e ao outro lado da ilha — detalha o historiador.

Com o passar dos anos, a comunidade se transformou, mas também manteve tradições e raízes que a tornam uma espécie de “mundo à parte”, muito diferente do ritmo agitado da capital catarinense, a um barco ou uma trilha de distância. As tradições e gastronomia típica são exemplo, sempre em torno dos frutos do mar, com ingredientes como o camarão e a carapeva, capturados na Lagoa, além do pirão de caldo de peixe — feito com a farinha de mandioca —, uma tradição indígena que foi adaptada aos engenhos de farinha, muito comuns na região.

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— O que permanecem preservadas são as características e a vida daquela comunidade, os aspectos culturais, as tradições. O saber fazer, a vida que gira em torno daquela comunidade — pontua o historiador.

Já entre as mudanças está a maior conectividade com os outros bairros, que antes era feita majoritariamente pelas trilhas, mas que hoje conta com diferentes rotas de barcos. Ainda, a chegada de moradores atraídos por esse estilo de vida, mais pacato e conectado com a natureza, também transformou e deu uma nova identidade para a comunidade da Costa.

Manifestação levou a tombamento em 1986

Um marco na história da comunidade foi a manifestação contrária em 1981, através de plebiscito, sobre a abertura de uma estrada que possibilitasse o acesso de pessoas à região em maior volume. De acordo com o historiador Francisco Pereira, a votação contrária a esse processo de urbanização ocorreu mais de uma vez, e resultou no tombamento do Caminho da Costa em 1986.

— Primeiro que é para preservar as características [do local], depois para preservar suas propriedades, porque como é uma região bastante montanhosa, com poucas planícies para a ocupação, realmente não tem como expandir e ter uma ocupação populacional ali, uma densificação daquela região — afirma.

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A conexão da comunidade com a Lagoa da Conceição, de onde se extrai o alimento e por onde se fazem os trajetos entre os pontos de parada e os terminais de conexão com os bairros, também é um ponto característico da Costa, afirma o historiador. Esse tipo de relação intrínseca com a água, que marca a própria vivência dos moradores, pode ser chamada de “vida anfíbia”, conceito trazido pelo pesquisador Franklin Cascaes.

—  Franklin Cascaes já falava sobre isso. O Peninha também enfatizava bastante, que a vida de pessoas e o seu modo de vida, a sua sustentabilidade está uma hora voltada para a terra e outra hora voltada para a água, seja para o mar ou para essas lagoas. Essas características estão bem visíveis, bem preservadas e bem vividas ali na comunidade da Costa da Lagoa — destaca Francisco.

A Costa da Lagoa também foi cenário do filme “A Antropóloga”, um longa-metragem catarinense, de Zeca Nunes Pires, profissional de cinema do Departamento Artístico Cultural da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A produção foi vencedora do prêmio Governo do Estado de Santa Catarina – Cinemateca Catarinense-ABD/SC na categoria de longa-metragem e retrata a história de uma antropóloga que veio do arquipélago dos Açores, em Portugal, para estudar e conhecer a realidade daquela comunidade de difícil acesso.

Construções históricas símbolos da região

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Casarão e engenho: os símbolos da Costa da Lagoa

Duas construções históricas marcam o Caminho da Costa da Lagoa e a comunidade que vive ao seu redor. O primeiro é o Casarão da Dona Lóquinha, que é um dos locais imperdíveis para quem visita a região, seja pela sua imponência em meio à vegetação, com mais de 200 anos de história, ou pelo papel histórico que desempenha para a Costa.

Com quatro janelas no andar superior e duas portas grandes, que dão de frente para o caminho da Costa da Lagoa, o sobrado em estilo colonial se destaca em meio à vegetação e é considerado um exemplar único em Santa Catarina. Registros da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) apontam que ele foi construído em meados de 1780, possivelmente por pessoas escravizadas.

— As informações que nós temos é que ele foi construído já em 1780, o que marca a presença e a chegada dos casais açorianos que vieram lá do arquipélago dos Açores para ocupar aquela região. Então é uma casa que tem por aí seus 245 anos — destaca o historiador.

Emilia Felix Ramos, a famosa Dona Lóquinha, viveu entre 1895 e 1991. Ela foi a última moradora da casa, junto ao marido, Casimiro Idalino Ramos, e a Dona Maria (Tomé) de Jesus. No ano de 1991, o casarão foi vendido. Sem moradores, nem uso, a mata começou a tomar conta da edificação, com plantas nascendo nas paredes, desalinhando telhas e umedecendo o interior. O local ficou deteriorado até que um grupo de profissionais de arquitetura e museologia se uniram aos proprietários para a restauração.

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Já em 2018, o casarão passou a ser reconhecido como patrimônio pela comunidade da Costa da Lagoa, através dos trabalhos da pesquisadora Sônia Marisa Melim Rocha. Em 2021, foi criado o projeto “Viva o Sobrado! Casarão da Dona Lóquinha”, que foi contemplado com o Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura. 

Durante o ano seguinte, foram feitas ações emergenciais na estrutura, e, em 2023, ações de estabilização no telhado. Também foi inscrito o Projeto de Restauro e Adaptação ao Uso Comunitário no Programa de Incentivo à Cultura (PIC). O objetivo final do projeto é que o casarão possa ser reaberto para a comunidade, após os trabalhos de restauração.

No primeiro semestre de 2022, foi desenvolvido o Diagnóstico do Estado de Conservação do imóvel, um documento que possibilitou definir quais seriam as intervenções necessárias para restaurar a edificação e futuramente abri-la ao público. Todo esse processo foi gravado e resultou no documentário “O Diagnóstico”.

Já o engenho de farinha, por sua vez, foi construído por volta de 1790, período que já contava com a presença dos açorianos na Ilha de Santa Catarina. Na época, a região era uma grande produtora de alimentos para quem morava na comunidade, como feijão, mandioca, cana de açúcar, café, bergamota, limão, entre outros. Com o período da República, em 1889, houve uma transformação da vida agrícola em pesqueira, voltada ao mar e à Lagoa.

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— Há um levantamento que diz que na região da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa existia, em 1797, pelo menos 101 engenhos de farinha, sem contar ainda alguns engenhos de açúcar, alambiques, atafonas, para moer outros grãos, e até engenhos movidos à água. Era uma região bastante produtiva — aponta  historiador.

O engenho preserva técnicas tradicionais do processamento da mandioca, que integram a cultura litorânea de Santa Catarina. Entre 1991 e 2016, o espaço era utilizado para as famosas “farinhadas”, festas que marcam o início do período de produção da farinha, nos meses de inverno. Um problema na estrutura do telhado fez com que o local parasse de funcionar, já que a estrutura que o sustenta está conectada ao maquinário, e a utilização poderia comprometer a edificação histórica.

Agora, o projeto “Recupera Engenho” quer resgatar a cultura e a tradição deste espaço, com a recuperação do telhado e restauração de duas vigas “madres”, que sustentam a estrutura principal do maquinário, para garantir segurança e conservação. O projeto, com atuação da ONG Costa Legal, busca garantir a preservação do edifício e retomar o uso comunitário do espaço, além de valorizar a memória do engenho.

Fotos revelam cotidiano da Costa da Lagoa, em Florianópolis

Costa da Lagoa: uma joia escondida na Ilha da Magia

O especial “Costa da Lagoa: uma joia escondida na Ilha da Magia” retrata como é viver na comunidade de Florianópolis onde só é possível acessá-la por meio de trilha ou barco. Em uma série com seis reportagens, o leitor poderá conhecer histórias, as curiosidades, a biodiversidade e a rotina de quem vive no canto mais isolado da capital catarinense.

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